Laços de família – porque
às vezes são frágeis e nada amistosos
ASTOLFO
O. DE OLIVEIRA FILHO
O primeiro tópico é de autoria do próprio Allan Kardec; o
segundo é de autoria do Espírito de Santo Agostinho, um dos instrutores
espirituais que participaram da obra de codificação dos ensinamentos espíritas, razão pela qual o Espiritismo era também chamado por
Kardec como Doutrina Espírita ou Doutrina dos Espíritos.
A parentela corporal e a parentela espiritual
Os laços do sangue não criam forçosamente os
liames entre os Espíritos. O corpo procede do corpo, mas o Espírito não procede
do Espírito, porquanto o Espírito já existia antes da formação do corpo. Não é
o pai quem cria o Espírito de seu filho; ele mais não faz do que lhe fornecer o
invólucro corpóreo, cumprindo-lhe, no entanto, auxiliar o desenvolvimento
intelectual e moral do filho, para fazê-lo progredir.
Os que encarnam numa família, sobretudo como
parentes próximos, são, as mais das vezes, Espíritos simpáticos, ligados por
anteriores relações, que se expressam por uma afeição recíproca na vida
terrena. Mas, também pode acontecer sejam completamente estranhos uns aos
outros esses Espíritos, afastados entre si por antipatias igualmente
anteriores, que se traduzem na Terra por um mútuo antagonismo, que aí lhes
serve de provação.
Não são os da consanguinidade os verdadeiros
laços de família e sim os da simpatia e da comunhão de ideias, os quais prendem
os Espíritos antes, durante e depois de
suas encarnações. Segue-se que dois seres nascidos de pais diferentes podem ser
mais irmãos pelo Espírito, do que se o fossem pelo sangue. Podem então
atrair-se, buscar-se, sentir prazer quando juntos, ao passo que dois irmãos consanguíneos
podem repelir-se, conforme se observa todos os dias: problema moral que só o
Espiritismo podia resolver pela pluralidade das existências. (Cap. IV, nº 13)
Há, pois, duas espécies de famílias: as famílias pelos laços espirituais e as famílias pelos laços
corporais. Duráveis, as primeiras se fortalecem pela
purificação e se perpetuam no mundo dos Espíritos, através das várias migrações
da alma; as segundas, frágeis como a matéria, se extinguem com o tempo e muitas
vezes se dissolvem moralmente, já na existência atual. Foi o que Jesus quis
tornar compreensível, dizendo de seus discípulos: Aqui estão minha mãe e meus
irmãos, isto é, minha família pelos laços do Espírito, pois todo aquele que faz
a vontade de meu Pai que está nos céus é meu irmão, minha irmã e minha mãe.
A hostilidade que lhe moviam seus irmãos se
acha claramente expressa em a narração de São Marcos, que diz terem eles o
propósito de se apoderarem do Mestre, sob o pretexto de que este perdera o espírito. Informado da chegada deles,
conhecendo os sentimentos que nutriam a seu respeito, era natural que Jesus
dissesse, referindo-se a seus discípulos, do ponto de vista espiritual: “Eis
aqui meus verdadeiros irmãos”. Embora na companhia daqueles estivesse sua mãe,
ele generaliza o ensino que de maneira alguma implica haja pretendido declarar
que sua mãe segundo o corpo nada lhe era como Espírito, que só indiferença lhe
merecia. Provou suficientemente o contrário em várias outras circunstâncias. -
Allan Kardec (Obra citada, cap. XIV, item 8.)
A ingratidão dos filhos e os laços de família
A ingratidão é um dos frutos mais diretos do
egoísmo. Revolta sempre os corações honestos. Mas, a dos filhos para com os
pais apresenta caráter ainda mais odioso. É, em particular, desse ponto de
vista que a vamos considerar, para lhe analisar as causas e os efeitos. Também
nesse caso, como em todos os outros, o Espiritismo projeta luz sobre um dos
grandes problemas do coração humano.
Quando deixa a Terra, o Espírito leva consigo
as paixões ou as virtudes inerentes à sua natureza e se aperfeiçoa no espaço,
ou permanece estacionário, até que deseje receber a luz. Muitos, portanto, se
vão cheios de ódios violentos e de insaciados desejos de vingança; a alguns
dentre eles, porém, mais adiantados do que os outros, é dado entrevejam uma
partícula da verdade; apreciam então as funestas consequências de suas paixões
e são induzidos a tomar resoluções boas. Compreendem que, para chegarem a Deus,
uma só é a senha: caridade. Ora, não há caridade
sem esquecimento dos ultrajes e das injúrias; não há caridade sem perdão, nem
com o coração tomado de ódio.
Então, mediante inaudito esforço, conseguem
tais Espíritos observar os a quem eles odiaram na Terra. Ao vê-los, porém, a
animosidade se lhes desperta no íntimo; revoltam-se à ideia de perdoar, e,
ainda mais, à de abdicarem de si mesmos, sobretudo à de amarem os que lhes
destruíram, quiçá, os haveres, a honra, a família. Entretanto, abalado fica o
coração desses infelizes. Eles hesitam, vacilam, agitados por sentimentos
contrários. Se predomina a boa resolução, oram a Deus, imploram aos bons
Espíritos que lhes deem forças, no momento mais decisivo da prova.
Por fim após anos de meditações e preces, o
Espírito se aproveita de um corpo em preparo na família daquele a quem
detestou, e pede aos Espíritos incumbidos de transmitir as ordens superiores
permissão para ir preencher na Terra os destinos daquele corpo que acaba de
formar-se.
Qual será o seu procedimento na família
escolhida? Dependerá da sua maior ou menor persistência nas boas resoluções que
tomou. O incessante contacto com seres a quem odiou constitui prova terrível,
sob a qual não raro sucumbe, se não tem ainda bastante forte a vontade. Assim,
conforme prevaleça ou não a resolução boa, ele será o amigo ou inimigo daqueles
entre os quais foi chamado a viver. É como se explicam esses ódios, essas
repulsões instintivas que se notam da parte de certas crianças e que parecem
injustificáveis. Nada, com efeito, naquela existência há podido provocar
semelhante antipatia; para se lhe apreender a causa, necessário se torna volver
o olhar ao passado.
Ó espíritas! Compreendei agora o grande papel
da Humanidade; compreendei que, quando produzis um corpo, a alma que nele
encarna vem do espaço para progredir; inteirai-vos dos vossos deveres e ponde
todo o vosso amor em aproximar de Deus essa alma; tal a missão que vos está
confiada e cuja recompensa recebereis, se fielmente a cumprirdes. Os vossos
cuidados e a educação que lhe dareis auxiliarão o seu aperfeiçoamento e o seu
bem-estar futuro.
Lembrai-vos de que a cada pai e a cada mãe
perguntará Deus: Que fizestes do filho confiado à vossa guarda? Se por culpa
vossa ele se conservou atrasado, tereis como castigo vê-lo entre os Espíritos
sofredores, quando de vós dependia que fosse ditoso. Então, vós mesmos,
assediados de remorsos, pedireis vos seja concedido reparar a vossa falta;
solicitareis, para vós e para ele, outra encarnação em que o cerqueis de
melhores cuidados e em que ele, cheio de reconhecimento, vos retribuirá com o
seu amor.
Não escorraceis, pois, a criancinha que
repele sua mãe, nem a que vos paga com a ingratidão; não foi o acaso que a fez
assim e que vo-la deu. Imperfeita intuição do passado se revela, do qual podeis
deduzir que um ou outro já odiou muito, ou foi muito ofendido; que um ou outro
veio para perdoar ou para expiar. Mães! Abraçai o filho que vos dá desgostos e
dizei convosco mesmas: Um de nós dois é culpado. Fazei-vos merecedoras dos
gozos divinos que Deus conjugou à maternidade, ensinando aos vossos filhos que
eles estão na Terra para se aperfeiçoar, amar e bendizer. Mas, oh! muitas
dentre vós, em vez de eliminar por meio da educação os maus princípios inatos
de existências anteriores, entretêm e desenvolvem esses princípios, por uma
culposa fraqueza, ou por descuido, e, mais tarde, o vosso coração, ulcerado
pela ingratidão dos vossos filhos, será para vós, já nesta vida, um começo de
expiação.
A tarefa não é tão difícil quanto vos possa
parecer. Não exige o saber do mundo. Podem desempenhá-la assim o ignorante como
o sábio, e o Espiritismo lhe facilita o desempenho, dando a conhecer a causa
das imperfeições da alma humana.
Desde pequenina, a criança manifesta os
instintos bons ou maus que traz da sua existência anterior. A estudá-los devem
os pais aplicar-se. Todos os males se originam do egoísmo e do orgulho.
Espreitem, pois, os pais os menores indícios reveladores do gérmen de tais
vícios e cuidem de combatê-los, sem esperar que lancem raízes profundas. Façam
como o bom jardineiro, que corta os rebentos defeituosos à medida que os vê apontar na árvore. Se deixarem se desenvolvam
o egoísmo e o orgulho, não se espantem de serem mais tarde pagos com a
ingratidão.
Quando os pais hão feito tudo o que devem
pelo adiantamento moral de seus filhos, se não alcançam êxito, não têm de que
se inculpar a si mesmos e podem conservar tranquila a consciência. À amargura
muito natural que então lhes advém da improdutividade de seus esforços, Deus
reserva grande e imensa consolação, na certeza de que
se trata apenas de um retardamento, que concedido lhes será concluir noutra
existência a obra agora começada e que um dia o filho ingrato os recompensará
com seu amor. (Cap. XIII, nº 19.)
Deus não dá prova superior às forças daquele que a pede; só permite as que
podem ser cumpridas. Se tal não sucede, não é que falte possibilidade: falta a
vontade. Com efeito, quantos há que, em vez de resistirem aos maus pendores, se
comprazem neles. A esses ficam reservados o pranto e os gemidos em existências
posteriores.
Admirai, no entanto, a bondade de Deus, que
nunca fecha a porta ao arrependimento. Vem um dia em que ao culpado, cansado de
sofrer, com o orgulho afinal abatido, Deus abre os braços para receber o filho
pródigo que se lhe lança aos pés. As provas rudes, ouvi-me
bem, são quase sempre indício de um fim de sofrimento e de um
aperfeiçoamento do Espírito, quando aceitas com o pensamento em Deus. É
um momento supremo, no qual, sobretudo, cumpre ao Espírito não falir
murmurando, se não quiser perder o fruto de tais provas e ter de recomeçar. Em
vez de vos queixardes, agradecei a Deus o ensejo que vos proporciona de
vencerdes, a fim de vos deferir o prêmio da vitória. Então, saindo do turbilhão
do mundo terrestre, quando entrardes no mundo dos Espíritos, sereis aí
aclamados como o soldado que sai triunfante da refrega.
De todas as provas, as mais duras são as que
afetam o coração. Um, que suporta com coragem a miséria e as privações
materiais, sucumbe ao peso das amarguras domésticas, pungido da ingratidão dos
seus. Oh! que pungente angústia essa! Mas, em tais circunstâncias, que mais
pode, eficazmente, restabelecer a coragem moral, do que o conhecimento das
causas do mal e a certeza de que, se bem haja prolongados despedaçamentos
d’alma, não há desesperos eternos, porque não é possível seja da vontade de
Deus que a sua criatura sofra indefinidamente?
Que de mais reconfortante, de mais animador
do que a ideia que de cada um dos seus esforços é que depende abreviar o
sofrimento, mediante a destruição, em si, das causas do mal? Para isso, porém,
preciso se faz que o homem não retenha na Terra o olhar e só veja uma
existência; que se eleve, a pairar no infinito do passado e do futuro. Então, a
justiça infinita de Deus se vos patenteia, e esperais com paciência, porque
explicável se vos torna o que na Terra vos parecia verdadeiras monstruosidades.
As feridas que aí se vos abrem, passais a
considerá-las simples arranhaduras. Nesse golpe de vista lançado sobre o
conjunto, os laços de família se vos apresentam sob seu aspecto real. Já não
vedes, a ligar-lhes os membros, apenas os frágeis laços da matéria; vedes, sim,
os laços duradouros do Espírito, que se perpetuam e consolidam com o
depurarem-se, em vez de se quebrarem por efeito da reencarnação.
Formam famílias os Espíritos que a analogia
dos gostos, a identidade do progresso moral e a afeição induzem a reunir-se.
Esses mesmos Espíritos, em suas migrações terrenas, se buscam, para se
gruparem, como o fazem no espaço, originando-se daí as famílias unidas e
homogêneas. Se, nas suas peregrinações, acontece ficarem temporariamente
separados, mais tarde tornam a encontrar-se, venturosos pelos novos progressos
que realizaram. Mas, como não lhes cumpre trabalhar apenas para si, permite
Deus que Espíritos menos adiantados encarnem entre eles, a fim de receberem
conselhos e bons exemplos, a bem de seu progresso. Esses Espíritos se tornam,
por vezes, causa de perturbação no meio daqueles outros, o que constitui para
estes a prova e a tarefa a desempenhar.
Acolhei-os, portanto, como irmãos;
auxiliai-os, e depois, no mundo dos Espíritos, a família se felicitará por
haver salvo alguns náufragos que, a seu turno, poderão salvar outros. – Santo Agostinho - Paris, 1862. (Obra citada, cap. XIV,
item 9.)
Nota
do Autor:
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