A bagagem de nossa derradeira viagem
ASTOLFO O. DE OLIVEIRA FILHO
Um companheiro de
lides espíritas pede-nos que comentemos a visão espírita acerca da chamada
propriedade real. E indaga: Afinal, somos proprietários ou simples
usufrutuários dos bens de que dispomos na vida?
A doutrina
espírita apresenta-nos, como sabemos, uma visão diferente quanto ao conceito
que nós, seres humanos, temos aprendido relativamente ao tema propriedade.
Segundo o
Espiritismo, só possuímos em plena propriedade aquilo que podemos levar deste
mundo. Por conseguinte, tudo que é relativo à matéria não nos pertence
realmente. Trata-se de mero empréstimo, de um depósito que deveremos restituir
ao verdadeiro dono, finda nossa estada neste mundo.
Aquele
que na Terra recebeu o nome de Pascal examinou o assunto em uma conhecida mensagem
incluída por Allan Kardec no capítulo 16 de seu livro O Evangelho segundo o
Espiritismo.
Antes,
porém, de ler a mensagem, lembremos que
Blaise Pascal (1623-1662) foi um brilhante matemático, físico, inventor e
filósofo francês do século XVII, que se tornou mundialmente famoso pela
formulação do Princípio de Pascal na hidrostática, pela invenção de uma das
primeiras calculadoras mecânicas e por suas profundas reflexões filosóficas
sobre a fé e a razão.
Em sua obra mais
famosa, Pensamentos, ele disserta sobre a relação entre fé e razão,
sendo também de sua autoria uma máxima que todos conhecemos: "O coração
tem razões que a própria razão desconhece", bem como o argumento
lógico-filosófico conhecido como a Aposta de Pascal, que defende a crença em
Deus como a escolha mais racional.
Na mensagem que
transmitiu em Genebra, no ano de 1860, o Espírito de Blaise Pascal escreveu:
“O homem só possui
em plena propriedade aquilo que lhe é dado levar deste mundo. Do que encontra
ao chegar e deixa ao partir, goza ele enquanto aqui permanece. Forçado, porém,
que é a abandonar tudo isso, não tem das suas riquezas a posse real, mas,
simplesmente, o usufruto.
Que é então o que
ele possui? Nada do que é de uso do corpo; tudo o que é de uso da alma: a inteligência,
os conhecimentos, as qualidades morais. Isso é o que ele traz e
leva consigo, o que ninguém lhe pode arrebatar, o que lhe será de muito mais
utilidade no outro mundo do que neste. Depende dele ser mais rico ao partir do
que ao chegar, visto como, do que tiver adquirido em bem, resultará a sua
posição futura.
Quando alguém vai
a um país distante, constitui a sua bagagem de objetos utilizáveis nesse país;
não se preocupa com os que ali lhe seriam inúteis. Procedei do mesmo modo com
relação à vida futura; aprovisionai-vos de tudo o de que lá vos possais servir.
Ao viajante que
chega a um albergue, bom alojamento é dado, se o pode pagar. A outro, de parcos
recursos, toca um menos agradável. Quanto ao que nada tenha de seu, vai dormir
numa enxerga.
O mesmo sucede ao
homem, à sua chegada no mundo dos Espíritos: depende dos seus haveres o lugar
para onde vá. Não será, todavia, com o seu ouro que ele o pagará. Ninguém lhe
perguntará: Quanto tinhas na Terra? Que posição ocupavas? Eras príncipe ou
operário? Perguntar-lhe-ão: Que trazes contigo?
Não se lhe avaliarão os bens, nem os títulos, mas a soma das virtudes que possua. Ora, sob esse aspecto, pode o operário ser mais rico do que o príncipe.
Em vão alegará
que antes de partir da Terra pagou a peso de ouro a sua entrada no outro mundo.
Responder-lhe-ão: Os
lugares aqui não se compram: conquistam-se por meio da prática do bem. Com
a moeda terrestre, hás podido comprar campos, casas, palácios; aqui, tudo se
paga com as qualidades da alma. És rico dessas qualidades? Sê bem-vindo e vai
para um dos lugares da primeira categoria, onde te esperam todas as venturas.
És pobre delas? Vai para um dos da última, onde serás tratado de acordo com os
teus haveres.” (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVI, item 9.) [Negritamos]
Inteligência,
conhecimentos, qualidades morais – eis a nossa verdadeira propriedade. Ampliar
esse tesouro – o único que podemos conservar e levar conosco – deve ser, por
conseguinte, o nosso objetivo, a meta fundamental de nossa existência.
Esse tesouro constituirá,
portanto, a bagagem de nossa derradeira viagem. Quanto ao resto, nada
levaremos e não compete a nós decidir sobre a sua destinação.
Nota do Autor:
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