domingo, 8 de novembro de 2026

 



A renovação moral é essencial ao tratamento da obsessão

 

ASTOLFO O. DE OLIVEIRA FILHO

aoofilho@gmail.com

 

Um companheiro de lides espíritas perguntou-nos: - Por que os protetores espirituais não impedem que os Espíritos obsidiem uma pessoa?

Essa dúvida também existe entre outros confrades. Há, inclusive, quem defenda a adoção, nas instituições espíritas, de práticas comuns em determinados círculos, pelas quais o agente causador da obsessão seja afastado do enfermo, às vezes, até por meio de violência.

Se tal procedimento fosse realmente eficaz, Allan Kardec e outros autores certamente o teriam recomendado. A obsessão, porém, não ocorre por acaso. Segundo Kardec, sua causa mais frequente, sobretudo nos casos graves, é o desejo de vingança. Alguém prejudicou determinada pessoa e esta, incapaz de perdoar, busca o desforço, a desforra, a vindita.

Nesses casos, o objetivo da desobsessão não pode ser simplesmente separar os litigantes, pois isso, ainda que possível, não resolveria a pendência que alimenta o sentimento de vingança. O verdadeiro propósito é promover a reconciliação, permitindo que ambos se entendam e resolvam definitivamente o problema que deu origem ao conflito.

As inúmeras obras espíritas dedicadas ao assunto mostram que os envolvidos no processo obsessivo — tanto o algoz quanto a vítima — jamais deixam de receber a assistência dos benfeitores espirituais. Para que o tratamento alcance êxito é, porém, indispensável que o obsidiado também faça a sua parte, conforme propõe claramente Allan Kardec no capítulo 28, itens 81 e seguintes, de O Evangelho segundo o Espiritismo.

Embora não devamos restringir-nos ao que Kardec escreveu, é significativo que os autores encarnados e desencarnados que posteriormente estudaram o assunto tenham confirmado os princípios estabelecidos pelo Codificador para o sucesso da terapia desobsessiva.

São eles:

1. a necessidade do tratamento magnético;

2. a importância da chamada doutrinação;

3. a renovação das atitudes por parte do enfermo.

Na Revista Espírita de janeiro de 1865 (pp. 4 a 19), encontramos o relato de um dos casos que levaram Kardec a essas conclusões: o de Valentine Laurent, uma jovem residente em Marmande, na França.

Aos 13 anos, Valentine sofria convulsões diárias e apresentava tamanha violência que precisava ser amarrada ao leito, tarefa que exigia a ajuda de cinco pessoas. Exorcismos, missas e passes haviam fracassado. O Sr. Dombre, dirigente de um grupo espírita da cidade, começou a tratá-la com passes. Como estes se mostraram insuficientes, decidiu evocar a entidade que perturbava a jovem. Iniciou-se, então, a doutrinação, realizada entre 16 e 24 de setembro de 1864. A entidade afastou-se, mas houve uma recaída, seguida, finalmente, do êxito do tratamento.

Ao relatar o caso de Marmande, Kardec destacou três pontos:

1. O tratamento magnético, por si só, mostrou-se insuficiente.

2. Era necessário remover a causa da obsessão.

3. Para isso, fazia-se indispensável a doutrinação.

Posteriormente, no capítulo 28, item 81, de O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec acrescentaria que a vontade do próprio paciente facilita o sucesso do tratamento.

Suely Caldas Schubert, em sua conhecida obra Obsessão/Desobsessão, também oferece importantes esclarecimentos sobre o assunto:

1. Esclarecer o paciente é fazê-lo sentir quanto é essencial a sua participação no tratamento; é orientá-lo, dando-lhe uma visão gradativa, cuidadosa, do que representa em sua existência aquele que é considerado o obsessor; é levantar-lhe as esperanças, se estiver deprimido; é transmitir-lhe a certeza de que existem dentro dele recursos imensos que precisam ser acionados pela vontade firme, para que venham a eclodir, revelando-lhe facetas da própria personalidade até então desconhecidas dele mesmo. É, enfim, ir aos poucos conscientizando-o das responsabilidades assumidas no passado e que agora são cobradas através do irmão infeliz que se erigiu em juiz, cobrador ou vingador. (Obsessão/Desobsessão, segunda parte, cap. 9, p. 114.)

2. O obsidiado só se libertará quando ele mesmo se dispuser a promover a autodesobsessão. O Espiritismo não pode fazer por ele o que ele não fizer por si mesmo. Muito menos ainda os médiuns, ou alguém que lhe queira operar a cura. É preciso compreender que o tratamento da obsessão não consiste na expulsão do obsessor: alcançado isso, se fosse possível, ele depois voltaria, com forças redobradas, à obra interrompida. A terapia tem em vista a reconciliação; trata-se de uma conversão a ser feita, tarefa que requer do obsidiado uma ampla cooperação, grandes esforços e boa vontade. (Obra citada, segunda parte, cap. 2.)

3. A renovação moral é, como já foi dito, fator essencial ao tratamento desobsessivo. Yvonne A. Pereira, em Recordações da Mediunidade, é incisiva a esse respeito: “O obsidiado, se não procurar renovar-se diariamente, num trabalho perseverante de autodomínio ou autoeducação, progredindo em moral e edificação espiritual, jamais deixará de se sentir obsidiado, ainda que o seu primitivo obsessor se regenere. Sua renovação moral, portanto, será a principal terapêutica, nos casos em que ele possa agir”. (Obra citada, segunda parte, cap. 2.)

As explicações acima nos permitem compreender por que não basta afastar, mesmo que pela força, o Espírito causador da obsessão. A medida não elimina as causas do conflito nem promove a reconciliação necessária à libertação de ambos. 

É justamente por isso que os exorcismos, baseados na simples expulsão do agente espiritual, não constituem tratamento eficaz para a obsessão.

 

Nota do Autor:

Para ler o artigo do último domingo, clique em: https://espiritismo-seculoxxi.blogspot.com/2026/11/nossos-mortos-queridos-continuam-vivos.html

 

 




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