A
revelação espírita, por apoiar-se em fatos, é e será sempre progressiva
ASTOLFO O. DE OLIVEIRA FILHO
aoofilho@gmail.com
Algum tempo atrás
recebi de um leitor radicado na cidade paulista de São José dos Campos (SP) a
seguinte pergunta:
Se entendi
direito, não há animais no plano espiritual. (L.M., cap. XXV, item 283,
pergunta, 36ª.) Como explicar os animais descritos em vários livros da obra de
André Luiz? (Vide, por exemplo, o capítulo 5 do livro Ação e Reação)
A dúvida suscitada pelo leitor, que já examinamos em
diversas oportunidades, advém da ideia – que reputamos equivocada – de que a
revelação espírita se resume somente ao que Allan Kardec consignou em suas
obras. Tudo o que nos veio por meio de outros Espíritos e outros médiuns, ou
mesmo como resultado das pesquisas psíquicas, não poderia, de acordo com tal
pensamento, ser incorporado ao conjunto dos ensinos espíritas.
Ora, não é essa a proposta que o próprio Codificador
consignou em sua última obra. Vejamos:
Um último caráter da revelação espírita, a ressaltar das
condições mesmas em que ela se produz, é que, apoiando-se em fatos, tem que
ser, e não pode deixar de ser, essencialmente progressiva, como todas as
ciências de observação. Pela sua substância, alia-se à Ciência que, sendo a
exposição das leis da Natureza, com relação a certa ordem de fatos, não pode
ser contrária às leis de Deus, autor daquelas leis. As descobertas que a
Ciência realiza, longe de o rebaixarem, glorificam a Deus; unicamente destroem
o que os homens edificaram sobre as falsas ideias que formaram de Deus. [Negritamos.]
O Espiritismo,
pois, não estabelece como princípio absoluto senão o que se acha evidentemente
demonstrado, ou o que ressalta logicamente da observação. Entendendo com todos
os ramos da economia social, aos quais dá o apoio das suas próprias descobertas,
assimilará sempre todas as doutrinas progressivas, de qualquer ordem que sejam,
desde que hajam assumido o estado de verdades práticas e abandonado o domínio
da utopia, sem o que ele se suicidaria. Deixando de ser o que é, mentiria à sua
origem e ao seu fim providencial. Caminhando de par com o progresso, o
Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe
demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria
nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará. (A Gênese,
cap. I, item 55.)
Allan Kardec não somente propôs como cumpriu, no curso de
suas próprias pesquisas, o procedimento sugerido, quando reexaminou, primeiro
na Revista Espírita, depois na obra A
Gênese, o tema “possessão”, fenômeno por ele rejeitado sumariamente em duas
obras: O Livro dos Espíritos, questão
474, e O Livro dos Médiuns, cap.
XXIII, n. 241.
Fruto de novas observações que fez a respeito das
manifestações espíritas, o Codificador, retificando o equívoco cometido,
escreveu então:
47. Na obsessão, o Espírito atua exteriormente, com a
ajuda do seu perispírito, que ele identifica com o do encarnado, ficando este
afinal enlaçado por uma como teia e constrangido a proceder contra a sua
vontade. Na possessão, em vez de agir exteriormente, o Espírito atuante se
substitui, por assim dizer, ao Espírito encarnado; toma-lhe o corpo para
domicílio, sem que este, no entanto, seja abandonado pelo seu dono, pois que
isso só se pode dar pela morte. A possessão, conseguintemente, é sempre temporária
e intermitente, porque um Espírito desencarnado não pode tomar definitivamente
o lugar de um encarnado, pela razão de que a união molecular do perispírito e
do corpo só se pode operar no momento da concepção. (Cap. XI, nº 18.) De posse
momentânea do corpo do encarnado, o Espírito se serve dele como se seu próprio
fora: fala pela sua boca, vê pelos seus olhos, opera com seus braços, conforme
o faria se estivesse vivo. Não é como na mediunidade falante, em que o Espírito
encarnado fala transmitindo o pensamento de um desencarnado; no caso da
possessão é mesmo o último que fala e obra; quem o haja conhecido em vida,
reconhece-lhe a linguagem, a voz, os gestos e até a expressão da fisionomia.
48. Na obsessão há
sempre um Espírito malfeitor. Na possessão pode tratar-se de um Espírito bom
que queira falar e que, para causar maior impressão nos ouvintes, toma do corpo
de um encarnado, que voluntariamente lho empresta, como emprestaria seu fato a
outro encarnado. Isso se verifica sem qualquer perturbação ou incômodo, durante
o tempo em que o Espírito encarnado se acha em liberdade, como no estado de
emancipação, conservando-se este último ao lado do seu substituto para ouvi-lo.
Quando é mau o Espírito possessor, as coisas se passam de outro modo. Ele não
toma moderadamente o corpo do encarnado, arrebata-o, se este não possui
bastante força moral para lhe resistir. Fá-lo por maldade para com este, a quem
tortura e martiriza de todas as formas, indo ao extremo de tentar exterminá-lo,
já por estrangulação, já atirando-o ao fogo ou a outros lugares perigosos.
Servindo-se dos órgãos e dos membros do infeliz paciente, blasfema, injuria e
maltrata os que o cercam; entrega-se a excentricidades e a atos que apresentam
todos os caracteres da loucura furiosa. (A Gênese, cap. XIV, itens 47 e
48.)
Com relação ao ponto fundamental da pergunta enviada pelo
leitor, afirmamos que há, sim, algumas espécies animais no plano espiritual.
Embora a quase totalidade deles reencarne quase de imediato, alguns permanecem
– com seu corpo espiritual – no plano extrafísico, onde desenvolvem tarefas
adequadas à experiência que adquiriram.
Nesse sentido, os relatos são muitos e feitos por pessoas
idôneas e capacitadas.
A professora Irvênia Prada tratou do assunto no artigo
“Os animais têm alma e são também seres em evolução”, publicado na edição n. 9
da revista O Consolador. Para acessar o artigo, clique aqui
O artigo citado fundamenta-se em fatos. Um deles foi
extraído do livro "Testemunhos de Chico Xavier", de Suely Caldas
Schubert, em que se lê o seguinte depoimento de Chico: "Em 1939, o meu
irmão José deixou-me um desses amigos fiéis (um cão). Chamava-se Lorde e fez-se
meu companheiro... Em 1945, depois de longa enfermidade, veio a falecer. Mas,
no último instante, vi o Espírito de meu irmão aproximar-se e arrebatá-lo ao
corpo inerte e, durante alguns meses, quando o José, em Espírito, vinha ter
comigo, era sempre acompanhado por ele... A vida é uma luz que se alarga para
todos..."
Na Revista Espírita de maio de 1865, o próprio
Codificador publicou uma carta de um correspondente radicado em Dieppe, o qual
alude à manifestação da cadelinha Mika, então desencarnada, fato esse que foi
percebido pelo autor do relato, por sua mulher e por uma filha que dormia no
quarto ao lado. Aludindo ao assunto em uma comunicação mediúnica dada na noite
de 21 de abril de 1865, por intermédio do médium Sr. E. Vézy, publicada no
mesmo número da Revista Espírita, um Espírito disse textualmente que a
manifestação relatada podia, sim, ocorrer, embora fosse passageira.
O pesquisador espírita Ernesto Bozzano, autor do livro Animali e manifestazioni metapsichici,
de 1923, muitos anos antes do surgimento das obras de André Luiz, relata vários
casos de almas de animais que foram vistas ou ouvidas por uma ou mais pessoas,
valendo ressaltar que o Padre Germano, personagem principal do clássico Memórias do Padre Germano, sempre se
apresentou, tanto para Chico Xavier quanto para Divaldo Franco, acompanhado de
seu fiel amigo Sultão.
Divaldo Franco em uma entrevista publicada na edição 51 d’O
Consolador, declarou: “Pessoalmente, já tive diversas experiências com
animais, especialmente cães desencarnados, que permanecem na erraticidade desde
há algum tempo”. Para acessar a entrevista, clique neste link
Em 1918, no cap. 6 do seu livro Espiritismo para crianças, Cairbar Schutel escreveu: “Então existem
lá casas, árvores, flores, parques, animais? E por que não? Depois que lá
chegarmos veremos tudo isso, e, na proporção do nosso adiantamento,
encontraremos, além dessas esferas, outros mundos ainda mais aperfeiçoados e
rarefeitos”.
Verifica-se, por todo o exposto, que as informações
contidas nas obras de André Luiz não são descrições “delirantes”, pois
descrevem tão somente o que em várias partes do mundo pôde ser observado, ou
seja, que existem, sim, animais desencarnados no plano espiritual, embora sua reencarnação
“quase imediata” constitua a regra na quase totalidade dos casos.
Nota do Autor:
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