Riqueza e pobreza são provas e a perfeição é o objetivo
ASTOLFO
O. DE OLIVEIRA FILHO
Uma leitora de São Paulo (SP) pergunta:
“Em que sentido a
riqueza pode ser uma prova? Qual é a finalidade de uma prova que tantas pessoas
na Terra almejam? Basta ver uma casa lotérica nos fins de semana, apinhada de
pessoas que sonham com um dos prêmios sorteados pela Caixa Econômica Federal.”
À primeira vista,
é realmente difícil acreditar que a riqueza, assim como a beleza estonteante,
possa constituir uma das provas que enfrentamos durante a experiência
reencarnatória.
Esse é, contudo, o
ensinamento espírita.
Com esse
propósito, Deus concede a uns a prova da riqueza e a outros a da pobreza,
experimentando-os de maneiras diferentes. Segundo numerosos relatos de autores
respeitáveis, essas provas são, muitas vezes, escolhidas pelos próprios
Espíritos antes da reencarnação.
Ambas são
difíceis. Na pobreza, o Espírito pode ceder à revolta e à blasfêmia contra o
Criador; na riqueza, expõe-se ao abuso dos bens que Deus lhe confia,
desviando-os, não raro, de sua finalidade.
A pobreza é a
prova da paciência e da resignação.
A riqueza é a
prova da caridade e da abnegação.
Não esqueçamos que
a existência corpórea, por mais longa que seja, é transitória. Com a morte,
desaparecem todos os bens materiais de que o homem dispunha na Terra.
Pobres e ricos
retornam à vida espiritual em idênticas condições, o que demonstra que tanto a
riqueza quanto a pobreza são situações passageiras.
Nenhuma dessas
provas, porém, constitui obstáculo à salvação. Se assim fosse, Deus estaria
oferecendo a seus filhos um instrumento de perdição, ideia incompatível com a
justiça e a sabedoria divinas.
No caso da
riqueza, é fácil compreender que, pelas tentações que desperta e pela
fascinação que exerce, ela figura entre as provas mais perigosas da existência.
Foi isso que Jesus procurou enfatizar ao afirmar ser mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus.
Referia-se aos perigos e às
ilusões que a riqueza pode provocar no homem desprevenido, mas seria equivocado
concluir de suas palavras que ao rico esteja vedado o acesso à salvação, isto
é, à ascensão espiritual.
Se a riqueza
produzisse apenas males, Deus jamais a concederia aos homens. De fato, embora
não seja, por si só, instrumento de progresso moral, ela constitui poderoso
fator de progresso intelectual e social.
Graças a ela, o
homem pode melhorar as condições materiais da sociedade, ampliar a produção de
bens e promover o desenvolvimento por meio do estudo, da pesquisa e do
trabalho. Eis por que a riqueza é considerada elemento de progresso.
Todavia, se aquele
que a possui se torna egoísta, orgulhoso e insaciável, desviando-a de sua
finalidade providencial, responderá por seus atos perante a Justiça Divina, enquanto
outros terão oportunidade de demonstrar que é possível vencer essa difícil
prova.
No capítulo II da
Segunda Parte de O Céu e o Inferno, Allan Kardec registra uma expressiva
mensagem da condessa Paula, desencarnada aos 36 anos, em 1851:
“Em várias existências
passei por provas de trabalho e miséria que voluntariamente havia escolhido
para fortalecer e depurar o meu Espírito; dessas provas tive a dita de
triunfar, vindo a faltar, no entanto, uma, porventura de todas a mais perigosa:
a da fortuna e bem-estar materiais, um bem-estar sem sombras de desgosto. Nessa
consistia o perigo. E antes de o tentar, eu quis sentir-me assaz forte para não
sucumbir. Deus, tendo em vista as minhas boas intenções, concedeu-me a graça do
seu auxílio. Muitos Espíritos há que, seduzidos por aparências, pressurosos
escolhem essa prova, mas, fracos para afrontar-lhes os perigos, deixam que as
seduções do mundo triunfem da sua inexperiência.”
Em seguida, ela
acrescenta:
“Trabalhadores!
estou nas vossas fileiras: eu, a dama nobre, ganhei como vós o pão com o suor
do meu rosto; saturei-me de privações, sofri reveses e foi isso que me
retemperou as forças da alma; do contrário eu teria falido na última prova, o
que me teria deixado para trás, na minha carreira. Como eu, também vós tereis a
vossa prova da riqueza, mas não vos apresseis em pedi-la muito cedo. E vós
outros, ricos, tende sempre em mente que a verdadeira fortuna, a fortuna
imorredoura, não existe na Terra; procurai antes saber o preço pelo qual podeis
alcançar os benefícios do Todo-Poderoso.” (O Céu e o Inferno, Segunda
Parte, cap. II, "A condessa Paula".)
Nota
do Autor:
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