Vez por outra volta à discussão o emprego da locução em que pese,
especialmente no que diz respeito à sua concordância e à presença ou não da
preposição a.
As duas construções pertinentes à locução são corretas,
mas apresentam diferenças sintáticas e de sentido que precisam ser observadas.
1. Quando a locução é invariável
Na construção em
que pese a, o verbo permanece na terceira pessoa do singular e é
seguido da preposição a.
Nesse caso, a expressão tem o sentido de «ainda que desagrade a alguém», «ainda
que cause incômodo» ou «ainda que pese a alguém».
Exemplos:
·
Em que pese aos funcionários, a empresa
manterá sua decisão.
·
Em que pese à minha família, não mudarei de
opinião.
·
Em que pese aos adversários, o projeto será
aprovado.
·
Em que pese à opinião dos especialistas, a
decisão já foi tomada.
A invariabilidade do verbo se explica porque o sujeito da
oração é uma ideia subentendida, que pode ser representada pelo pronome isto. Assim, a
primeira frase equivale a: «Em que isto pese aos funcionários, a empresa
manterá sua decisão».
A preposição a
pode aparecer sozinha ou combinar-se com os artigos definidos, formando ao, à, aos e às.
2. Quando o verbo concorda com o sujeito
Há outra construção, também correta, em que o verbo pesar concorda com o
sujeito, que normalmente aparece depois dele. Nesse caso, a locução tem o
sentido de «apesar de», «não obstante» ou «malgrado», e não se emprega a
preposição a.
Exemplos:
·
Em que pesem os argumentos apresentados, a
decisão foi mantida.
·
Em que pese a gravidade da situação, ainda há
motivos para otimismo.
·
Em que pesem as dificuldades financeiras, a
instituição continuará suas atividades.
·
Em que pese a oposição de alguns setores, a
proposta foi aprovada.
Observe que, no primeiro exemplo, o sujeito é «os
argumentos apresentados». Por isso, o verbo vai para o plural: pesem. No segundo, o
sujeito é «a gravidade da situação», razão pela qual o verbo permanece no
singular: pese.
Em outras palavras, o verbo concorda com o substantivo
que funciona como sujeito da oração.
É importante, portanto, não confundir as duas
construções. Na primeira, o verbo é invariável e a preposição a introduz um
complemento; na segunda, o verbo concorda com o sujeito, sem a presença dessa
preposição.
A diferença pode ser resumida assim:
·
Em que
pese aos funcionários, a empresa
manterá sua decisão.
·
Em que
pesem os argumentos, a empresa
manterá sua decisão.
No primeiro caso, aos
funcionários é complemento introduzido pela preposição a. No segundo, os argumentos é o
sujeito do verbo pesar.
Essa distinção é reconhecida, entre outros, pelo Manual
de Padronização de Textos do Superior Tribunal de Justiça, em sua terceira
edição, publicada em 2024.
3. E quanto à pronúncia?
Outro aspecto que costuma suscitar dúvidas é a pronúncia
da palavra pese.
Tradicionalmente, recomenda-se o som fechado da vogal e, como ocorre em pêsames e no
substantivo pesar.
Entretanto, o som aberto também se difundiu no português brasileiro e é hoje
bastante frequente.
Assim, convém evitar afirmações categóricas sobre a
pronúncia, sobretudo quando se pretende desqualificar uma variante regional. O
mais importante, neste caso, é conhecer a construção gramatical e empregá-la
corretamente.
Observação:
Para acessar o estudo publicado na semana
passada, clique aqui: https://espiritismo-seculoxxi.blogspot.com/2026/10/tres-observacoes-que-podem-interessar.html
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