domingo, 21 de fevereiro de 2016

O roustainguismo em face do que ensina o Espiritismo


Sempre entendemos que a discussão em torno da obra Os Quatro Evangelhos, dada a lume pelo advogado J.-B. Roustaing, devia – e ainda deve – cingir-se exclusivamente aos seus aspectos doutrinários, ou seja, primeiro é preciso conhecer a obra para depois criticar ou defendê-la. Eis o motivo pelo qual, durante muito tempo, jamais tratamos do assunto, seja aqui, seja na tribuna. 
Alguém, porém, nos pergunta que problemas há na referida obra e – caso existam – por que a editora da Federação Espírita Brasileira (FEB) a divulga e tantos nomes ilustres em nosso meio a defendem.
Os adeptos do chamado roustainguismo formam, de fato, um contingente numeroso. Pelo menos é o que informa Luciano dos Anjos em seu livro Os Adeptos de Roustaing, publicado em agosto de 1993 pela Associação Espírita Estudantes da Verdade, de Volta Redonda (RJ).
Respondendo à indagação inicial, diremos que é fácil perceber na obra de Roustaing a existência de quatro pontos que a tornam incompatível com a doutrina espírita exposta nas obras de Allan Kardec, Léon Denis, Gabriel Delanne, André Luiz e Emmanuel. Claro que, excetuados esses problemas, apresenta ela coisas atraentes, especialmente no que se refere à apresentação primorosa que a FEB lhe deu, um cuidado que jamais a editora teve com quaisquer outras obras.
Os quatro pontos a que nos referimos são estes:
I. A tese de que a encarnação não é obrigatória, nem mesmo necessária, e só se dá em caso de queda do Espírito. A evolução da criatura humana, após a passagem do princípio inteligente pelos reinos inferiores da criação, ocorreria, segundo Roustaing, em cidades espirituais nas quais o Espírito revestiria tão somente um corpo fluídico – o perispírito. Se o indivíduo apresentar nessa condição algum defeito a ser corrigido (vaidade, inveja etc.), aí sim, por castigo, terá de encarnar. A reencarnação seria uma consequência dessa primeira encarnação. O assunto é tratado no volume 1, pp. 317 e 321, no volume 3, p. 91, e no volume 4, p. 292, da 8a edição, de agosto de 1994, publicada pela FEB.
II. Ao ter de encarnar, o Espírito é conduzido a um mundo primitivo, encarnando-se aí num corpo rudimentar que viveria, como os animais, do que encontrasse no solo. “Não poderíamos compará-los melhor do que a criptógamos carnudos”, diz o livro em seu volume 1, p. 313. Um exemplo conhecido de criptógamo carnudo são as nossas lesmas. O livro de Roustaing está informando, portanto, que uma alma humana, depois de viver numa cidade espiritual, encarnará em uma forma animal que nem mesmo chegou ao nível dos vertebrados, um ensinamento que reedita a doutrina da metempsicose, rejeitada formalmente pela Doutrina Espírita. O assunto é tratado ainda nas pp. 299 e 312 do volume citado.
III. A encarnação, que não é obrigatória, só ocorrerá em caso de queda do Espírito, uma alusão à retrogradação da alma, que o Espiritismo não admite. Os motivos, diz a obra de Roustaing, são diversos e seus resultados, terríveis. “Qualquer que seja a causa da queda, orgulho, inveja ou ateísmo, os que caem, tornando-se por isso Espíritos de trevas, são precipitados nos tenebrosos lugares da encarnação humana, conforme ao grau de culpabilidade, nas condições impostas pela necessidade de expiar e progredir”, eis a lição transmitida na obra em seu volume 1, p. 311.
IV. Segundo a obra de Roustaing, Jesus não encarnou para vir à Terra trazer-nos a Boa Nova. Seu corpo teria sido fluídico. Ele teria sido, assim, um agênere, um Espírito materializado. Desse modo se explicariam seu desaparecimento dos 12 aos 30 anos, período do qual ninguém fala, e o sumiço do corpo material nos dias seguintes à crucificação. O assunto é tratado nos quatro volumes da obra, constituindo um dos aspectos mais conhecidos da doutrina roustainguista e, por isso mesmo, o mais criticado.
Allan Kardec examinou em suas obras os quatro assuntos focalizados: a encarnação do Espírito como requisito indispensável à evolução espiritual e ao progresso dos planetas; a metempsicose, que rejeitou expressamente; o princípio da não retrogradação da alma e a natureza corpórea do corpo de Jesus, ao qual dedicou os itens 64 a 67 do cap. XV de seu livro A Gênese, publicado em 1868, ou seja, bem depois do surgimento da obra publicada por Roustaing.
Sobre o corpo de Jesus, escreveu Kardec:

“A estada de Jesus na Terra apresenta dois períodos: o que precedeu e o que se seguiu à sua morte. No primeiro, desde o momento da concepção até o nascimento, tudo se passa, pelo que respeita à sua mãe, como nas condições ordinárias da vida. Desde o seu nascimento até a sua morte, tudo, em seus atos, na sua linguagem e nas diversas circunstâncias da sua vida, revela os caracteres inequívocos da corporeidade. São acidentais os fenômenos de ordem psíquica que nele se produzem e nada têm de anômalos, pois que se explicam pelas propriedades do perispírito e se dão, em graus diferentes, noutros indivíduos. Depois de sua morte, ao contrário, tudo nele revela o ser fluídico. É tão marcada a diferença entre os dois estados, que não podem ser assimilados.” (A Gênese, cap. XV, item 65.)

A conclusão que podemos tirar, à vista do exposto, é uma só: os espíritas que apoiam a obra de Roustaing certamente não a leram ou não a entenderam; pelo menos é o que deve ter ocorrido com escritores importantes que a elogiaram em certa época e depois mudaram de ideia, como os saudosos confrades Carlos Imbassahy e Henrique Rodrigues.



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sábado, 20 de fevereiro de 2016

Destaques da semana da revista “O Consolador”


Já está disponível na internet a edição 453, de 21.fev.2016, da revista O Consolador.
Como já foi amplamente divulgado, a revista não mais envia aos leitores, por e-mail, os destaques semanais de suas edições. Os destaques da revista são postados neste blog sempre aos sábados, exatamente às 17 horas, como fazemos neste instante.
A seguir:

Destaques da edição 453 de O Consolador

Link que remete à edição 453, de 21.fev.2016, da revista O CONSOLADOR:
Edson Ramos de Siqueira, de Botucatu (SP), autor de “Alimentação e Evolução Espiritual”, fala-nos sobre o seu livro.
Antonio Cesar Perri de Carvalho escreve sobre a vida e a obra de Humberto de Campos.
“É chegada a hora. Por que te deténs?” foi o tema da 20ª CONMEL, em Londrina.
“Humberto de Campos: o homem, o escritor, o amigo” é o título do nosso editorial.
Saiba o que ocorre nesta semana no movimento espírita brasileiro.
Anote e acompanhe os eventos espíritas internacionais desta semana.
Os Espíritos familiares podem auxiliar-nos em nossas dificuldades e problemas?
Efeitos do livro espírita, segundo Albino Teixeira.
Qual o conceito de sacrifício, à luz da doutrina espírita?
Diante do mal, o que Jesus espera de nós?
“Igualdade de direitos e deveres.” (Altamirando Carneiro)
Encontraremos na Outra Vida, no plano espiritual, espíritos de animais?
Cláudio Bueno da Silva: “As fronteiras morais do futuro.”
Existe alguma relação entre sexto sentido e mediunidade?
“O Senhor (...) não nos impõe fardos que não possamos suportar.” (Emmanuel)
“Coragem da fé.” (Gebaldo José de Sousa)
Que tipo de comportamento dos espíritas perturba a marcha dos médiuns?
“O Espiritismo é o Consolador mencionado por Jesus.” (Hugo A. Novaes)
Os espíritos de animais permanecem longo tempo no Mundo Espiritual?
Veja o que Chico Xavier disse sobre sua mãe, falecida aos 36 anos de idade.
“Carnaval, preferências e preconceitos.” (Marcelo Teixeira)
Que significa: “Não vim trazer paz à Terra, mas a espada”? Meimei explica.
Marcus Braga: “O bem, lento e gradual.”
Isso não admira-me. Me leva contigo, Maria.
Há erro nas frases acima?
Federação Espírita Brasileira lança aplicativo em esperanto. Confira.
“Relações sexuais e Chakras.” (Ricardo Di Bernardi)
“Dor secreta”, de Celso Martins, é o nosso poema desta semana.
Waldenir Aparecido Cuin: “Influenciar para o bem.”


Machado e a intervenção militar


JORGE LEITE DE OLIVEIRA
jojorgeleite@gmail.com
De Brasília-DF

Parafraseando Cíntia Schwantes, como diria Jack, o estripador, “vamos por partes”. Segundo meu ordinário (marche!) secretário Joteli, em seu tempo de militar, ouviu de um colega de farda o seguinte relato:
– Eu não queria servir ao Exército, mas como minha família era de prole numerosa, com mãe viúva e sete filhos, incluindo eu, quatro deles ainda crianças e os dois mais velhos com empregos salários-mínimos, alistei-me... No dia da seleção, fui logo prevenindo o oficial encarregado das entrevistas sobre minha situação, além de colocá-lo a par de uma otite crônica nos meus dois ouvidos.
– E o que ele lhe respondeu? Perguntou Joteli, a quem passo a palavra daqui por diante.
– Só te dispenso do serviço militar obrigatório se voltares aqui com um atestado médico que constate teu problema auditivo. (O cara era gaúcho, tchê.)
– E em relação à sua condição social, o que ele disse?
– Disse que, se eu já tinha outros dois irmãos mais velhos ajudando no sustento da família, isso bastava. O Brasil precisava de mim. Além do mais, no quartel, eu receberia alojamento, colegas que dormiriam comigo no alojamento, a farda, comida, toalha de banho, banheiro com água fria e até um soldo de um salário mínimo para as despesas próprias. Portanto, nada me faltaria.
– Isso me faz lembrar o salmo 23 de Davi, Joteli: “O senhor é o meu pastor, e nada me faltará...”
– Posso continuar, Machado?
Em frente, Joteli. O que mais lhe disse seu colega de farda?
– Oliveira, este era seu nome de guerra, disse-me que, naquele momento, um sentimento patriótico assomou seu espírito e ele, antes mesmo de aprender os movimentos militares, tomou a posição de sentido, prestou continência ao coronel, deu meia volta e... foi em... frente! Anos depois, escreveria um poema intitulado “A marcha”, que recebeu medalha de bronze em concurso nacional de poesia, promovido pela Revista Brasília, que nem sei se ainda existe no Distrito Federal.
– Mas, Oliveira, disse-lhe eu, por que você não levou um atestado médico?
– Porque para quem estava desempregado, Joteli, na minha situação, as condições oferecidas eram promissoras. Além disso, poderia, ao final do mês, repassar meu soldo para minha mãe e dar-lhe mais uma ajuda no sustento de sua numerosa prole.
– Pelo que vejo, o serviço militar obrigatório lhe foi muito útil, Oliveira. Mais alguma lembrança inesquecível?
– Sim, Joteli. Dois anos depois, já engajado e pensando fazer “carreira” no Exército, fui aprovado em concurso para sargento na área de comunicação. No ano anterior, já fora aprovado no curso para cabo, em primeiro lugar dentre os soldados inscritos, sem ter tido o prazer de colocar as divisas nos ombros. Mas essa é outra história.
– Muito bem! Concluído o curso, naturalmente, você pôde continuar em sua terra natal e ajudar um pouco mais sua mãe.
– Certo, quanto à segunda parte; errado na primeira, porque fui transferido para Salvador, na Bahia. Como meu problema de otite crônica bilateral nunca havia sido curado, depois de um ano nesse estado e nesse estado, compreendeu?, voltei ao Rio de Janeiro, de férias, e busquei tratamento otorrinolaringológico no Hospital Central do Exército.
– Muito bem! Com certeza, ante a gravidade do seu caso, o médico que o atendeu recomendou sua transferência para perto da família, a fim de receber os cuidados médicos e familiares, não é mesmo, Oliveira?
– Quem me dera, Joteli! Era um coronel otorrino que, ao ouvir minha história, ficou tão comovido que, antes de ordenar (Militar não pede, ordena.) a uma enfermeira que fizesse uma lavagem nos meus dois ouvidos, alertou-me com as seguintes doces palavras:
– Sargento, não me venha com a tentativa do golpe da saúde para forçar sua transferência para cá. Você não tem nada! Aproveite e lave a boca, além dos ouvidos dele, enfermeira.
– Gente boa, esse coronel, não é mesmo?
– Com certeza! Décadas depois, soube que em meus ouvidos não poderia entrar uma só gota d’água. Mas, como diz a música de Chico Buarque, transformada em peça teatral: “Pode ser a gota d’água”... Prometi a mim mesmo que um dia eu voltaria para agradecer ao nobre oficial por seus cuidados médicos.
– E você voltou?
– Estou voltando agora, quarenta anos depois, nas asas dos devaneios literários. Ele lerá isto, tenho certeza, como também foi certo o reencontro do seu amigo Machado com sua amada Carolina, após transpostas as águas do rio Lete.
Ainda em Salvador, após passar dias tratando soldados com febre alta, no quartel, fui acometido de uma labirintite tão forte que perdi os sentidos e, quando despertei, estava internado no Hospital Geral de Salvador, com um soro correndo em minha veia do braço. Ao meu lado, o médico do quartel, quase chorando, pediu-me perdão por não me ter dado atenção quando eu, dois dias antes, o procurei para lhe dizer que, embora fosse dia de sol a pino, via tudo às escuras...
Duas semanas depois, tive alta e voltei às atividades normais do quartel. A otite continuava... Firme! como um soldado que recebesse ordens de seu superior, após o primeiro comando: Cobrir! No primeiro dia de alta, retornando ao quartel, ao participar de uma marcha matutina, sob o comando do tenente R2 Cláudion, este percebeu que eu marchava que nem um bêbado e gritou, para eu e a tropa ouvirmos:
– Sargento Oliveira, acerte o passo!
Não perdi tempo e lhe respondi:
– O senhor não está vendo que estou com problema de equilíbrio, tenente?
Ao que ele retrucou, ainda durante a marcha:
– Sargento Oliveira, ao final do desfile, procure-me no meu posto de comando (PC).
Não lhe dei resposta, nem também obedeci a sua ordem, mas, dias depois, soube do Raulindo, um velho sargento que me tratava quase como um filho, que o tenente Cláudion o procurara e lhe perguntara:
– O que está acontecendo com o sargento Oliveira e por que ele não obedeceu à minha ordem de ir falar comigo no meu PC?
Resposta do Raulindo:
– O Oliveira é um bom rapaz, mas não pise no calo dele não, pois ele vira uma fera.
Nunca mais fiquei sabendo o que o tenente Cláudion desejava falar comigo em seu PC, embora, por muito tempo, eu tivesse a impressão de que, ao final do expediente, ao ser lida a ordem do dia, o sargenteante dissesse: “Quarta parte, justiça e disciplina: fica detido no quartel, por trinta dias, o sargento Oliveira por desacato ao comandante da companhia X”. Tal, porém, não ocorreu... Por que será?
– Oliveira, sentido! Como você se atreve a tanto?
– Agora, quem entra na conversa sou eu, Joteli. Por que você fica remoendo essas remotas histórias do Oliveira?
– Então você não sabe que “água parada não move moinho”, Machado?
Vamos em frente, Oliveira, faça de conta que sou seu analista do Rio, assim como houve um “analista de Bagé”. Põe tudo para fora.
– Sim, meu camarada! Da capital, fui transferido para o interior da Bahia, sem que meu problema crônico de otite bilateral fosse descoberto. Até o dia em que, recém-casado, fui encaminhado ao Hospital Geral do Exército em São Paulo, com indicação cirúrgica, após ter sido descoberto, no Hospital das Forças Armadas, em Brasília, que minha otite era proveniente de colesteatomas bilaterais gigantes (sic).
– Sei... lá em São Paulo você foi internado e, dias depois, operado de ambos os ouvidos, já estava em casa, recuperado e nos braços da amada recém-casada...
– Quisera, Joteli, quisera. Deixei minha mulher na casa de minha mãe, no Rio, e fiquei aguardando atendimento médico, pacientemente, em enfermaria do hospital, na companhia de outros colegas de farda. Após cerca de quinze dias, no último final de semana em que, às sextas-feiras, ao término do expediente, todos recebíamos uma dispensa para ficar com a família, vi que a enfermeira entregou a autorização para saída a todos, menos a mim. Questionada, ela respondeu-me, agressivamente, que eu não precisava de dispensa, pois passava o dia todo na boa vida, só comendo, dormindo e lendo.
Revoltado, disse-lhe poucas e boas, mas, hora depois, recebi a dispensa de uma raivosa enfermeira. Meu pecado era simplesmente ser paciente por fora e doente por dentro...
A briga fora promissora. Na semana seguinte, fui levado ao centro cirúrgico para o primeiro procedimento operatório.
Antes de ser operado, seu namorado (sic), que era o coronel anestesista, indagou-me sobre os motivos da briga com a enfermeira. Após minha breve explicação, sem eu saber, até então, do seu relacionamento com a profissional da enfermagem, contei-lhe minha versão rapidamente e chorei como criança, imaginando-me em muito boas mãos, como de fato estava. Nada senti, nem antes, nem após o ato cirúrgico.
É bem verdade que a cirurgia não resolveu meu problema, mas que fui muito bem tratado ali, lá isso é certo. Tão certo que, após a operação, ao se saber que eu não possuía recursos para levar minha esposa do Rio de Janeiro para o hospital onde me encontrava internado, reservaram-nos um quarto particular e pude ficar em sua companhia até o dia de minha alta hospitalar.
– Mas como você conseguiu sobreviver no estado em que estava?
– Mistérios de Deus, Joteli, mistérios divinos... Transferido para Brasília, a meu pedido, um ano depois, ali descobriram os tumores que me levaram a tanta guerra, ainda que em tempo de paz. Meses após, fui internado mais duas vezes para cirurgia nos ouvidos. Na primeira, operado por uma cirurgiã famosa, no Hospital das Forças Armadas, despertei da anestesia geral em pleno procedimento cirúrgico e, enquanto sentia uma serra cortar o colesteatoma, ouvia a conversa da cirurgiã com o oficial anestesista. Em dado momento, a médica lhe disse:
– Ele está acordado, pois está se mexendo muito...
Nada mais ouvi. Quando despertei, antes que me fosse perguntado algo, relatei, chorando, que havia sentido tudo o que ocorrera no ato cirúrgico. Então, tornei a “dormir”. Até hoje, lembro-me, emocionado, do carinho recebido dos militares responsáveis por minha cirurgia naquele dia inesquecível. Nem uma palavra de justificativa ou pedido de desculpa!
– Sei... mas o importante é que você ficou curado.
– Com certeza. Nunca mais tive nada no ouvido esquerdo, nem mesmo a audição.
– E o outro ouvido?
– O ouvido direito foi operado, cerca de três anos depois, por um famoso cirurgião, no mesmo hospital.
– E correu tudo bem com a anestesia e cirurgia?
– Sim, pois antes de ser operado, o novo anestesista conversou comigo e eu lhe pedi que tivesse um pouco mais de cuidado com o procedimento anestésico, após lhe contar, rapidamente, o que ocorrera na cirurgia anterior.
– E a audição?
– Nem o cirurgião entende o que aconteceu, pois, embora minha “oficina auditiva” tenha sido removida, preservei cerca de 70% da audição desse ouvido, se é que pode dizer isso quem usa aparelho auditivo há muito tempo na orelha direita.
É por isso que detesto a esquerda!
Nada mais disse Oliveira e nada mais lhe perguntei, ó Machado.
– É o que eu sempre digo, Joteli, enquanto elementos estúpidos como você e esse seu colega não se calarem, a democracia estará salva.
– Mas ainda acho, Bruxo, que uma intervenção militar como a ocorrida em sua época e narrada em sua crônica, na Argentina, quando os militares afastaram os governantes corruptos e entregaram o governo aos civis, é o ideal para o Brasil. O que você fala agora sobre isso?
– Os mortos não falam, meu caro Joteli...





sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

No Invisível (22)



Estudamos semanalmente no Centro Espírita Nosso Lar, de Londrina (PR), o livro “No Invisível”, um dos clássicos do Espiritismo, de autoria de Léon Denis. São duas as turmas de estudo, uma na terça à noite, a outra na quinta-feira à tarde.
Reproduzimos, em seguida, o texto de mais um módulo concluído, cuja publicação tem por finalidade proporcionar, a quem se interessar, a oportunidade de acompanhar o mencionado estudo.

Questões para debate

A. A fé e a vontade são fatores importantes na terapia por meio da imposição das mãos?  
Sim. A fé vivaz, a vontade, a prece e a evocação dos poderes superiores amparam o operador e o sensitivo. Quando ambos se acham unidos pelo pensamento e pelo coração, a ação curativa é mais intensa. A vontade de aliviar ou de curar comunica ao fluido magnético propriedades curativas. Um homem bom e sadio pode atuar sobre os seres débeis e enfermiços, regenerá-los por meio de sopro, pela imposição das mãos e mesmo por meio de objetos impregnados da sua energia. (No Invisível - O Espiritismo experimental: Os fatos - XV - A força psíquica - Os fluidos - O magnetismo.)

B. É verdade que o magnetismo não se limita à ação terapêutica?
Sim, é verdade. O magnetismo tem um alcance muito maior. É um poder que desata os laços constritores da alma e descerra as portas do mundo invisível; é uma força que em nós dormita e que, utilizada, valorizada por uma preparação gradual, por uma vontade enérgica e persistente, nos desprende do pesadume(1) carnal, nos emancipa das leis do tempo e do espaço, nos dá poder sobre a Natureza e sobre as criaturas. O sono magnético tem diversas graduações, que se desdobram e vão do sono ligeiro até ao êxtase e ao transe. (Obra citada - O Espiritismo experimental: Os fatos - XV - A força psíquica - Os fluidos - O magnetismo.)

C. Como e onde se iniciou a história do moderno Espiritualismo?
Ela começou por um caso de natureza mal-assombrada: as manifestações na casa da família Fox, em Hydesville, Estados Unidos, no início do ano de 1848. Mediante pancadas nas paredes – sendo cada letra do alfabeto designada por um número correspondente de pancadas –, a Inteligência que assim se comunicava afirmou ter vivido na Terra. Soletrou seu nome, indicou sua profissão de mascate e entrou em muitas particularidades acerca do seu fim trágico, particularidades ignoradas de todos e cuja exatidão foi reconhecida mais tarde. (Obra citada - O Espiritismo experimental: Os fatos - XVI - Fenômenos espontâneos - Casas mal-assombradas – Tiptologia.)

Texto para leitura

608. A vontade de aliviar ou de curar comunica ao fluido magnético propriedades curativas. O remédio para os nossos males está em nós. Um homem bom e sadio pode atuar sobre os seres débeis e enfermiços, regenerá-los por meio de sopro, pela imposição das mãos e mesmo mediante objetos impregnados da sua energia. Opera-se mais frequentemente por meio de gestos, denominados passes, rápidos ou lentos, longitudinais ou transversais, conforme o efeito, calmante ou excitante, que se quer produzir nos doentes. Esse tratamento deve ser seguido com regularidade e as sessões renovadas todos os dias até a cura completa.
609. Pode assim a pessoa, pela automagnetização, tratar-se a si mesma, descarregando com o auxílio de passes ou de fricções os órgãos enfraquecidos e impregnando-os das correntes de força desprendidas das mãos.
610. A fé vivaz, a vontade, a prece e a evocação dos poderes superiores amparam o operador e o sensitivo. Quando ambos se acham unidos pelo pensamento e pelo coração, a ação curativa é mais intensa.
611. A exaltação da fé, que provoca uma espécie de dilatação do ser psíquico e o torna mais acessível aos influxos do Alto, permite admitir e explicar certas curas extraordinárias operadas nos lugares de peregrinação e nos santuários religiosos. Esses casos de curas são numerosos e baseados em testemunhos muito importantes para que se possa a todos pôr em dúvida. Não são peculiares a tal ou tal religião: encontram-se indistintamente nos mais diversos meios: católicos, muçulmanos, hindus etc.
612. Livre de todo acessório teatral, de todo móvel interesseiro, praticado com o fim de caridade, o magnetismo vem a ser a medicina dos humildes e dos crentes, do pai de família, da mãe para seus filhos, de quantos sabem verdadeiramente amar. Sua aplicação está ao alcance dos mais simples. Não exige senão a confiança em si, a fé no Poder Infinito que por toda parte faz irradiar a vida e a força. Como o Cristo e os apóstolos, como os santos, os profetas e os magos, todos nós podemos impor as mãos e curar, se temos amor aos nossos semelhantes e o desejo ardente de os aliviar.
613. Quando o paciente se acha adormecido sob a influência magnética e parece oferecer-se à sugestão, não a empregueis senão com palavras de doçura e de bondade. Persuadi, em lugar de intimar. Em todos os casos, recolhei-vos em silêncio, sozinho com o paciente, e apelai para os Espíritos benfazejos que pairam sobre as dores humanas. Então sentireis descer do Alto sobre vós e propagar-se ao sensitivo o poderoso influxo. Uma onda regeneradora penetrará por si mesma até à causa do mal; e demorando, renovando semelhante ação, tereis contribuído para aligeirar o fardo das misérias terrestres.
614. Quando se observa o grande poder do magnetismo curativo e os serviços que já tem prestado à Humanidade, sente-se que nunca seria demasiado protestar contra as tendências dos poderes públicos, em certos países, no sentido de lhe embaraçar o livre exercício. Assim procedendo, eles violam os mais respeitáveis princípios, calcam aos pés os sagrados direitos do sofrimento. O magnetismo é um dom da Natureza e de Deus. Regular-lhe o uso, coibir os abusos, é justo. Impedir, porém, a sua aplicação seria usurpar a ação divina, atentar contra a liberdade e o progresso da Ciência e fazer obra de obscurantismo.
615. O magnetismo não se limita, unicamente à ação terapêutica; tem um alcance muito maior. É um poder que desata os laços constritores da alma e descerra as portas do mundo invisível; é uma força que em nós dormita e que, utilizada, valorizada por uma preparação gradual, por uma vontade enérgica e persistente, nos desprende do pesadume(1) carnal, nos emancipa das leis do tempo e do espaço, nos dá poder sobre a Natureza e sobre as criaturas.
616. O sono magnético tem diversas graduações, que se desdobram e vão do sono ligeiro até ao êxtase e ao transe. O coronel De Rochas considera os três primeiros graus como superficiais e constitutivos da hipnose. A sugestão é aplicável a esses estados; desde que, porém, aos processos hipnóticos se acrescentam os dos magnetizadores, fenômenos superiores se apresentam: catalepsia, sonambulismo, transe. No primeiro caso, verifica-se o estado favorável às manifestações espíritas: materializações de Espíritos, aparições de clarões, mãos, fantasmas etc.; no segundo, apresenta-se a lucidez, o estado de clarividência, que permite ao médium guiar o magnetizador em sua ação curativa, descrevendo a natureza das enfermidades, indicando remédios etc.
617. Nos estados superiores do sonambulismo, o sensitivo escapa à ação do magnetizador e readquire sua liberdade própria, sua vida espiritual. Quanto mais se acentua o desprendimento do corpo fluídico, mais inerte se torna o corpo físico, em um estado semelhante ao da morte. Ao mesmo tempo, os pensamentos, as sensações se apuram, a repulsa à vida terrestre se manifesta. A volta ao organismo provoca cenas pungitivas, acessos de lágrimas, amargos queixumes.
618. O mundo dos fluidos, mais que qualquer outro, está submetido às leis da atração. Pela vontade, atraímos forças boas ou más, em harmonia com os nossos pensamentos e sentimentos. Delas se pode fazer uso formidável; mas aquele que se serve do poder magnético para o mal, cedo ou tarde o vê contra si próprio voltar-se. A influência perniciosa exercida sobre os outros, em forma de sortilégios, de feitiçaria, de enguiço, recai fatalmente sobre aquele que a engendrou.
619. Em hipnotismo, como em magnetismo, se o operador não tem intenções puras, caráter reto, a experimentação será arriscada tanto para ele quanto para o sensitivo. Não penetreis, pois, nesse domínio sem a pureza de coração e a caridade. Nunca ponhais em ação as forças magnéticas, sem lhes acrescentar o impulso da prece e um pensamento de amor sincero por vossos semelhantes. Assim procedendo, estabelecereis a harmonia de vossos fluidos com o dinamismo divino e tornareis sua ação mais profunda e eficaz.
620. Pelo magnetismo transcendente – o dos grandes terapeutas e dos iniciados – o pensamento se ilumina; sob o influxo do Alto os nossos sentimentos se exaltam; uma sensação de calma, de vigor, de serenidade nos penetra; a alma sente, pouco a pouco, dissiparem-se todas as mesquinhas subalternidades do “eu” humano e surgirem os aspectos superiores de sua natureza. Ao mesmo tempo em que aprende a esquecer-se de si, em benefício e para salvação dos outros, sente despertarem-se-lhe novas e desconhecidas energias.
621. Possa o magnetismo benfazejo desenvolver-se na Terra, pelas aspirações generosas e pela elevação das almas! Tenhamos bem presente que toda ideia contém no estado potencial sua realização, e saibamos comunicar a nossas vibrações fluídicas a irradiação de nobres e elevados pensamentos. Que uma vigorosa corrente ligue entre si as almas terrestres e as vincule a suas irmãs mais velhas do Espaço! Então as maléficas influências, que retardam a marcha e o progresso da Humanidade, se dispersarão sob os influxos do espírito de amor e sacrifício.
622. XVI - Fenômenos espontâneos - Casas mal-assombradas – Tiptologia – Logo que se esflora o estudo das manifestações espíritas, uma primeira necessidade se impõe: a de uma classificação metódica e rigorosa. Ao primeiro aspecto, a massa dos fatos é considerável e apresenta uma certa confusão. Acompanhando o desenvolvimento do moderno Espiritualismo, há meio século, reconhecemos que esses fatos se têm graduado, desdobrado em série, obedecendo a um programa traçado, a um método preciso, de modo a pôr cada vez mais em evidência a causa que os produzia.
623. Vaga e confusa a princípio, nos fenômenos das casas mal-assombradas, a personalidade oculta começa a afirmar-se na tiptologia e depois na escrita; adquire caracteres determinados na incorporação mediúnica e torna-se visível e tangível nas materializações. Nessa ordem é que se têm desenvolvido os fatos, multiplicando-se progressivamente, de modo a atrair a atenção dos indiferentes, a forçar a opinião dos cépticos e a demonstrar a todos a sobrevivência da alma humana.
624. Essa ordem, a que se poderia chamar histórica, é a que por nossa parte adotaremos em nosso estudo dos fenômenos espíritas. Poder-se-ia igualmente dividir este em duas categorias: os fatos de natureza física e os fatos intelectuais. Nos primeiros, o médium desempenha papel passivo; é o foco de emissão, de que emanam os fluidos e as energias com cujo concurso os invisíveis atuarão sobre a matéria e manifestarão sua presença. Nos outros fenômenos o médium exerce função mais importante. É ele o agente transmissor dos pensamentos do Espírito; e, como vimos precedentemente, seu estado psíquico, suas aptidões, seus conhecimentos, influem, às vezes, de modo sensível nas comunicações obtidas.
625. A história do moderno Espiritualismo começou por um caso de natureza mal-assombrada. As manifestações na casa de Hydesville, assim visitada, em 1848, e as tribulações da família Fox, que nela residia, são bem conhecidas. Recordá-las-emos apenas em um breve resumo.
626. Todas as noites, uma Inteligência invisível acusava estar presente por meio de ruídos violentos e contínuos, abrindo e fechando as portas, arrastando os móveis, arrebatando as roupas das camas. Mãos frias e rudes agarravam as Srtas. Fox e o soalho oscilava sob uma ação desconhecida.
627. Mediante pancadas nas paredes – sendo cada letra do alfabeto designada por um número correspondente de pancadas –, essa Inteligência afirmou ter vivido na Terra. Soletrou seu nome, Carlos Rosma, indicou sua profissão de mascate e entrou em muitas particularidades acerca do seu fim trágico, particularidades ignoradas de todos e cuja exatidão foi reconhecida pela descoberta de ossadas humanas na adega, precisamente no lugar indicado pelo Espírito como o do enterramento do seu cadáver, após o assassínio.  Essas ossadas achavam-se misturadas com resíduos de carvão e cal, que demonstravam a evidente intenção de fazer desaparecer todo vestígio desse misterioso acontecimento.
628. Afluíram os curiosos; a casa tornou-se insuficiente para conter a multidão, vinda de todas as partes. Ocasião houve em que se reuniram quinhentas pessoas para ouvirem os ruídos. Foi por essa manifestação, tão nova e tão estranha para aqueles que a testemunharam, numa humilde casa de uma pobre vila do Estado de Nova Iorque, em presença de pessoas da mais modesta condição, que o segredo da morte foi divulgado por um ser invisível, no silêncio da noite. Pela primeira vez, nos tempos modernos, um pouco de claridade penetrou por sob a porta que separa o mundo dos vivos do mundo dos desencarnados.
629. Por sua natureza espontânea, inesperada, pelas comovedoras circunstâncias que a rodeiam, essa manifestação escapa a todas as explicações e teorias que se têm procurado opor ao Espiritismo. A sugestão, do mesmo modo que a alucinação e o inconsciente, é impotente para explicá-la. A família Fox era de uma honorabilidade a toda prova, ligada à Igreja Episcopal Metodista, cujos ofícios frequentava com regularidade. Educados na mais estrita rotina religiosa, todos os seus membros ignoravam a possibilidade de tais fatos, a cujo respeito se achavam absolutamente desprevenidos.
630. Longe de obterem de tais manifestações a mínima vantagem, estas foram para eles a causa de desgostos e de perseguições sem conta. Com elas perderam a saúde e o sossego. Sua reputação e seus recursos ficaram destruídos. Apesar de todos os esforços que empregaram para os evitar, e de uma partida precipitada e mudança de residência, os fenômenos os perseguiram sem tréguas, sendo tudo inútil para escaparem à ação dos Espíritos.
631. Às reiteradas injunções dos invisíveis, não houve remédio senão tornar públicas as manifestações, afrontar o palco do Corinthian-Hall, em Rochester, suportar os humilhantes rigores de muitas comissões de exame e os insultos de um público hostil, para provar a possibilidade das relações entre os dois mundos, visível e invisível.
632. Voltemos à casa mal-assombrada de Hydesville. Carlos Rosma (ou Rosna) não era o único a aí se manifestar. Um grande número de Espíritos de todas as condições, parentes ou amigos das pessoas presentes, intervinham, respondendo por pancadas às perguntas feitas, soletrando seus nomes próprios, fornecendo indicações exatas e inesperadas de sua identidade, dando explicações sobre os fenômenos produzidos e o modo de os obter, explicações que tiveram como resultado a formação dos primeiros círculos ou grupos, nos quais os fatos foram estudados e provocados com o auxílio de mesinhas, pranchetas e outros objetos materiais.
633. Os Espíritos precursores declaravam não agir por sua iniciativa. Essas manifestações, diziam eles, eram o resultado da vontade e da direção dos Espíritos mais elevados, filósofos e sábios, executores, por sua vez, de ordens vindas de mais alto e tendo por objetivo uma vasta e importante revelação que se devia estender ao mundo inteiro.
634. Com efeito, a intervenção desses Espíritos e, entre outros, do Dr. Benjamin Franklin, foi repetidas vezes comprovada. Mais tarde, nas sessões de aparição de Estela Livermore, em Nova Iorque, esse mesmo Benjamin Franklin se tornou visível e foi reconhecido por várias pessoas.
635. Dentro em pouco as manifestações se multiplicaram e propagaram. De cidade em cidade, de Estado em Estado, invadiram todo o norte da América. O poder mediúnico se revelou num grande número de pessoas e até no seio de famílias ricas, influentes, ao abrigo de toda suspeita de fraude.
636. Houve, sem dúvida, no começo muita incerteza e confusão. Nem sempre os atores invisíveis eram sérios: Espíritos levianos e atrasados se imiscuíam nas sessões, ditando comunicações pueris, absurdas, e permitindo-se toda sorte de divagações e excentricidades; mas também se obtinham fatos importantes, ditados de real merecimento, como o atestam o reverendo Jervis, ministro metodista de Rochester, o Dr. Langworth, o reverendo Ch. Hannon  etc.
637. Todos esses fatos tiveram sua utilidade, no sentido de ensinarem a conhecer os diferentes aspectos do mundo invisível. Graças aos erros e decepções, pôde ser adquirida a experiência das coisas ocultas e pouco a pouco se fez luz sobre as condições da vida no além-túmulo. O movimento se tornou permanente e simultâneo. Pode-se dizer que o Espiritismo não partiu de um ponto fixo; brotou espontaneamente de todos os Estados da União, independente da iniciativa humana, e prosseguiu sua rota, apesar dos obstáculos de toda ordem acumulados pela ignorância e pelos malévolos preconceitos.
638. Desde seu aparecimento, porém, sublevou contra si todos os poderes constituídos, todas as influências, todas as autoridades deste mundo, e por único sustentáculo teve alguns humildes servidores da Verdade, pessoas na maior parte obscuras, mas que uma legião invisível fortalecia e amparava.
639. Nada mais tocante que as exortações e conselhos prodigalizados às irmãs Fox por seus Espíritos protetores, conselhos sem os quais, mocinhas tímidas e assustadiças, jamais teriam ousado arrostar, com risco da própria vida, um público ameaçador, nem suportar as cenas tumultuosas do Corinthian-Hall.
640. As injúrias, as calúnias, todos os excessos de uma imprensa em delírio tiveram sobretudo como resultado atrair a atenção pública para esses fenômenos estranhos e demonstrar aos observadores sérios que aí intervinham causas independentes da vontade do homem. Delineado por mãos poderosas e impalpáveis, desdobrava-se um plano, cuja realização nada poderia embaraçar.

 (1) Pesadume: peso, carga, carregamento; azedume, acrimônia, aspereza.


Nota:

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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Pérolas literárias (138)


Dilema

Basílio Seixas



Alguém partiu... E ao longe a estranha e muda escolta

Segue um casulo inerme à estreita cova escura...

Se a trilha humana foi a vasta semeadura,

O caminho do Além traz a justa recolta(1).



O corpo cai, a terra o esconde e a turba volta...

Morrem na alcova fria e ultriz(2) da sepultura

Os derradeiros ais da escala da amargura

Em que o triste marcava o suplício e a revolta...



Mas dilema cruel de ansiedade me inunda,

Ao fitar a alma livre até que se reintegre

Na extrema exaltação da vida que persiste...



Não sei dizer quem sente a emoção mais profunda:

Se quem ficou na sombra arrasado e alegre;

Se quem subiu à Luz ditoso e triste!...




(1) Recolta - s.f. Ato ou efeito de colher, recolher. Colheita dos produtos da terra. Fig. O que se recolhe.
(2) Ultriz - adj. Que vinga; que exerce vingança.

Poeta de origem humilde, Basílio Seixas nasceu em 1884 e faleceu com apenas 19 anos de idade, em 23 de março de 1903, vítima de tuberculose, quando ainda cursava o 2º ano do curso jurídico no Rio de Janeiro. O soneto acima integra o livro Antologia dos Imortais, obra psicografada pelos médiuns Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira.



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