quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Pílulas gramaticais (275)







Concluindo as explicações relativas ao uso do infinitivo não flexionado, vejamos as três últimas regras aplicáveis ao assunto.
Segundo a 5ª regra, o infinitivo integrante de locução verbal não é flexionado:
- Os meninos costumavam levantar-se cedo.
- Estando deteriorados, os pneus devem ser trocados.
- De acordo com a lista, devem ser promovidos três colegas.
Dispõe a 6ª regra que não se flexiona o infinitivo precedido de preposição que funcione como complemento do verbo principal, de substantivo, de adjetivo ou de verbo na voz passiva:
- O empresário convenceu os operários a voltar ao trabalho.
- Os investidores continuam dispostos a comprar dólares.
- Esses medicamentos são ruins de tomar.
- Globo e Band conseguiram o direito de transmitir os jogos.
- Enfrentamos provas difíceis de resolver.
- Os alunos foram forçados a sair da sala.
- Os aposentados foram obrigados a esperar na fila.
A 7ª regra diz-nos que o infinitivo precedido de preposição com valor de gerúndio não se flexiona:
- Eles estavam a marchar. [... estavam marchando]
- Quando houve o acidente, os romeiros estavam a cantar. [... cantando]

*

Em caso de dúvida quanto à flexão do infinitivo, lembremos, por fim, o conselho de Napoleão Mendes de Almeida: “Devemos limitar a flexão do infinitivo aos casos de real necessidade de identificação do seu sujeito. Não verificada essa necessidade, deixemos intacto o infinitivo”.



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terça-feira, 19 de setembro de 2017

Contos e crônicas



O caminho até a pedra branca

CÍNTHIA CORTEGOSO
cinthiacortegoso@gmail.com
De Londrina-PR

Ren sempre passava, ao fim da tarde, pelo mesmo caminho entre as árvores, arbustos, flores, o lugar próximo de onde morava. Era no pé de uma montanha bastante conhecida no Japão, mas o povoado era acanhado. O menino saía de sua casa por volta das quatro e meia e até chegar ao local destinado gastava cerca de quinze minutos andando por parte da pequena floresta. Antes desse compromisso diário, Ren fazia uma higiene básica, lavava os braços, rosto com a água fresca tirada das fontes naturais, penteava o cabelo e se olhava para verificar se a roupa surrada estava limpinha. E o menino seguia.
Nesta tarde alguns chuviscos caíram, mas a claridade de alguns raios de sol ao fundo do horizonte prevaleceu. A passagem da primavera para o verão favorecia esse momento. Ele conhecia muito bem por onde passava e por isso ia pela trilha mais segura.
Durante o caminho, seguia com seus pensamentos, parecia uma meditação. O menino ia ao encontro de algo realmente importante, compromisso com o coração. E percebia as flores que acabavam de se abrir, algum galho caído que no dia anterior não estava, novas plantinhas crescendo, a posição que os raios de sol desciam, para qual direção o vento gostoso soprava. Ren apreciava tudo o que merece apreciação, aprendera com sua mãe.
E o caminho, mais uma vez, havia sido percorrido. Uma clareira se fazia vista. Ele chegou, parou, passou a mão no rosto e tirou o suor em forma de gotinhas, secou a mão na lateral da camiseta limpinha e surrada. Deu um sorriso calmo e feliz. Com tranquilidade, aproximou-se de uma pedra bem clara, passou suavemente a mão e sentou-se ao lado.
‒ Hoje é o seu aniversário ‒ disse o menino.
Ele sorriu e uniu as mãos ao peito. Falava palavras bem baixinho com os olhos fechados e terminou com a prece como todos os dias. Ren sentia-se em paz e feliz com aquela tão maravilhosa companhia. Abaixou a cabeça em sentido respeitoso e despediu-se. O sol começava a querer descansar devagar.
Quando o menino se virou para voltar, percebeu que seu pai o observava. E o pai sorriu.
‒ Vamos, filho!
Ren sorriu.
Os dois começaram o caminho de volta para casa.
Naquele dia, completaram-se dois anos do ocorrido com a mãe do pequeno Ren. E não houve como evitar. O mesmo dia do nascimento também fora o da sua partida. Mas o menino preferia lembrar o dia do aniversário de sua mãe e não o da despedida, porém, as visitas diárias celebravam o encontro, por um tempo, entre mãe e filho. E ele a visitava desde o dia após o enterro do corpo de sua mãe ao lado da pedra clara em formato de coração.
‒ Papai, mamãe estava mais feliz hoje.
‒ Sim, Ren. Mamãe está a cada dia se recuperando no céu... e quando ficar bem, flores brancas nascerão ao lado da pedra clara e ela correrá para o jardim das lindas flores.
O filho sorriu mais uma vez. De longe o pai não percebera, mas o menino vira pequeninas flores brancas brotando ao lado da placa no chão com as seguintes palavras:
“Aqui está o corpo de minha mãe, mas ela inteira está no meu coração.”
Pai e filho chegaram a casa, e mesmo com alguns pingos de chuva à tarde, as estrelas já iniciavam, bem ao longe, o lindo brilho no eterno céu.

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segunda-feira, 18 de setembro de 2017

As mais lindas canções que ouvi (260)





Sem mandamentos

Oswaldo Montenegro

Hoje eu quero a rua cheia de sorrisos francos,
De rostos serenos, de palavras soltas.
Quero a rua toda parecendo louca,
Com gente gritando e se abraçando ao Sol.
Hoje eu quero ver a bola da criança livre,
Quero ver os sonhos todos nas janelas,
Quero ver vocês andando por aí.
Hoje eu vou pedir desculpas pelo que eu não disse.
Eu até desculpo o que você falou.
Quero ver meu coração no seu sorriso
E no olho da tarde a primeira luz.

Hoje eu quero que os boêmios gritem bem mais alto,
Quero um carnaval no engarrafamento
E que dez mil estrelas vão riscando o céu,
Buscando a sua casa no amanhecer.
Hoje eu vou fazer barulho pela madrugada,
Rasgar a noite escura como um lampião.
Vou fazer seresta na sua calçada,
Eu vou fazer misérias no seu coração.
Hoje eu quero que os poetas dancem pela rua
Pra escrever a música sem pretensão,
Quero que as buzinas toquem flauta doce
E que triunfe a força da imaginação.



As cifras desta música você encontra em: https://www.cifraclub.com.br/oswaldo-montenegro/sem-mandamentos/


Você pode ouvir a canção acima clicando nos links indicados:
Oswaldo Montenegro:
Oswaldo Montenegro, em outra versão:
Oswaldo Montenegro, com legendas:




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domingo, 17 de setembro de 2017

Reflexões à luz do Espiritismo



Emmanuel e Nóbrega, o fundador da maior cidade do Brasil

Muitos leitores se assustaram quando leram, algum tempo atrás, numa conhecida rede social, um comentário feito por um leitor dito espírita a respeito de Emmanuel, o mentor espiritual da obra mediúnica de Chico Xavier. No comentário, o leitor repetiu algo que os detratores do Espiritismo gostam de dizer, ou seja, que Emmanuel não passa de um “padre jesuíta, membro de uma falange inimiga de Kardec, que se fantasiou de Entidade em nosso meio para acabar com ele”.
O susto dos leitores justifica-se plenamente, em face da importância que teve Emmanuel na obra do maior médium brasileiro, que é querido e respeitado por espíritas e não espíritas, e até mesmo pelos adversários do Espiritismo.
No cap. 23 do livro Diálogo dos Vivos, obra publicada em 1974, de autoria de Francisco Cândido Xavier, J. Herculano Pires e Espíritos diversos, Chico Xavier assim escreveu:

“Lembro-me de que, num dos primeiros contatos comigo, Emmanuel me preveniu de que pretendia trabalhar ao meu lado por longo tempo, mas que eu deveria, acima de tudo, procurar os ensinamentos de Jesus e as lições de Allan Kardec. E disse mais. Que se um dia ele, Emmanuel, me aconselhasse algo que não estivesse de acordo com as palavras de Jesus e Kardec, eu devia permanecer com Jesus e Kardec e procurar esquecê-lo.”

Emmanuel foi, como os espíritas não ignoram, na época em que Jesus esteve entre nós, o senador Publius Lentulus e, mais recentemente, no início da colonização do Brasil, o padre Manuel da Nóbrega – o sacerdote  jesuíta mencionado pelos críticos –, ao qual Cneius Lucius dedicou a mensagem intitulada “Emmanuel e Nóbrega”, publicada no livro Diálogo dos Vivos, no mesmo capítulo 23, acima mencionado.
Eis a mensagem:

“Amparado pelo Apóstolo dos Gentios, conseguiu Publius Lentulus transitar nas avenidas escuras da carne, em existências várias, até encontrar uma posição em que pudesse servir ao Divino Mestre com o valor e o heroísmo daquela que lhe fora companheira no início da Era Cristã. E assim temos em Manuel da Nóbrega o homem de raciocínio elevado, entregue a si mesmo em plena selva, onde tudo estava por fazer.
Noutro tempo, os livros prontos e as tribunas construídas, os direitos de família pré-estabelecidos e o dinheiro fácil, a sociedade constituída e o pedestal do poder para brilhar. Aqui, porém, eram a improvisação necessária e o deserto, as inibições do corpo deficiente que lhe apagavam a voz de tribuno, a insolência do selvagem recordando as feras do circo, à frente do qual devia imolar-se, consumindo as próprias forças para dar-lhe uma vida nova.
Surgiram ainda a devassidão e o crime, a ignorância e a audácia, os perigos mil que o hábil político transformado em missionário deveria vencer, exibindo não mais a toga do poder e as armas de seus guardas pessoais, e sim o sinal da cruz, sem mais ninguém que não fosse a sua pertinácia nos compromissos assumidos. Entretanto, superou os óbices de toda espécie, lutou, sofreu e venceu, esculpindo com os poderes da ideia cristianizada um povo diferente e um novo mundo dentro do mundo.
Nóbrega podia ter vivido isolado no seu tempo. Contudo, desde cedo agregaram-se a ele multidões de amigos, exaustos de mando, de poder e dominação. E a teia dos destinos vai convertendo em trabalho para a coletividade tudo o que era cristalização do eu, em luz quanto era sombra, em liberdade espiritual o que era cárcere físico.
Da rocha surge o diamante, no curso dos milênios. Também a luz divina fluirá de nós um dia, quando a escória estiver abandonada no carvão que servirá de berço a outros diamantes no curso longo e paciente das eras.
O serviço do nosso amigo está longe de acabar. É preciso criar espírito para o gigante – costuma ele dizer. O gigante é a Terra em que hoje nos situamos e o espírito é a luz com que devemos continuar erguendo os padrões de fraternidade mais alta e de mais avançado serviço com Jesus, no Brasil todo.
Prossigamos marchando à frente! Anos e dias correrão. Estejamos certos da brevidade de tudo o que se movimenta sobre a terra, para agirmos com segurança e paciência. Para construir é preciso lutar. E para colher é indispensável haver semeado.”

José Herculano Pires comentou a mensagem acima em um texto publicado na mesma obra, com o título “A conversão do gentio”:

“Dura foi a luta pela conversão do gentio. Tão dura que nunca chegou à conclusão desejada. Nóbrega, Anchieta e seus companheiros de catequese tiveram de enfrentar uma guerra sem tréguas. Nossos índios eram os mais selvagens da América. Sua civilização primitiva não oferecia pontos de contato com a civilização elevada que os jesuítas traziam da Europa. Nóbrega relata, em seu livro Diálogo da Conversão do Gentio, as dificuldades insuperáveis com que se defrontavam os padres catequistas. Esse livro marca o início da nossa literatura, no século XVI, e anuncia de maneira simbólica o prosseguimento da catequese de Nóbrega no futuro, através do livro psicografado.
Paulo exerceu o apostolado dos gentios para o Cristianismo. Nóbrega foi o Apóstolo dos Gentios no Brasil nascente, preparando o terreno para o seu apostolado espírita do futuro. Paulo encarna a transição histórica do Judaísmo para o Cristianismo. E com a sua teoria do corpo espiritual, a que chama de corpo da ressurreição, na I Epístola aos Coríntios, profetiza o advento do Espiritismo. Nóbrega marca a transição do Cristianismo medieval para o Cristianismo Redivivo da III Revelação, sob a égide do Espírito da Verdade.
‘Tudo se encadeia no Universo’, ensina O Livro dos Espíritos. E a relação espiritual e histórica entre Paulo e Nóbrega, revelada pela mensagem de Cneius Lucius, dá-nos o exemplo vivo desse encadeamento no campo religioso. Por isso a cidade de São Paulo, fundada por Nóbrega, tem o nome do apóstolo cristão. As malhas da evolução espiritual, tecidas no tempo, mostram o desenvolvimento do Cristianismo em suas três fases culturais e históricas, sem solução de continuidade.
A mensagem de Cneius Lucius foi recebida por Chico Xavier, em Pedro Leopoldo, a 3 de agosto de 1949. Transcrevemo-la hoje por sua oportunidade, nas comemorações de mais um aniversário da Fundação de São Paulo. (O autor refere-se aqui ao 420.º aniversário da Capital Paulista, a 25 de janeiro.)
Mensagem circunstancial, dada a um pequeno grupo de estudiosos, reduzimo-la aos pontos essenciais que revelam as ligações históricas. As dificuldades insuperáveis da conversão do gentio confirmam-se em nossos dias com a eclosão das formas de sincretismo religioso afro-brasileiro, em que as crenças indígenas e africanas sobrevivem ao nosso redor.
A conversão do gentio prossegue em pleno século XX. As crenças indígenas e africanas misturaram-se às práticas do Cristianismo. A ignorância popular, geralmente secundada pela ignorância-ilustrada, confunde Espiritismo com Umbanda e Candomblé. Publicam-se livros e realizam-se cursos sobre religiões mediúnicas, misturando a Revelação do Espírito da Verdade com danças selvagens, despachos e defumações. Mas Nóbrega prossegue infatigável na catequese evangélica, agora através da psicografia, preparando o triunfo da verdade cristã em benefício de todos.”

Quem lê o livro Testemunhos de Chico Xavier, escrito por Suely Caldas Schubert, nele encontra, escritos pelo próprio Chico, depoimentos importantes sobre o papel que Emmanuel exerceu em sua vida e em sua obra.
No capítulo intitulado “Aula de Emmanuel sobre os Evangelhos”, a autora transcreve parte de entrevista que o médium concedeu a Elias Barbosa quando se comemoravam 40 anos de suas atividades mediúnicas:

“P — Você se reconhece pessoa inteligente, talvez genial como entendem muitos adversários da Doutrina Espírita, sempre interessados em desacreditar o fenômeno mediúnico?
R — Não. Nunca me senti assim. Basta lembrar que fui aluno repetente de quarto ano primário no Grupo Escolar São José, em Pedro Leopoldo, nos anos de 1922 e 1923.
P — Mas, você se reconhece atualmente dispondo de mais facilidade para falar ou escrever?
R — Sim, não posso esquecer que debaixo da disciplina de Emmanuel, que, por misericórdia de Jesus, me dispensa atenções constantes de um professor (não por mim, mas pela obra do Mundo Espiritual), estou numa escola constante, desde 1931, portanto, há trinta e seis anos consecutivos. Algum proveito de tantas bênçãos recebidas devo demonstrar.”

Mais adiante, no capítulo intitulado “Desdobramento”, a autora transcreve outra carta de Chico Xavier, escrita em 14/3/1958, na qual o médium dá o seguinte depoimento:

“Ultimamente, estou frequentando, fora do corpo físico, uma noite por semana, uma Escola do Espaço em que o nosso abnegado Emmanuel é professor de Doutrina Espírita. Confesso que é uma experiência maravilhosa. Estou aprendendo o que nunca pensei em aprender e tenho conservado a lembrança do que vejo, com o auxílio dos Amigos do Alto.”

Vimos até aqui algo sobre Emmanuel-professor, Emmanuel-orientador.
No tocante ao Emmanuel-escritor, é bom que todos saibam que em 2000 a Organizações Candeia organizaram uma interessante pesquisa com vistas a eleger os dez melhores livros espíritas publicados no século 20. Participaram da pesquisa editores, escritores, presidentes de federativas espíritas e dirigentes espíritas em geral. Dos dez livros considerados os melhores do século, sete foram psicografados por Chico Xavier: Parnaso de Além-Túmulo, três livros de André Luiz e três de Emmanuel – Paulo e Estêvão, A Caminho da Luz e Há dois mil anos, como o leitor pode conferir acessando na internet o texto intitulado “Os melhores livros espíritas do século 20”. Eis o link: http://www.oconsolador.com.br/ano4/171/especial2.html
Sobre Emmanuel, lembramos, por fim, a apreciação que dele fazia José Herculano Pires, o autor espírita mais aclamado e respeitado de nosso país, considerado, aliás, segundo entendimento de Chico Xavier, “o metro que melhor mediu Kardec”.  Eis o link: https://www.youtube.com/watch?v=6you07jnkpo




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sábado, 16 de setembro de 2017

Contos e crônicas




Que diz Kardec sobre o desertor
espírita


JORGE LEITE DE OLIVEIRA
jojorgeleite@gmail.com
De Brasília-DF

— Amigo Joteli, há um adágio que diz, mais ou menos, assim: “O que não nos mata nos engorda”.
— E por que te lembraste desse brocardo, amigo Bruxo?
— Porque algumas pessoas ficaram alarmadas com o que jovem barbudo, “ex-espírita”, vem falando no YouTube...
— Ora, Machado, não te preocupes com isso...
— Certamente, meu nobre amigo... Antes, peço-te desculpas por chamar-te, por vezes, de “inútil”, “inepto” e outros adjetivos pouco louváveis.
— Deixa disso, Bruxo amigo, sei que não falas sério... Uma de minhas filhas, também, por chiste, apelida-me de “maluco”; e eu ainda confirmo... Mas, continua, explica-me a razão de tua citação proverbial, na primeira frase, acima.
— Ouvi as últimas gravações do nosso amigo e percebi que ele é pretensioso e jamais se poderia dizer espírita, na verdadeira acepção dessa palavra; pois a tolerância deve ser a primeira qualidade do verdadeiro espírita. Em seguida, está a solidariedade e, por fim, o trabalho desinteressado no bem.
— Por que motivo chegaste a tais conclusões sobre nosso irmão, Machado?
— Porque tudo o que ele expôs, em diversos vídeos, antes de se anunciar “ex-espírita” foram críticas. Critica Kardec e sua obra; critica Chico Xavier, Divaldo Franco, Haroldo Dias e, por fim, acusa a mensagem espírita de “lavagem cerebral”... Embora sua empáfia de, pretensamente, possuir “grande sabedoria”, quase tudo que fala pode ser refutado por quem conheça o Espiritismo e esteja disposto, seriamente, a melhorar-se...
— Pois, meu caro Mago, nada no mundo me fará “arredar pé” dessa Filosofia, cujo objetivo (que ele nunca quis crer) é o de restaurar o Cristianismo em sua pureza inicial. Além de esclarecer muitos pontos da Boa-Nova de Jesus, com base em sua promessa anotada por João, 14:16 a 18, visando nossa melhoria moral e felicidade.
—Mas, Joteli: Comment vous êtes arrivé à cette conviction?
— Primeiramente, seria muita pretensão minha julgar que sei muito mais do que o Codificador do Espiritismo, como assegura, sobre si, o nosso irmão. Segundo, a Doutrina não é daquele, e, sim, dos Espíritos, como Allan Kardec o reconheceu humildemente. Finalmente, Kardec começou do zero, em matéria de revelações mediúnicas, embora seus conhecimentos do magnetismo, estudado por mais de vinte anos, tenham-lhe permitido vislumbrar, no que observava e experimentava, algo muito acima dos saberes vigentes em sua época. Outra coisa, o fato de ter acesso, virtualmente, a uma gama de informações muito maior do que dispunha o Codificador do Espiritismo não torna qualquer um capaz de selecionar, comparar, sintetizar e ordenar, como ele, todo o conhecimento novo que lhe seja revelado.
— E muito menos proporciona bom senso a quem nunca o teve. Amigo Joteli, quem passa a vida criticando tudo o que ouve ou lê sobre o Espiritismo, negando seus médiuns e discordando de seus divulgadores, é óbvio que nunca foi espírita.
Na verdade, o que sempre ele foi é opositor da convicção alheia, pois sua “verdade” já está construída adredemente. A isso se chama preconceito, quando não má-fé. Não se aprende nada com ideias preconcebidas. Talvez, quem aja assim deseje ganhar nome e fortuna com o ataque às crenças alheias sem se importar com as consequências futuras de suas atitudes.
— E que Kardec diz dessas pessoas, meu caro Bruxo?
— Diz o seguinte:

[...] Não há que deplorar a existência desses desertores, porquanto as criaturas frívolas não passam de pobres auxiliares, seja no que for. [...]
Quanto às rivalidades, às tentativas que façam por nos suplantarem, temos um meio infalível de não as temer. Trabalhamos para compreender, por enriquecer a nossa inteligência e o nosso coração; lutamos com os outros, mas lutamos com caridade e abnegação. O amor do próximo inscrito em nosso estandarte é a nossa divisa; a pesquisa da verdade, venha donde vier, o nosso único objetivo. Com tais sentimentos, enfrentamos a zombaria dos nossos adversários e as tentativas dos nossos competidores. Se nos enganarmos, não teremos o tolo amor próprio que nos leve a obstinar-nos em ideias falsas; há, porém, princípios acerca dos quais podemos todos estar seguros de não nos enganarmos nunca: o amor do bem, a abnegação, a proscrição de todo sentimento de inveja e de ciúme. Estes princípios são os nossos; vemos neles os laços que prenderão todos os homens de bem, qualquer que seja a divergência de suas opiniões. Somente o egoísmo e a má-fé erguem entre eles barreiras intransponíveis. Mas, qual será a consequência de semelhante estado de coisas? Indubitavelmente, o proceder dos falsos irmãos poderá de momento acarretar algumas perturbações parciais, pelo que todos os esforços devem ser empregados para levá-las, ao malogro, tanto quanto possível; essas perturbações, porém, pouco tempo necessariamente durarão e não poderão ser prejudiciais ao futuro: primeiro, porque são simples manobras de oposição, fadadas a cair pela força mesma das coisas; depois, digam o que disserem, ou façam o que fizerem, ninguém seria capaz de privar a Doutrina do seu caráter distintivo, da sua filosofia racional e lógica, da sua moral consoladora e regeneradora. Hoje, estão lançadas de forma inabalável as bases do Espiritismo; os livros escritos sem equívoco e postos ao alcance de todas as inteligências serão sempre a expressão clara e exata do ensino dos Espíritos e o transmitirão intacto aos que nos sucederem. [...]

— E, após sua desencarnação, o Codificador disse algo sobre os desertores, Machado?
— Sim; pediu-nos que orássemos por eles, pois,

Se é justo censurar os que hão tentado explorar o Espiritismo ou desnaturá-lo em seus escritos, sem o terem previamente estudado, quão mais culpados não são os que, depois de lhe haverem assimilado todos os princípios, não contentes de se lhe apartarem do seio, contra ele voltaram todos os seus esforços! É, sobretudo, para os desertores dessa categoria que devemos implorar a misericórdia divina, pois que apagaram voluntariamente o facho que os iluminava e com o qual podiam esclarecer os outros. Eles, por isso, logo perdem a proteção dos Espíritos bons e, conforme a triste experiência que temos feito, bem depressa chegam, de queda em queda, às mais críticas situações! [...] KARDEC, A. Revista Espírita. Dez. 1869.

— A crítica do “desertor” de que, ao desencarnar Divaldo Franco, toda a base do Espiritismo cristão não subsistirá procede, Bruxo do Cosme Velho?
— Claro que não! O trabalho do Chico, como o do Divaldo, sempre será valioso, entretanto, antes deles, tivemos Bezerra de Menezes, Frederico Júnior, Cairbar Schutel, Zilda Gama, Anna Prado, Eurípedes Barsanulfo e diversos outros grandes médiuns e estudiosos. Não te esqueças, Joteli: ninguém, mas ninguém mesmo, a não ser Deus e Jesus, é insubstituível, para nós, aqui na Terra. Além disso, relembro-te o que eu disse, em crônica, outro dia: já estão reencarnadas grandes almas da ciência, da filosofia, da religião e das artes. Breve, terás notícias delas.  Adeus!






Como consultar as matérias deste blog? Se você não conhece a estrutura deste blog, clique neste link: http://goo.gl/OJCK2W, e verá como utilizá-lo e os vários recursos que ele nos propicia.




sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Iniciação aos clássicos espíritas





Memórias do Padre Germano

Amalia Domingo Soler

Parte 4

Continuamos o estudo metódico e sequencial do livro Memórias do Padre Germano, com base na 21ª edição publicada pela Federação Espírita Brasileira.
Esperamos que este estudo constitua para o leitor uma forma de iniciação aos chamados Clássicos do Espiritismo.
Cada parte compõe-se de:
1) questões preliminares;
2) texto para leitura.
As respostas correspondentes às questões apresentadas encontram-se no final do texto indicado para leitura. 

Questões preliminares

A. Qual é, segundo Padre Germano, o único patrimônio do homem?
B. Que fato levou o duque Constantino de Hus a perder a maior parte de seus bens?
C. Aconselhado pelo padre, o duque deu novo rumo à sua vida? 

Texto para leitura

26. Madalena não resistiu à força dos argumentos de Germano e decidiu ficar ao lado dos seus, o que levou Padre Germano, encerrando o capítulo, a dizer: “Oh! A família! – eterno idílio do mundo, tabernáculo dos séculos, nos quais se guarda a história consagrada pelo alento divino de Deus! A religião que te não respeita nem considera acima de todas as instituições da Terra, tem menos poder e verdade que o floco de espumas levantado sobre as ondas batidas do mar!” (P. 68)
27. O tempo – que para o Padre Germano é o único patrimônio do homem – é o tema do cap. 7, em que ele narra mais uma façanha de Sultão, que descobriu numa furna, escondido, um homem enfermo, que Miguel e Germano, com dificuldades, conduziram até à sacristia. O homem era nada mais nada menos que o duque Constantino de Hus, uma pessoa que o Padre conhecia muito bem por sua triste fama, que se confirmou com sua confissão. (PP. 72 a 77)
28. Como Constantino desejava um filho, que nenhuma das três esposas lhe deu, ele obrigou 36 jovens, filhas de vassalos seus, a cederem a seus desejos, sem contudo conseguir o desejado filho. Assim, dos três casamentos lhe ficaram três filhas, duas obrigadas a entrar para um convento, enquanto a mais velha permanecera a seu lado, para tornar-se o pivô de uma tragédia, visto que um homem socialmente mais poderoso do que ele a seduzira, abandonando-a, em seguida. (P. 77)
29. Certo de que o duque, ciente dessa injúria, procuraria vingar-se, o algoz de sua filha acusou-o de chefiar uma sedição e despojou-o, por causa disso, da maior parte de seus bens. Na luta entre ambos, Constantino perdera. Eis a razão por que chegara à aldeia na condição de simples fugitivo, embora sedento de vingança. (PP. 77 e 78)
30. Ao conversar com o infeliz, Padre Germano se viu rodeado de seres espirituais, enquanto que uma sombra lutuosa acercava-se do duque, chorando desconsoladamente. Era o Espírito de sua pobre mãe. (P. 79)
31. Padre Germano falou-lhe então sobre a necessidade de sua transformação em face da vida eterna. “Tu viverás”, afirmou-lhe Germano, acrescentando: “e pagarás uma por uma as dívidas que contraíste, até chegar o dia de te tornares senhor de ti mesmo; hoje escravo de tuas paixões, amanhã serás delas senhor e as dominarás com previdência, tal como tenho as minhas dominado.” (PP. 80 e 81)
32. Advertindo-o sobre a presença de sua mãe, que ali o conduzira para iniciar a sua regeneração, Padre Germano conseguiu o que parecia impossível: a adesão de Constantino de Hus ao programa que ele lhe traçara. De fato, um mês depois Constantino retornou à aldeia, acompanhado do mais fiel dos seus servos, que, como ele, parecia um etíope, visto que até mesmo na fisionomia Constantino decidira apagar em si todos os vestígios que o ligavam à Casa de Hus. (P. 83)
33. Quatro anos depois, alguns camponeses desolados vieram avisar Padre Germano de que o Sr. João (o novo nome de Constantino) estava morrendo. Na granja que ele construiu, beneficiando uma porção de famílias, reinava completa desolação e algumas mulheres até mesmo choravam, ao pressentirem a morte próxima de seu benfeitor. (PP. 83 e 84)
34. Quando Germano penetrou no quarto do enfermo, ele, tomando-lhe uma das mãos, disse em tom solene: “Padre, vossa profecia vai cumprir-se: vou morrer; porém, serei chorado; vejo a perturbação dessa pobre gente; alguns gemidos chegam até mim... Ah! como é bom ser amado! Sobre a mesa encontrareis meu testamento. Meus colonos são os meus herdeiros. Ah! Padre Germano, por que não vos conheci eu desde que nasci? Que bom é ser bom, meu Padre...” Dito isto, morreu o último dos duques de Hus, cuja sepultura ficou juncada de flores... (P. 84) (Continua na próxima edição.)

Respostas às questões preliminares

A. Qual é, segundo Padre Germano, o único patrimônio do homem?
O tempo, esse é o único patrimônio do homem e todos os recebem da vida em igual quantidade. Depende unicamente de nós utilizá-lo corretamente. (Memórias do Padre Germano, pp. 72 e 73.)
B. Que fato levou o duque Constantino de Hus a perder a maior parte de seus bens?
O duque tivera, dos seus três casamentos, apenas três filhas. Duas foram obrigadas a entrar para um convento, enquanto a mais velha permanecera a seu lado. Mas um homem, socialmente mais poderoso do que ele, a seduzira, abandonando-a, em seguida. Certo de que o duque, ciente dessa injúria, procuraria vingar-se, o algoz de sua filha acusou-o de chefiar uma sedição e despojou-o, por causa disso, da maior parte de seus bens. Na luta entre ambos, Constantino perdera. (Obra citada, pp. 77 e 78.)
C. Aconselhado pelo padre, o duque deu novo rumo à sua vida? 
Sim. Advertindo-o sobre a presença de sua mãe, que ali o conduzira para iniciar a sua regeneração, Padre Germano conseguiu o que parecia impossível: a adesão de Constantino de Hus ao programa que ele lhe traçara. Quatro anos depois, alguns camponeses desolados vieram avisar Padre Germano de que o Sr. João (novo nome de Constantino) estava morrendo. Na granja que ele construiu, beneficiando uma porção de famílias, reinava completa desolação e algumas mulheres até mesmo choravam, ao pressentirem a morte próxima de seu benfeitor. Quando Germano penetrou no quarto do enfermo, ele, tomando-lhe uma das mãos, disse em tom solene: “Padre, vossa profecia vai cumprir-se: vou morrer; porém, serei chorado; vejo a perturbação dessa pobre gente; alguns gemidos chegam até mim... Ah! como é bom ser amado! Sobre a mesa encontrareis meu testamento. Meus colonos são os meus herdeiros. Ah! Padre Germano, por que não vos conheci eu desde que nasci? Que bom é ser bom, meu Padre...” Dito isto, morreu o último dos duques de Hus, cuja sepultura ficou juncada de flores.  (Obra citada, pp. 83 e 84.)  


Nota:
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