Revista Espírita de 1868
Allan Kardec
Parte 6
Continuamos o estudo metódico e sequencial da Revista Espírita do ano de 1868, periódico
editado e dirigido por Allan Kardec. O estudo baseia-se na tradução feita por
Júlio Abreu Filho publicada pela EDICEL.
A coleção do ano de 1868 pertence a uma série iniciada em
janeiro de 1858 por Allan Kardec, que a dirigiu até 31 de março de 1869, quando
desencarnou.
Cada parte do estudo, que é apresentado às
quartas-feiras, compõe-se de:
a) questões preliminares;
b) texto para leitura.
As respostas às questões propostas encontram-se no final
do texto abaixo.
Questões
preliminares
A. O Espiritismo admite a existência da fatalidade?
B. Como explicar certos acontecimentos que parecem
atingir uma pessoa fatalmente?
C. Alguma vez o Espiritismo admitiu a ideia da
metempsicose?
Texto para leitura
73. Além de vários elogios a Kardec e à sua obra, o
articulista, reportando-se à doutrina espírita, diz que nos encontramos em
presença de uma doutrina geral “que está perfeitamente em relação com o estado
da ciência em nossa época, e que responde perfeitamente às necessidades e às
aspirações modernas”. “E o que há de notável – acrescenta o jornalista – é que
a doutrina espírita é mais ou menos a mesma em toda a parte.” (Pág. 177.)
74. Numa série de conferências feitas em abril de 1868
pelo Sr. Chavée, no Instituto livre do boulevard dos Capuchinhos, o
orador fez um estudo analítico e filosófico dos Vedas e das Leis de Manu,
comparados com o livro de Jó e os Salmos. Eis, do texto transcrito pela Revista,
algumas observações feitas pelo conferencista: I – A alma é sem extensão; ela
não é estendida senão por seu corpo etéreo e circunscrita pelos limites desse
corpo, que São Paulo chama organismo luminoso. II – Depois da morte, a alma
continua sua vida no espaço, com seu corpo etéreo, conservando assim a sua
individualidade. III – Entre nós, assistindo invisíveis às nossas palestras,
certamente se encontram muitos dos que já morreram; eles estão ao nosso lado e
planam acima de nossas cabeças; veem-nos e nos escutam. IV – Há fenômenos
patológicos que provam a existência da alma após a morte? Sim, há e vou citar
um. É ao sonambulismo e ao êxtase que vou pedir essas provas. Diz Kardec que o
orador citou então numerosos exemplos de sonambulismo e de êxtase que lhe deram
a prova, de certo modo material, da existência da alma, de sua ação isolada do
corpo carnal, de sua individualidade após a morte e, finalmente, de seu corpo
etéreo ou perispírito. “As conferências do Sr. Chavée são, pois, verdadeiras
conferências espíritas, menos a palavra”, adverte Kardec. “E, sob esse último
aspecto, diremos que arvoram abertamente a bandeira. Popularizam as suas ideias
fundamentais sem ofuscar os que, por ignorância da coisa, tivessem prevenção contra
o nome.” (Págs. 178 a 181.)
75. Uma alentada crítica assinada pelo Sr. Emile Barrault
a respeito da obra A Religião e a Política na Sociedade Moderna, de
Frédéric Herrenschneider, antigo sansimonista que depois se tornou espírita,
fecha o número de junho de 1868. Diz Emile Barrault que a obra em apreço é
notável e que o Sr. Herrenschneider revelou-se um pensador profundo e espírita
convicto, mas que não concordava com todas as conclusões a que ele chegou,
como, por exemplo, a ideia de que existem Espíritos que se podem chamar
Espíritos ingleses, franceses, italianos etc. Diremos, sim - propõe o Sr.
Barrault -, que não há Espíritos franceses ou ingleses, mas que há Espíritos
cujo estado, hábitos e tradições impelem uns a se encarnarem na França, outros na
Inglaterra, como se vê, durante a vida terrestre, as pessoas agrupar-se segundo
suas simpatias e caracteres. (N.R.: Sansimonista: partidário do sansimonismo,
sistema político e social proposto por Claude Henri de Rouvroy, Conde de
Saint-Simon {1760-1825}, filósofo e economista francês, um dos precursores do
socialismo.) (Págs. 181 a 191.)
76. O número de julho da Revista se inicia com artigo de
Kardec sobre numerologia e fatalidade. Do artigo extraímos as considerações que
se seguem: I – É certo que leis numéricas regem a maior parte dos fenômenos de
ordem física. Dá-se o mesmo nos fenômenos de ordem moral e metafísica? Sem
dados mais certos do que os que se possuem, não há como responder
afirmativamente a tal questão. II – O Espiritismo jamais negou a fatalidade de
certos acontecimentos; ao contrário, sempre a reconheceu. O que ele diz é que
essa fatalidade não entrava o livre-arbítrio. III – Por exemplo, o homem deve
um dia morrer; isso é fatal; mas ele pode apressar esse momento pelo suicídio
ou cometendo excessos. IV – O indivíduo pode, pois, ser livre em suas ações, a
despeito da fatalidade que preside o conjunto. A fatalidade é, assim, absoluta
para as leis que regem a matéria, mas não existe para o Espírito, que pode
reagir sobre a matéria, em virtude da liberdade relativa que Deus lhe concedeu.
V – Nada há de impossível que o conjunto dos fatos de ordem moral e metafísica
seja subordinado a uma lei numérica, cujos elementos e bases não conhecemos
ainda. A fatalidade do conjunto, contudo, de modo algum eliminaria o
livre-arbítrio do indivíduo. VI – Quanto aos acontecimentos da vida privada,
que por vezes parecem atingir uma pessoa fatalmente, têm duas fontes bem
distintas: uns são consequência direta de sua conduta na existência presente;
outros são inteiramente independentes da vida presente e parecem, por isso
mesmo, devidos a uma certa fatalidade. VII – Esta é, porém, aparente, porque
resulta da escolha das provas que o Espírito fez na erraticidade, antes de
encarnar-se, com vistas ao seu adiantamento. Os acontecimentos desagradáveis
são, pois, produto do livre-arbítrio, não da fatalidade, e se algumas vezes são
impostos por uma vontade superior, o fato se deve às más ações cometidas em
existência precedente, e não como consequência de uma lei fatal. VIII – Em
resumo, se um acontecimento está no destino de uma pessoa, realizar-se-á a
despeito de sua vontade e será sempre para o seu bem, mas as circunstâncias de
sua realização dependem do emprego que ela faça do seu livre-arbítrio. (Págs.
193 a 201.)
77. Examinando a teoria da geração espontânea, Kardec
explica por que em seu livro A Gênese ele desenvolveu o tema como uma
hipótese provável, não como um princípio doutrinário. É que, informa o
Codificador, a ciência ainda não se definira sobre o assunto. Embora ele
pessoalmente aceitasse a teoria da geração espontânea como ponto resolvido, não
poderia inserir numa obra constitutiva da doutrina espírita algo que pudesse
mais tarde ser decidido de forma diferente. A cautela em tudo é essencial e
esse foi o segredo do sucesso d’ O Livro dos Espíritos, cujos
princípios, sucessivamente desenvolvidos e completados, jamais foram
desmentidos, a despeito do tempo decorrido. (Págs. 201 e 202.)
78. Em seguida, resumindo seu pensamento sobre a questão,
Kardec diz que os primeiros seres dos reinos vegetal e animal surgidos na Terra
devem ter-se formado sem procriação, mas pertenciam, evidentemente, às classes
inferiores. À medida que se reuniram os elementos dispersos, as primeiras
combinações formaram corpos exclusivamente inorgânicos, como a água e os
diferentes minerais. Quando esses elementos se modificaram pela ação do fluido
vital, formaram corpos dotados de vitalidade, de uma organização constante e
regular, cada um na sua espécie. (Págs. 202 e 203.)
79. Os seres não procriados formariam, dessa forma, o
primeiro escalão dos seres orgânicos. Quanto às espécies que se propagaram por
procriação, a opinião geral no seio da ciência é que os primeiros tipos de cada
espécie são o produto da espécie imediatamente inferior, estabelecendo-se assim
uma cadeia ininterrupta, desde o musgo e o líquen até o carvalho, desde o verme
de terra e o oução até o homem. Então o corpo do homem pode ser perfeitamente
uma mutação do corpo do macaco, sem que se diga que o seu Espírito seja o mesmo
que o do macaco. (Págs. 203 e 204.)
80. O que se passou na origem do mundo para a formação
dos primeiros seres orgânicos acontece ainda em nossos dias? Essa é a
questão-chave e sobre a qual a doutrina espírita não firmara até então nenhum
entendimento, embora Kardec se pronunciasse claramente pela afirmativa,
conforme os argumentos que fecham seu artigo. (N.R.: Emmanuel e André
Luiz tratam do assunto objetivamente em duas obras psicografadas por Chico
Xavier: A Caminho da Luz, de 1938, e Evolução em Dois Mundos, de
1958. Segundo eles, a chamada geração espontânea foi fruto, em verdade, da ação
decisiva dos Gênios Construtores que operavam no orbe nascituro sob o comando
de Jesus, trabalho que não seria possível sem a participação do princípio inteligente
que, unido à matéria, iniciava ali um longo processo evolutivo.) (Págs. 204 a
206.)
81. O Sr. Genteur, Comissário do Governo, em relatório
enviado ao Senado francês, atribuiu ao Espiritismo o caráter de partido
político, uma coisa inconcebível sobretudo quando se sabe que Kardec jamais
tratou em suas obras e na Revista de questões políticas. Quatro jornais: o Moniteur,
La Liberté, a Revue Politique Hebdomadaire e Le Siècle,
reportaram-se ao assunto, tendo um deles – La Liberté – afirmado que o
partido espírita contribuía, no limite de suas forças, para “abalar as
instituições do império”. (Págs. 207 a 211.)
82. Dos quatro periódicos, somente o Le Siècle
examinou o assunto com moderação e valeu-se até mesmo de fina ironia ao
comentar o despropósito da acusação do conselheiro francês, o que se pode
aquilatar pelo trecho seguinte: “Como este inimigo, invisível até agora para o
próprio Sr. Genteur, pôde subtrair-se a todas as vistas? Há nisto um mistério,
que o Sr. conselheiro de Estado, se o penetrar, terá a bondade de nos ajudar a
compreender. Pessoas oficialmente informadas afirmam que o partido espírita
ocultava o exército de seus representantes, os Espíritos batedores, detrás dos
livros das bibliotecas de Saint-Etienne e de Oullins”. (Págs. 211 e 212.)
83. No folhetim de 24 e 25 de abril de 1868, sob o título
de “Paris Sonâmbula”, Le Siècle publicou artigo assinado pelo Sr. Eugène
Bonnemère, autor do Romance do Futuro, em que o conhecido escritor fez uma
exposição das diferentes variedades de sonambulismo e citou claramente a
doutrina espírita e o nome Espiritismo. Do artigo, transcrito em parte pela Revista,
colhemos os trechos que se seguem: I – A morte não existe. Ela é o instante de
repouso após a jornada feita e terminada a tarefa. Depois, é o despertar para
uma nova obra, mais útil e maior que a que se acaba de realizar. II – É pela
sucessão das gerações que a Humanidade progride. III – Por força das conquistas
definitivamente asseguradas, o mundo que habitamos merecerá subir na escala dos
mundos. De nós depende acelerar, pelos nossos esforços, o advento desse período
mais feliz. IV – O materialismo e o ateísmo, que o sentimento humano repele com
todas as suas energias, não passam de uma reação inevitável contra as ideias,
dificilmente admissíveis pela razão, sobre Deus, a natureza e o destino.
Alargando a questão, o Espiritismo reacende nos corações a fé prestes a se
extinguir. (Págs. 213 e 214.)
84. Depois de breve nota sobre duas peças encenadas em
Paris – O Elixir de Cornélio e O Galo de Mycille –, em que o núcleo da história
é a reencarnação, a Revista lembra que o Espiritismo jamais admitiu a ideia da
alma humana retrogradando na animalidade, o que seria a negação do progresso.
(Págs. 214 a 216.)
85. Da obra Monte-Cristo, de Alexandre Dumas, a Revista
transcreve alguns trechos em que a alusão às ideias espíritas é clara e direta,
com exceção da qualificação de excepcionais dada aos Espíritos que nos cercam.
“Esses seres, afirma Kardec, nada têm de excepcional, desde que são as almas
dos homens, e que todos os homens, sem exceção, devem passar por esse estado.”
(Págs. 216 e 217.)
86. Kardec apresenta uma resenha da obra A Alma,
de autoria do Sr. Ramon de la Sagra, membro correspondente do Instituto de
França, sobre a qual ele diz: “A obra do Sr. Ramon de la Sagra é uma dessas
cuja publicação temos o prazer de aplaudir, porque, posto nela tenha feito
abstração do Espiritismo, pode considerar-se, como o Deus na Natureza, do Sr.
Flammarion, e a Pluralidade das Existências, do Sr. Pezzani, como monografias
dos princípios fundamentais da doutrina, às quais eles dão a autoridade da
ciência”. (Págs. 217 a 222.)
87. Em todos os tempos – refere o autor de a Alma –
fenômenos espontâneos muito frequentes, tais como a catalepsia, a letargia, o
sonambulismo natural e o êxtase, mostraram a alma agindo fora do organismo, mas
a ciência os desdenhou. Surge agora uma nova descoberta: a anestesia pelo
clorofórmio, de incontestável utilidade nas operações cirúrgicas e cuja
aplicação tem permitido observar exemplos inúmeros de ação da alma a distância,
análogos aos fatos relatados pelo Sr. Velpeau à Academia das Ciências.
Respostas às
questões propostas
A. O Espiritismo admite a existência da fatalidade?
Sim. Ele jamais a negou; ao contrário, sempre reconheceu
a fatalidade de certos acontecimentos. O que ele diz é que essa fatalidade não
entrava o livre-arbítrio. Por exemplo, o homem deve um dia morrer; isso é
fatal; mas ele pode apressar esse momento pelo suicídio ou cometendo excessos.
O indivíduo pode, pois, ser livre em suas ações, a despeito da fatalidade que
preside o conjunto. A fatalidade é, assim, absoluta para as leis que regem a
matéria, mas não existe para o Espírito, que pode reagir sobre a matéria, em
virtude da liberdade relativa que Deus lhe concedeu. (Revista Espírita de
1868, pp. 193 a 201.)
B. Como explicar certos acontecimentos que parecem
atingir uma pessoa fatalmente?
Esses acontecimentos têm duas fontes bem distintas: uns
são consequência direta da conduta da pessoa na existência presente; outros são
inteiramente independentes da vida presente e parecem, por isso mesmo, devidos
a uma certa fatalidade. Mas esta é aparente, porque resulta da escolha das
provas que o Espírito fez na erraticidade, antes de encarnar-se, com vistas ao
seu adiantamento. Os acontecimentos desagradáveis são, pois, produto do
livre-arbítrio, não da fatalidade, e se algumas vezes são impostos por uma
vontade superior, o fato se deve às más ações cometidas em existência
precedente, e não como consequência de uma lei fatal. (Obra citada, pp. 193 a
201.)
C. Alguma vez o Espiritismo admitiu a ideia da
metempsicose?
Não. O Espiritismo jamais admitiu a ideia da alma humana
retrogradando na animalidade, o que seria a negação do progresso. A
metempsicose não existe. (Obra citada, pp. 214 a 216.)
Observação:
Para acessar a Parte 5 deste estudo,
publicada na semana passada, clique aqui: https://espiritismo-seculoxxi.blogspot.com/2025/03/revista-espirita-de-1868-allan-kardec_02049818113.html