domingo, 15 de fevereiro de 2026

 




Como entender o sofrimento dos nossos animais

 

ASTOLFO O. DE OLIVEIRA FILHO

aoofilho@gmail.com

 

Uma pessoa próxima, por desconhecer os ensinamentos espíritas a respeito do propósito da vida, pergunta-nos como entender a informação dada pelo Espiritismo segundo a qual “os animais sofrem para evoluir, mas não resgatam débitos como os seres humanos, já que não possuem livre-arbítrio”.

Embora já tenhamos abordado o tema em outras ocasiões, vale relembrar alguns pontos essenciais.

No capítulo 19 do livro Ação e Reação, de André Luiz, são identificados três tipos de dor na experiência terrestre: a dor-evolução, a dor-expiação e a dor-auxílio. Apenas a dor-expiação se relaciona a erros cometidos no passado. As demais possuem finalidades educativas e evolutivas.

A dor-evolução, voltada ao aprimoramento do ser, não decorre de faltas pretéritas. É o caso dos animais, tanto os domésticos quanto os que vivem na natureza, sujeitos a enfermidades e a sofrimentos intensos, como ocorre na luta pela sobrevivência.

Referindo-se diretamente a eles, o instrutor espiritual Druso afirma:

“A dor é ingrediente dos mais importantes na economia da vida em expansão (...). O animal em sacrifício (...) sofre a dor-evolução, sem a qual não existiria progresso.” (Ação e Reação, cap. 19.)

Em entrevista à Revista Cristã de Espiritismo (edição 29, 2004), o médico veterinário Marcel Benedeti comentou, a propósito da eutanásia:

“O ser humano tem carma, o animal não (...). A eutanásia deve ser o último recurso (...). Se o sofrimento for extremo e não houver alternativa, o plano espiritual não condena, pois é aprendizado para o animal e para o dono.”

Chico Xavier, indagado sobre o porquê das deformidades congênitas em animais, esclareceu em depoimento consignado por Marlene Rossi Severino Nobre no livro Lições de Sabedoria que os animais são “irmãos menores”, em processo de desenvolvimento do princípio inteligente, aperfeiçoando instintos rumo à inteligência e, no futuro distante, ao livre-arbítrio.

E acrescentou que a Lei Divina institui solidariedade entre os seres, cabendo ao homem a responsabilidade de proteção e cuidado. Muitas deformidades e desajustes podem resultar dos maus-tratos e violências impostos pela crueldade humana, que desequilibram o princípio espiritual do animal e exigem reajustes futuros.

Nesse sentido, a angústia, o medo e o ódio que provocamos nos animais lhes alteram o equilíbrio natural de seu princípio espiritual, determinando a necessidade de ajustamento em posteriores existências, a se configurarem por deformidades congênitas. A responsabilidade maior recairá, então, nos desvios de nós mesmos, que não soubemos guiar os animais na senda do amor e do progresso, segundo a vontade de Deus.

Concluímos, pois, que o sofrimento animal não se vincula à expiação moral, mas sobretudo a processos evolutivos e, em certos casos, às consequências das ações humanas exercidas sobre eles.

Esperamos que estas considerações ajudem a compreender melhor as nuanças da questão levantada pela estimada leitora.

 

Nota do Autor:

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2 comentários:

  1. Astolfo, li o texto e te trago algumas criticas.
    O seu texto tenta justificar o sofrimento dos animais como parte de um processo evolutivo espiritual. Mas essa explicação tem uma consequência muito séria: transforma o sofrimento extremo em algo necessário e positivo. Isso significa defender que a dor intensa, prolongada e massiva dos animais seria boa, e que o deus do espiritismo precisaria do sofrimento para promover evolução. Ou seja, se o sofrimento é necessário para evoluir, então estamos diante de um sistema que depende da dor extrema para funcionar. Quando falo em dor extrema, é por falta de palavra mais forte, pois é muito pior do que as palavras podem descrever. Sem falar da dor diretamente provocada pela nossa sociedade aos animais objetificados como animais "de produção", os animais selvagens sofrem muito mais na natureza por causas naturais, como fome, doenças, parasitismo, frio, sede, acidentes, predação… com mortes lentas e dolorosas. Além disso, a maioria das espécies segue estratégias reprodutivas em que milhares de filhotes nascem e quase todos morrem rapidamente, em sofrimento intenso, para que uns poucos poucos possam viver. Ou seja, a estrutura da natureza é tal que a maioria dos indivíduos nasce para morrer cedo. Diante disso, a ideia de que tudo isso é “educativo” ou “necessário” leva a uma conclusão perturbadora: o sofrimento extremo é parte intencional desse sistema divino espírita, ou seja, o deus do espiritismo precisa da dor massiva de seres sencientes para atingir seus fins.

    Outro ponto é o antropocentrismo no texto, que não coloca o sofrimento do animal no centro. Em vez disso, o dano ao animal aparece em alguns momentos no texto como um problema para o ser humano, uma oportunidade para evoluir. Essa abordagem não reconhece o animal como sujeito, agente, com interesses próprios etc, mas como meio para fins humanos (morais, espirituais ou evolutivos). Em termos de Ética Animal, o sofrimento importa porque é ruim para quem sofre, não porque afeta humanos. Uma ética não antropocêntrica questiona o que seria bom para o animal, pois reconhece o sofrimento animal como moralmente relevante por si mesmo, não por sua relação com o humano.

    Enfim, o texto busca oferecer uma explicação espírita para o sofrimento animal, justificando a dor brutal como fundamental. Por outro lado, variadas áreas da ciência como a Ética Animal propõem não justificar o sofrimento e não tratar os animais como meios, mas reconhecer que o sofrimento deles (natural ou não) é um um problema moral, que exige reflexão crítica e formulação de políticas para pelo menos minimizar o sofrimento dos animais na natureza. Tenho defendido que o movimento espírita precisa dialogar com a Ética Animal contemporânea (já que segundo Kardec o espiritismo tem compromisso com a ciência e filosofia) e reformular sua visão espiritual sobre os animais, de forma a se afastar dos prejudiciais paradigmas antropocêntricos e especistas que tanto violentam os animais. Abraço.

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  2. A visão romantizada do sofrimento tem tornado os espíritos, infelizmente, complacentes com a dor alheia.
    Muitas teses sobre o assunto já foram apresentadas pela filosofia, mas nenhuma delas conseguiu até o momento fechar a questão. Até mesmo os pais humanos já descobriram que impor sofrimento não é a melhor maneira de ensinar seus filhos. O que pensar de um deus que ainda não chegou nessa conclusão? Deveríamos acreditar no deus de Leibnitz, que não consegue fazer um mundo melhor, ironizado por Voltaire?
    Enquanto não temos resposta definitiva, deveríamos focar no fato de que o Espiritismo reconhece os animais como seres com valor intrínseco, que possuem lugar no nosso mapa moral. Assim, cabe a nós trabalhamos ativamente para aliviar o sofrimento do mundo, começando por eliminar das nossas vidas a crueldade exploração animal.

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