domingo, 31 de maio de 2026

 



A bagagem de nossa derradeira viagem

 

ASTOLFO O. DE OLIVEIRA FILHO

aoofilho@gmail.com

 

Um companheiro de lides espíritas pede-nos que comentemos a visão espírita acerca da chamada propriedade real. E indaga: Afinal, somos proprietários ou simples usufrutuários dos bens de que dispomos na vida?

A doutrina espírita apresenta-nos, como sabemos, uma visão diferente quanto ao conceito que nós, seres humanos, temos aprendido relativamente ao tema propriedade.

Segundo o Espiritismo, só possuímos em plena propriedade aquilo que podemos levar deste mundo. Por conseguinte, tudo que é relativo à matéria não nos pertence realmente. Trata-se de mero empréstimo, de um depósito que deveremos restituir ao verdadeiro dono, finda nossa estada neste mundo.

Aquele que na Terra recebeu o nome de Pascal examinou o assunto em uma conhecida mensagem incluída por Allan Kardec no capítulo 16 de seu livro O Evangelho segundo o Espiritismo.

Antes, porém, de ler a  mensagem, lembremos que Blaise Pascal (1623-1662) foi um brilhante matemático, físico, inventor e filósofo francês do século XVII, que se tornou mundialmente famoso pela formulação do Princípio de Pascal na hidrostática, pela invenção de uma das primeiras calculadoras mecânicas e por suas profundas reflexões filosóficas sobre a fé e a razão.

Em sua obra mais famosa, Pensamentos, ele disserta sobre a relação entre fé e razão, sendo também de sua autoria uma máxima que todos conhecemos: "O coração tem razões que a própria razão desconhece", bem como o argumento lógico-filosófico conhecido como a Aposta de Pascal, que defende a crença em Deus como a escolha mais racional.

Na mensagem que transmitiu em Genebra, no ano de 1860, o Espírito de Blaise Pascal escreveu:

 

“O homem só possui em plena propriedade aquilo que lhe é dado levar deste mundo. Do que encontra ao chegar e deixa ao partir, goza ele enquanto aqui permanece. Forçado, porém, que é a abandonar tudo isso, não tem das suas riquezas a posse real, mas, simplesmente, o usufruto.

Que é então o que ele possui? Nada do que é de uso do corpo; tudo o que é de uso da alma: a inteligência, os conhecimentos, as qualidades morais. Isso é o que ele traz e leva consigo, o que ninguém lhe pode arrebatar, o que lhe será de muito mais utilidade no outro mundo do que neste. Depende dele ser mais rico ao partir do que ao chegar, visto como, do que tiver adquirido em bem, resultará a sua posição futura.

Quando alguém vai a um país distante, constitui a sua bagagem de objetos utilizáveis nesse país; não se preocupa com os que ali lhe seriam inúteis. Procedei do mesmo modo com relação à vida futura; aprovisionai-vos de tudo o de que lá vos possais servir.

Ao viajante que chega a um albergue, bom alojamento é dado, se o pode pagar. A outro, de parcos recursos, toca um menos agradável. Quanto ao que nada tenha de seu, vai dormir numa enxerga.

O mesmo sucede ao homem, à sua chegada no mundo dos Espíritos: depende dos seus haveres o lugar para onde vá. Não será, todavia, com o seu ouro que ele o pagará. Ninguém lhe perguntará: Quanto tinhas na Terra? Que posição ocupavas? Eras príncipe ou operário? Perguntar-lhe-ão: Que trazes contigo?

Não se lhe avaliarão os bens, nem os títulos, mas a soma das virtudes que possua. Ora, sob esse aspecto, pode o operário ser mais rico do que o príncipe. 

Em vão alegará que antes de partir da Terra pagou a peso de ouro a sua entrada no outro mundo.

Responder-lhe-ão: Os lugares aqui não se compram: conquistam-se por meio da prática do bem. Com a moeda terrestre, hás podido comprar campos, casas, palácios; aqui, tudo se paga com as qualidades da alma. És rico dessas qualidades? Sê bem-vindo e vai para um dos lugares da primeira categoria, onde te esperam todas as venturas. És pobre delas? Vai para um dos da última, onde serás tratado de acordo com os teus haveres.” (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVI, item 9.)  [Negritamos]

 

Inteligência, conhecimentos, qualidades morais – eis a nossa verdadeira propriedade. Ampliar esse tesouro – o único que podemos conservar e levar conosco – deve ser, por conseguinte, o nosso objetivo, a meta fundamental de nossa existência.

Esse tesouro constituirá, portanto, a bagagem de nossa derradeira viagem. Quanto ao resto, nada levaremos e não compete a nós decidir sobre a sua destinação.

 

Nota do Autor:

Para ler o artigo do último domingo, clique em: https://espiritismo-seculoxxi.blogspot.com/2026/05/andorinha-tem-alma-astolfo-o.html

 

 

 

 

 

 

 

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