Nossos mortos queridos continuam
vivos
ASTOLFO O. DE OLIVEIRA FILHO
Há quase dez anos,
exatamente no dia 29 de novembro de 2016, um avião que transportava a delegação
da Chapecoense para Medellín, na Colômbia, caiu a poucos quilômetros da cidade.
Encerradas as operações de busca e resgate, as autoridades colombianas
confirmaram o saldo da tragédia: seis feridos e 71 mortos.
Naquele mesmo dia,
publicamos nas redes sociais uma nota que suscitou manifestações de leitores de
várias partes do Brasil e do exterior:
“O mundo do
esporte está de luto em face do lamentável acidente que vitimou o time da
Chapecoense, todos os componentes da delegação do mesmo clube, cerca de 21
jornalistas esportivos e quase toda a tripulação. (...)
Como apreciador do
futebol e admirador do simpático clube de Chapecó, não poderíamos deixar de
registrar aqui as nossas condolências às famílias enlutadas e enviar as nossas
vibrações a todos aqueles que partiram para o plano espiritual, onde, com toda
a certeza, em breve tempo retomarão as atividades que interromperam,
momentaneamente, quando vieram para darem cumprimento à sua atual programação
reencarnatória.
Morrem os corpos,
as almas sobrevivem!
Este é o consolo
de todos os que, como nós, acreditam que a morte não é o fim da vida, mas
apenas o final de uma etapa, dentre as muitas que tivemos e teremos ao longo
dos milênios.
Que Deus proteja e
ampare a todos os que foram diretamente ou indiretamente atingidos pelo triste
acontecimento.”
A tragédia comoveu
o mundo, e não apenas os que apreciam futebol. Acidentes acontecem todos os
dias, mas episódios como esse nos chocam pela forma como ocorrem, pelo número
de vítimas e pelas circunstâncias que os envolvem.
Outro
acontecimento que permanece na memória dos brasileiros, sobretudo na dos que
foram diretamente atingidos, é o incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS),
na madrugada de 27 de janeiro de 2013. A tragédia vitimou 242 pessoas, quase todas
jovens, como os atletas da Chapecoense.
Naquele mesmo dia,
publicamos em nosso blog um texto intitulado “O incêndio em Santa Maria”, que
reproduzimos a seguir.
“Somente no final
da tarde soubemos, por meio de nossa esposa, o que havia acontecido naquela
madrugada na aprazível cidade gaúcha de Santa Maria, terra de nosso amigo e
irmão Teltz Cardoso Farias.
Diante de
acontecimentos assim, o que nos cabe fazer é orar por todos os atingidos: não
apenas pelos irmãos e irmãs que partiram para a vida espiritual, mas também
pelos familiares e amigos que aqui prosseguem sua marcha.
A perda de um ente
querido é, sem dúvida, um dos momentos mais dolorosos de nossa experiência
reencarnatória. Se algo pode servir de consolo, recordemos uma antiga lição de
Jesus: a morte não é o capítulo final da vida. Esta prossegue sempre. Ninguém
morre: somos realmente imortais.
A tragédia de
Santa Maria nos fez recordar o incêndio do edifício Joelma, ocorrido em 1º de
fevereiro de 1974, na capital paulista. A televisão mostrou ao vivo aqueles
momentos de sofrimento, que comoveram o País inteiro.
No livro Diálogo dos Vivos,
publicado em 1974, Chico Xavier contou que, ao saber do incêndio pelo rádio,
reuniu-se com três amigos para pedir auxílio dos Benfeitores Espirituais às
vítimas. Emmanuel, seu Benfeitor Espiritual, compareceu e transmitiu uma prece
que, pela beleza e profundidade, reproduzimos a seguir, na esperança de que
suas palavras também confortem os irmãos de Santa Maria:
— Senhor Jesus:
Auxilia-nos,
perante os companheiros impelidos à desencarnação violenta, por força das
provas redentoras.
Sabemos que nós
mesmos, antes do berço terrestre, suplicamos das Leis Divinas as medidas que
nos atendam às exigências do refazimento espiritual. Entretanto, Senhor, tão
encharcados de lágrimas se nos revelam, por vezes, os caminhos do mundo, que
nada mais conseguimos realizar, nesses instantes, senão pedir-te socorro para
atravessá-los de ânimo firme.
Resguarda em tua
assistência compassiva todos os nossos irmãos surpreendidos pela morte, em
plena floração de trabalho e de esperança e acende-lhes nos corações, aturdidos
de espanto e retalhados de sofrimento, a luz divina da imortalidade oculta
neles próprios, a fim de que a mente se lhes distancie do quadro de agonia ou
desespero, transferindo-se para a visão da vida imperecível.
Não ignoramos que
colocas o lenitivo da misericórdia sobre todos os processos da justiça, mas
tocados pela dor dos corações que ficam na Terra – tantos deles tateando a
lousa ou investigando o silêncio, entre o pranto e o vazio – aqui estamos a
rogar-te alívio e proteção para cada um!...
Dá-lhes a saber,
em qualquer recanto de fé ou pensamento a que se acolham, que é preciso nos
levantemos de nossas próprias inquietações e perplexidades, a cada dia, para
continuar e recomeçar, sustentar e valorizar as lutas de nossa evolução e
aperfeiçoamento, no uso da Vida Maior que a todos nos aguarda, nos planos da
União Sem Adeus.
E, enquanto o
buril da provação esculpe na pedra de nossas dificuldades, conquanto as nossas
lágrimas, novas formas de equilíbrio e rearmonização, embelezamento e
progresso, engrandece em teu amor aqueles que entrelaçam providências no amparo
aos companheiros ilhados na angústia. Agradecemos, ainda, a compreensão e a
bondade que nos concedes em todos os irmãos nossos que estendem os braços,
cooperando na extinção das chamas da morte; que oferecem o próprio sangue aos
que desfalecem de exaustão; que umedecem com o bálsamo de leite e da água pura
os lábios e as gargantas ressequidas que emergem do tumulto de cinza e sombra;
que socorrem os feridos e mutilados para que se restaurem; e os que pronunciam
palavras de entendimento e paz, amor e esperança, extinguindo a violência no
nascedouro!...
Senhor Jesus!...
Confiamos em ti e,
ao entregarmo-nos em Tuas mãos, ensina-nos a reconhecer que fazes o melhor ou
permites se faça constantemente o melhor em nós e por nós, hoje e sempre. (Emmanuel)”
O incêndio do edifício Joelma inspirou também dois sonetos recebidos por Chico Xavier, de autoria dos poetas Cyro Costa e Cornélio Pires.
Ambos lembraram que, apesar do
sofrimento e das cinzas que ficaram na Terra, os Benfeitores e amigos
espirituais recebiam com hinos de vitória aqueles que regressavam à verdadeira
pátria.
Assim se expressou
Cornélio Pires no comovente e, ao mesmo tempo, consolador soneto intitulado “Incêndio
em São Paulo”:
Céu de São
Paulo... O dia recomeça...
O povo bom na rua
lida e passa...
Nisso, aparece um
rolo de fumaça
E o fogo para cima
se arremessa.
A morte inesperada
age possessa,
E enquanto ruge,
espanca ou despedaça,
A Terra unida ao
Céu a que se enlaça
É salvação e amor,
servindo à pressa...
A cidade magoada e
enternecida
É socorro chorando
a despedida,
Trazendo o coração
triste e deserto...
Mas vejo, em
prece, além do povo aflito,
Braços de amor que
chegam do Infinito
E caminhos de luz
no céu aberto...
Fazemos nossas as
palavras da oração feita por Emmanuel, convictos de que a morte não é o fim da
vida, mas apenas o término de uma etapa, entre as muitas que tivemos e teremos
ao longo dos milênios.
Que nos lembremos
disso amanhã, 2 de novembro, ao prestar nossas homenagens aos familiares e
amigos que partiram antes de nós para a Pátria Espiritual. Eles não estão
mortos! Todos continuam vivos, tão vivos quanto nós mesmos o somos.
Nota do Autor:
Para ler o artigo
do último domingo, clique em: https://espiritismo-seculoxxi.blogspot.com/2026/10/cuidados-e-impedimentos-para-aplicacao.html
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