sexta-feira, 3 de maio de 2013

Beija-flor


GEBALDO JOSÉ DE SOUSA
gebaldojose@uol.com.br
De Goiânia-GO

Aquele zumbido de asas, o fino trinado e a passagem rápida, de segundos, com leve parada no ar para lançar-lhe olhar curioso, às vezes assustava o menino, que se movia, afugentando o passarinho.
– Não espanta o beija-flor, menino. Beija-flor dentro de casa dá sorte! Traz boas notícias – recriminava-o de um canto a mãe.
A crendice popular transmite de pai a filho informações de lendas sobre coisas e fatos que dão sorte ou azar. A mesma situação, em circunstâncias diversas, pode ser benéfica ou malévola. Há que prestar atenção e aprender a distinguir.
É claro que um momento de beleza infinita como aquele só pode trazer bons augúrios, quando nada pelo instante em que, ébrios de deslumbramento, quedam-se o menino e o colibri, a se examinarem detalhadamente. Quem vai se lembrar de tristezas com a visita encantadora? Ainda mais que não dá tempo de pensar, tão fugaz é o momento.
Às vezes no mesmo dia aquele percurso entre os vãos da casa – da porta da frente à dos fundos, ou de uma janela a outra – era percorrido pela mesma avezita ou por várias delas, num desfile matinal simplesmente lindo. Demonstravam confiança espontânea. Estavam em seus domínios.
Aquele pedacinho de céu se deslocava agora veloz como o pensamento, agora a sobrepairar, quase imóvel, num átimo de tempo. Era de ver o olhar do menino a se encantar com a passagem diária da poesia por sua casa.
O bico longo e fino, as penas multicoloridas, o olho atento e grande, desproporcional ao corpo delicado, os tons e os matizes variados, o voejar – todo o conjunto, enfim – é obra de artista genial que adjetivos não descrevem. Inspiram amor a quem os vê.
No quintal, as bananeiras de cacho novo, soltando bagos adocicados, as árvores floridas, recebiam as visitas do delgado bico do pássaro que, enquanto isso, adejava e examinava em volta com vivacidade, cuidadosamente, o menor dos movimentos, em defesa de sua fragilidade.
Tudo é lindo nos guainumbis (ou guanumbis – também chamados cuitelinhos em MS e MT). Neles a natureza concentrou rara quantidade de beleza! Além das formas, da dimensão que inspira ternura e carinho, de se alimentarem poeticamente do néctar de flores, vivem como um deus minúsculo e belo. Seu ninho tem a forma de cacho a balouçar com o vento e é todo ele forrado de plumas.
Pedaços de arco-íris a povoar quintais na memória da infância, a voejarem nas lembranças do adulto. Naqueles seres minúsculos há encantos para todos os olhos sensíveis. Não há quem os veja sem se comover, sem deixar voar a mente para saudades antigas.
Quando se restabelecer o equilíbrio nas buscas dos homens, há de voltar o tempo dos pássaros nos quintais, das casas sem forros e frágeis janelas que, a par dos ninhos que abrigam na cumeeira, permitem ouvir a canção da chuva, do vento, bem de pertinho, ajudando a dormir e a sonhar sonhos tranquilos e bons.
Há de voltar a confiança: portas e janelas abertas a todos, ao sol, às pessoas, ao ar e aos pássaros. Há de voltar a liberdade e, com ela, a pureza.
E com os pássaros, as árvores, as águas cristalinas, há de voltar à Terra e aos corações o amor, a desambição e a ternura infinita de um voo, parado no ar, de um beija-flor – esse pingo de poesia a habitar um canto cheio de amor nas recordações do adulto e a preservar o menino no fundo de sua alma!
  

Um comentário:

  1. um beija flor encostou em mim proximo aos meus ouvidos e ficou ,eu meio assutada e atordoada fiquei espantada procurando onde era quilo depois vi que era o beija flor quando vou de mim..ou seja estava perto dos meus ouvidos ,,inédito não sei explicar mais vc me entendeu.

    ResponderExcluir