A renovação moral é essencial ao
tratamento da obsessão
ASTOLFO O. DE OLIVEIRA FILHO
Um
companheiro de lides espíritas perguntou-nos: - Por que os protetores
espirituais não impedem que os Espíritos obsidiem uma pessoa?
Essa
dúvida também existe entre outros confrades. Há, inclusive, quem defenda a
adoção, nas instituições espíritas, de práticas comuns em determinados
círculos, pelas quais o agente causador da obsessão seja afastado do enfermo,
às vezes, até por meio de violência.
Se
tal procedimento fosse realmente eficaz, Allan Kardec e outros autores
certamente o teriam recomendado. A obsessão, porém, não ocorre por acaso.
Segundo Kardec, sua causa mais frequente, sobretudo nos casos graves, é o
desejo de vingança. Alguém prejudicou determinada pessoa e esta, incapaz de
perdoar, busca o desforço, a desforra, a vindita.
Nesses
casos, o objetivo da desobsessão não pode ser simplesmente separar os
litigantes, pois isso, ainda que possível, não resolveria a pendência que
alimenta o sentimento de vingança. O verdadeiro propósito é promover a
reconciliação, permitindo que ambos se entendam e resolvam definitivamente o
problema que deu origem ao conflito.
As
inúmeras obras espíritas dedicadas ao assunto mostram que os envolvidos no processo
obsessivo — tanto o algoz quanto a vítima — jamais deixam de receber a
assistência dos benfeitores espirituais. Para que o tratamento alcance êxito é,
porém, indispensável que o obsidiado também faça a sua parte, conforme propõe
claramente Allan Kardec no capítulo 28, itens 81 e seguintes, de O Evangelho
segundo o Espiritismo.
Embora
não devamos restringir-nos ao que Kardec escreveu, é significativo que os
autores encarnados e desencarnados que posteriormente estudaram o assunto
tenham confirmado os princípios estabelecidos pelo Codificador para o sucesso
da terapia desobsessiva.
São
eles:
1.
a necessidade do tratamento magnético;
2.
a importância da chamada doutrinação;
3.
a renovação das atitudes por parte do enfermo.
Na
Revista Espírita de janeiro de 1865 (pp. 4 a 19), encontramos o relato de um
dos casos que levaram Kardec a essas conclusões: o de Valentine Laurent, uma
jovem residente em Marmande, na França.
Aos
13 anos, Valentine sofria convulsões diárias e apresentava tamanha violência
que precisava ser amarrada ao leito, tarefa que exigia a ajuda de cinco
pessoas. Exorcismos, missas e passes haviam fracassado. O Sr. Dombre, dirigente
de um grupo espírita da cidade, começou a tratá-la com passes. Como estes se
mostraram insuficientes, decidiu evocar a entidade que perturbava a jovem.
Iniciou-se, então, a doutrinação, realizada entre 16 e 24 de setembro de 1864.
A entidade afastou-se, mas houve uma recaída, seguida, finalmente, do êxito do
tratamento.
Ao
relatar o caso de Marmande, Kardec destacou três pontos:
1.
O tratamento magnético, por si só, mostrou-se insuficiente.
2.
Era necessário remover a causa da obsessão.
3.
Para isso, fazia-se indispensável a doutrinação.
Posteriormente,
no capítulo 28, item 81, de O Evangelho segundo o Espiritismo,
Kardec acrescentaria que a vontade do próprio paciente facilita o sucesso do
tratamento.
Suely
Caldas Schubert, em sua conhecida obra Obsessão/Desobsessão, também
oferece importantes esclarecimentos sobre o assunto:
1.
Esclarecer o paciente é fazê-lo sentir quanto é essencial a sua participação no
tratamento; é orientá-lo, dando-lhe uma visão gradativa, cuidadosa, do que
representa em sua existência aquele que é considerado o obsessor; é
levantar-lhe as esperanças, se estiver deprimido; é transmitir-lhe a certeza de
que existem dentro dele recursos imensos que precisam ser acionados pela
vontade firme, para que venham a eclodir, revelando-lhe facetas da própria
personalidade até então desconhecidas dele mesmo. É, enfim, ir aos poucos
conscientizando-o das responsabilidades assumidas no passado e que agora são
cobradas através do irmão infeliz que se erigiu em juiz, cobrador ou vingador.
(Obsessão/Desobsessão, segunda parte, cap. 9, p. 114.)
2.
O obsidiado só se libertará quando ele mesmo se dispuser a promover a
autodesobsessão. O Espiritismo não pode fazer por ele o que ele não fizer por
si mesmo. Muito menos ainda os médiuns, ou alguém que lhe queira operar a cura.
É preciso compreender que o tratamento da obsessão não consiste na expulsão do
obsessor: alcançado isso, se fosse possível, ele depois voltaria, com forças
redobradas, à obra interrompida. A terapia tem em vista a reconciliação;
trata-se de uma conversão a ser feita, tarefa que requer do obsidiado uma ampla
cooperação, grandes esforços e boa vontade. (Obra citada, segunda parte, cap.
2.)
3.
A renovação moral é, como já foi dito, fator essencial ao tratamento
desobsessivo. Yvonne A. Pereira, em Recordações da Mediunidade, é
incisiva a esse respeito: “O obsidiado, se não procurar renovar-se diariamente,
num trabalho perseverante de autodomínio ou autoeducação, progredindo em moral
e edificação espiritual, jamais deixará de se sentir obsidiado, ainda que o seu
primitivo obsessor se regenere. Sua renovação moral, portanto, será a principal
terapêutica, nos casos em que ele possa agir”. (Obra citada, segunda parte,
cap. 2.)
As explicações acima nos permitem compreender por que não basta afastar, mesmo que pela força, o Espírito causador da obsessão. A medida não elimina as causas do conflito nem promove a reconciliação necessária à libertação de ambos.
É justamente por isso
que os exorcismos, baseados na simples expulsão do agente espiritual, não
constituem tratamento eficaz para a obsessão.
Nota do Autor:
Para ler o artigo
do último domingo, clique em: https://espiritismo-seculoxxi.blogspot.com/2026/11/nossos-mortos-queridos-continuam-vivos.html
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