sexta-feira, 6 de novembro de 2026

 



Vez por outra volta à discussão o emprego da locução em que pese, especialmente no que diz respeito à sua concordância e à presença ou não da preposição a.

As duas construções pertinentes à locução são corretas, mas apresentam diferenças sintáticas e de sentido que precisam ser observadas.

1. Quando a locução é invariável

Na construção em que pese a, o verbo permanece na terceira pessoa do singular e é seguido da preposição a. Nesse caso, a expressão tem o sentido de «ainda que desagrade a alguém», «ainda que cause incômodo» ou «ainda que pese a alguém».

Exemplos:

·       Em que pese aos funcionários, a empresa manterá sua decisão.

·       Em que pese à minha família, não mudarei de opinião.

·       Em que pese aos adversários, o projeto será aprovado.

·       Em que pese à opinião dos especialistas, a decisão já foi tomada.

A invariabilidade do verbo se explica porque o sujeito da oração é uma ideia subentendida, que pode ser representada pelo pronome isto. Assim, a primeira frase equivale a: «Em que isto pese aos funcionários, a empresa manterá sua decisão».

A preposição a pode aparecer sozinha ou combinar-se com os artigos definidos, formando ao, à, aos e às.

2. Quando o verbo concorda com o sujeito

Há outra construção, também correta, em que o verbo pesar concorda com o sujeito, que normalmente aparece depois dele. Nesse caso, a locução tem o sentido de «apesar de», «não obstante» ou «malgrado», e não se emprega a preposição a.

Exemplos:

·       Em que pesem os argumentos apresentados, a decisão foi mantida.

·       Em que pese a gravidade da situação, ainda há motivos para otimismo.

·       Em que pesem as dificuldades financeiras, a instituição continuará suas atividades.

·       Em que pese a oposição de alguns setores, a proposta foi aprovada.

Observe que, no primeiro exemplo, o sujeito é «os argumentos apresentados». Por isso, o verbo vai para o plural: pesem. No segundo, o sujeito é «a gravidade da situação», razão pela qual o verbo permanece no singular: pese.

Em outras palavras, o verbo concorda com o substantivo que funciona como sujeito da oração.

É importante, portanto, não confundir as duas construções. Na primeira, o verbo é invariável e a preposição a introduz um complemento; na segunda, o verbo concorda com o sujeito, sem a presença dessa preposição.

A diferença pode ser resumida assim:

·       Em que pese aos funcionários, a empresa manterá sua decisão.

·       Em que pesem os argumentos, a empresa manterá sua decisão.

No primeiro caso, aos funcionários é complemento introduzido pela preposição a. No segundo, os argumentos é o sujeito do verbo pesar.

Essa distinção é reconhecida, entre outros, pelo Manual de Padronização de Textos do Superior Tribunal de Justiça, em sua terceira edição, publicada em 2024.

3. E quanto à pronúncia?

Outro aspecto que costuma suscitar dúvidas é a pronúncia da palavra pese.

Tradicionalmente, recomenda-se o som fechado da vogal e, como ocorre em pêsames e no substantivo pesar. Entretanto, o som aberto também se difundiu no português brasileiro e é hoje bastante frequente.

Assim, convém evitar afirmações categóricas sobre a pronúncia, sobretudo quando se pretende desqualificar uma variante regional. O mais importante, neste caso, é conhecer a construção gramatical e empregá-la corretamente.

 

Observação:

Para acessar o estudo publicado na semana passada, clique aqui: https://espiritismo-seculoxxi.blogspot.com/2026/10/tres-observacoes-que-podem-interessar.html

 





  

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