Abel Gomes, autor espiritual
Sempre acreditei na necessidade de
falarmos à mente do povo, acerca dos acontecimentos além do túmulo, com a
simplicidade possível, de modo a combatermos a ilusão que cobre os fenômenos da
morte, em todas as latitudes.
A cerimônia dos funerais e o convencionalismo
do velório dificultam, sobremaneira, a nossa cruzada de libertação mental. O
catafalco, o crepe escuro, as velas acesas e os cantos lúgubres, usados pela
Igreja que há séculos nos preside a cultura sentimental, imprimem tamanhas
características de terror na alma recém-desencarnada, que somente alguns poucos espíritos
treinados no conhecimento superior conseguem evitar as deprimentes crises de
medo que, em muitos casos, perduram por longo tempo.
Mentiríamos,
asseverando que a transição é serviço rotineiro para todos. Cada qual, como
acontece no nascimento, tem a sua porta adequada para ausentar-se do plano
físico. Na existência do corpo, começamos ou recomeçamos determinado serviço.
Além da sepultura, continuamos a boa obra encetada ou somos escravos do mal que
praticamos na Terra. Por isso, o estado mental é muito importante nas condições
da matéria rarefeita que a criatura passa a habitar, logo depois de abandonar o
carro fisiológico.
Incontáveis
pessoas, por deficiência de educação do “eu”, agarram-se aos remanescentes do
corpo, com a obstinação de estulto viajante que, pelo receio do desconhecido ou
pela incapacidade de usar as próprias pernas, pretendesse inutilmente reerguer
na estrada a cavalgadura morta.
Mas o número
de almas perturbadas de outro modo é infinitamente maior. Não se apegam ao
cadáver putrefato, mas demoram na paisagem doméstica, onde se desvencilharam
das células enfermas, conservando ilusões ou sofrimentos intraduzíveis.
Muitos que se
abandonaram à moléstia, fortalecendo-a e acariciando-a, mais por fugir aos
deveres que a vida lhes reserva do que por devoção e fidelidade aos Desígnios
Divinos, fixam longamente sintomas e defeitos, desequilíbrios ou chagas na
matéria sensível e plástica do organismo espiritual, experimentando sérias dificuldades
para extirpá-los.
Almas desse
naipe, desalentadas e oprimidas, podem ser enumeradas aos milhares, em qualquer
região dos círculos sutis que marginam a zona de trabalho, em que se delimita a
ação dos homens encarnados. Quando possível, são internados em grandes e
complexas organizações hospitalares, quase que justapostas ao plano terrestre
comum; entretanto, é preciso reconhecer que milhares delas se mantêm dentro de
linhas mentais infra-humanas, rebeldes a qualquer processo de renovação. Muitas
permanecem, em profundo desânimo, nos recintos domésticos em que transitaram
por alguns anos consecutivos, detendo-se nos hábitos arraigados da casa e
inalando substâncias vivas do ambiente que lhes é familiar, sem coragem de ir
adiante. Quando mostrem sinais de transformação benéfica, são, de imediato,
aceitas em instituições educativas nas adjacências da Terra, patenteando
melhoria nas manifestações exteriores, à medida que se renovam por dentro, no
que condiga com o sentimento, a atitude e a boa-vontade no aprender os ensinos
recebidos, nas tarefas de autoaperfeiçoamento. Custam a modificar conceitos e
opiniões, mantendo-se como que paralíticas do entendimento, de vez que,
estancando as energias da imaginação nos quadros terrenos, dos quais,
entretanto, já se desligaram, são verdadeiros dementes para a vida espiritual,
como seriam loucos para o mundo os homens que reencarnassem com a memória
integralmente presa aos acontecimentos, às pessoas e às coisas do pretérito.
Tais espíritos
perambulam entre as criaturas encarnadas quais se fossem sonâmbulos, vivendo
pesadelos e sonhos como sendo realidades absolutas, porquanto a onda mental que
lhes verte das preocupações se expressa em movimento de recuo, em busca do
passado a que se imantam e no qual focalizam a consciência.
Nessa
retrospecção, assemelha-se a alma a um proprietário de importante prédio de
muitos andares, que preferisse viver no subterrâneo, na intimidade de fósseis
estranhos e horripilantes do subsolo, repentina e temporariamente convertidos
em legião imensa de fantasmas que o poder da evocação traz novamente à vida.
Presa das próprias criações mentais monstruosas e perturbadoras, enreda-se, às
vezes por muito tempo, no cipoal dos seus pensamentos selvagens ou
indisciplinados, atravessando aflições indizíveis, qual homem que, em sono profundo,
suando e chorando sob padecimentos inomináveis da mente, crê estar num largo
círculo de tortura.
Os
orientadores dos princípios filosóficos ou religiosos afirmam que cada individualidade
vive no mundo que lhe é peculiar, isto é, cada mente vive o tipo de vida
patível com o seu estádio, avançado ou atrasado, na marcha evolutiva. As inteligências
aqui se agrupam segundo os impositivos da afinidade, vale dizer, consoante a
onda mental, ou frequência vibratória, em que se encontram.
Tenho visitado
vastas colônias representativas de civilizações há muito tempo extintas para a
observação terrestre. Costumes, artes e fenômenos linguísticos podem ser
estudados, com admiráveis minudências, nas raízes que os produziram no tempo. A
alma liberta adianta-se sem apego à retaguarda, esquecendo antigas fórmulas,
como o pinto que estraçalha e olvida o ovo em que nasceu, abandonando o
envoltório inútil e construtor em busca do oxigênio livre e do largo horizonte,
na consolidação das suas asas; em contraposição, existem milhões de Espíritos,
apaixonados pela forma, que se obstinam naquelas colônias, por muito tempo, até
que abalos afetivos ou consciências os constranjam à frente ou ao renascimento
no campo físico.
Cada tipo de
mente vive na dimensão com que se harmonize. Não há surpresa nisso para a
ciência comum, porquanto, mesmo na Terra, muitas vezes, numa só área reduzida
vivem o cristal e a árvore, a ameba e o pulgão, o peixe e o batráquio, o réptil
e a formiga, o cão e a ave, o homem rude e o homem civilizado, respirando o
mesmo oxigênio, alimentando-se de elementos químicos idênticos, e cada qual em
mundo à parte.
Além daqueles
que sofrem deformidades psíquicas deploráveis, manifestadas no tecido sutil do
corpo espiritual, não é difícil encontrarmos personalidades diversas, sem a
capa física, vivendo mentalmente em épocas distanciadas. Habitualmente se
reúnem àqueles que lhes comungam as ideias e as lembranças, formando com
recordações estagnadas a moldura nevoenta dos quadros íntimos em que vivem, a
plasmarem paisagem muito semelhantes às que o grande vidente florentino
descreveu na Divina Comédia.
Há infernos
purgatórios de muitas categorias. Correspondem à forma de pesadelo ou de
remorso que a alma criou para si mesma. Tais organizações, que obedecem à
densidade mental dos seres que as compõem, são compreensíveis e justas. Onde há
milhares de criaturas humanas, clamando contra si mesmas, chocadas pelas
imagens e gritos da consciência, criando quadros aflitivos e dolorosos, o pavor
e o sofrimento fazem domicílio.
Aqui, as leis
magnéticas se exprimem de maneira positiva e simples. Aí, no mundo, vemos
inúmeras pessoas com presença imaginária nos lugares a que comparecem. Na
verdade, apenas se encontram em determinada parte sob o ponto de vista físico;
a mente, com a quase totalidade de suas forças, vagueia longe. Depois da morte,
porém, livre de certos princípios de gravitação que atuam, na experiência
carnal, contra a fácil exteriorização do desejo, a criatura alia-se ao objeto
de suas paixões.
Assim é que
surpreendemos entidades fortemente ligadas umas às outras, através de fios
magnéticos, nos mais escuros vales de padecimento regenerativo, expiando o ódio
que as acumpliciaram no vício ou no crime. Outras, que perseveram no remorso
pelos delitos praticados, improvisam, elas mesmas, com as faculdades criadoras
da imaginação, os instrumentos de castigo dos quais se sentem merecedoras.
Antigo
sertanejo de minha zona, que impunha serviço sacrificial aos seus empregados de
campo, mais por ambição de lucro fácil na exploração intensiva da terra que por
amor no trabalho, deixou recheados cofres aos filhos e netos; mas, transportado
à esfera imediata e ouvindo grande número de vozes que o acusavam, tomou-se de
tão grande arrependimento e de tão viva compunção, que plasmou, ele mesmo, uma
enxada gigantesca, agrilhoando-a às próprias mãos, com a qual atravessou longos
anos de serviço, em comunhão com espíritos primitivos da Natureza, punindo-se e
aprendendo o preço do abuso na autoridade.
Orgulhosa
dama, que conheci pessoalmente e a quem humilde e honrada família deve a morte
de nobre mulher, vitimada pela calúnia, em desencarnando e conhecendo a
extensão do mal que causara, adquiriu para si o suplício da vítima, por
intermédio do remorso profundo em que se mergulhou, estacionando por mais de
dois lustros em sofrimento indescritível.
A matéria
mental, energia cuja existência mal começamos a perceber, obedece a impulsos da
consciência mais do que possamos calcular. A paz é realmente daqueles que a
possuem no recesso do ser.
O pecado é
filho do conhecimento e da responsabilidade perante a Lei. A culpa e o mérito crescem, quando o
discernimento se desenvolve. Os famosos padecimentos de Tântalo, o rei
lendário, esfomeado e sedento, além do túmulo, não constituem meros símbolos
mitológicos. Há poderes mentais, de que ainda não possuímos senão leve notícia,
que estabelecem certos estados d’alma e nos sustentam, muita vez, por decênios
ou séculos.
Criminosos,
detidos na visão de pavorosas imagens que pintaram na vida íntima; traidores,
de pensamento fixo na contemplação da paisagem onde lobrigaram as suas vítimas
pela última; caluniadores, estagnados no delito que cometeram; e toda uma
multidão de entidades, que conservam resíduos de lembranças deploráveis na
consciência, gastam anos e anos na operação a que poderíamos chamar decantação
interior das emoções escuras e violetas.
Grande parte
de semelhantes remanescentes da luta humana estacionam nos próprios lares em
que desencarnaram, presos às lágrimas, aos desvarios ou aos pensamentos de
amargura e revolta, de tristeza ou indisciplina daqueles que lhes partilharam
as experiências, e nutrem-se, como vampiros naturais, no organismo doméstico.
Ninguém está
no âmago do céu ou do inferno, mas na intimidade de si mesmo, com as figurações
que estabeleceu no mundo vivo da própria mente. O corpo espiritual é ainda tão
desconhecido à ciência comum, quanto a refinada cultura humana, levada ao
máximo nas grandes cerebrações da atualidade, é ignorada pelo homem primitivo,
ainda aglutinado ao espírito tribal.
A morte nos
situa à frente de complexidades imensas, nos domínios da mente, e, para
solucionar os problemas de ordem imediata, nesse campo de incógnitas vastíssimas,
somente encontraremos na prática dos ensinamentos de Jesus a sublimação
necessária ao equilíbrio íntimo de que carecemos para mais amplos voos no
conhecimento e na virtude, forças básicas para as realizações mais altas na
dinâmica do espírito.
Volumosa
percentagem dos milhares de pessoas que desencarnam, hora a hora, no Planeta,
permanece, por vezes, muitos anos consecutivos, ao lado de parentes na
consanguinidade, porque é na experiência do lar que deixamos maior número de
obrigações não cumpridas.
No microcosmo
da família, em muitas ocasiões, temos representantes significativos de nossos
adversários do pretérito. Almas vigorosas na incompreensão, na dureza, na
ingratidão e na hostilidade passiva, aí se encontram ombreando conosco, na lide
cotidiana, disfarçados nos apelidos mais doces, no que concerne ao carinho.
Incontáveis
individualidades discordes podem estar sob compromissos conjugais ou como os
títulos de pais e mães, filhos ou irmãos. Ah! se soubéssemos, enquanto na
existência precária da matéria densa, o valor da rendição generosa e edificante
com auxílio espontâneo de nossa parte aos inimigos do passado, certo
aproveitaríamos todas a oportunidades para exercer o entendimento fraterno que
o Mestre nos recomendou.
É no seio da
organização doméstica que somos tentados à disputa mais longa, ao ciúme mais
entranhado, à rebeldia mais impermeável e às aversões mais fundas. Fácil será
sempre desculpar as ofensas do mundo vasto, esquecer a maledicência dos que nos
não conhecem e perdoar as pedras do torvelinho social. Mas, em casa, na
comunhão com aqueles cuja vida partilhamos na sucessão dos dias numerosos, a
ciência do amor espiritual é muito difícil de aprender.
Em razão
disto, depois da morte, percebendo a importância de nossa harmonização em
pensamento com certas criaturas de nosso séquito familiar, voluntariamente nos
consagramos a retificar atitudes errôneas, adotadas o curso de nossas tarefas
interrompidas no túmulo, auxiliando aquelas por quem nutríamos animadversão
declarada, para que não arremessem sobre nós os raios da malquerença
destrutiva.
A sementeira
de simpatia é impositivo precípuo, a que nossa paz se condiciona. Todos os
deveres cumpridos no seio doméstico significam ingresso no apostolado pela
redenção humana.
Os raros
homens e mulheres que se ausentam do mundo, conservando uma consciência
tranquila para com os parentes e afeiçoados, penetram, de imediato, em missões
mais amplas no auxílio à Humanidade. Em se tratando, porém, de espíritos que,
além de não haverem cumprido os deveres que lhes competem, junto à família
consanguínea, se extraviaram, ainda, em delitos deploráveis, esses, quando
acordam para o arrependimento construtivo, são aproveitados na assistência
laboriosa a criminosos, junto aos quais encontram caminho aberto a valiosas
intercessões.
Deste modo,
vamos muitos malfeitores desencarnados em trabalho ingente, buscando amparar
delinquentes confessos, arrebatando-os da aventura maligna para o serviço
honesto; reparamos homicidas, tocados de remorso, procurando desviar o
pensamento negro de cérebros desvairados pela revolta ou pela insubmissão,
anulando crimes em tecedura, e observamos mulheres que a leviandade venceu, em
outro tempo, empenhadas em socorrer corações femininos, à beira de precipícios
imensos...
Esses
batalhadores improvisados não operam exclusivamente nos círculos da carne, mas
também nas zonas imediatas à vida terrestre, reconfortando mentes sofredoras ou
corrigindo-lhes as perturbações hauridas nas correntes tenebrosas do mal.
Entidades ainda não aperfeiçoadas, mas inclinadas ao bem, estendem braços
fortes aos filhos da ignorância e do sofrimento que tendem para a perversidades
manifesta, adestrando-se no manejo das armas luminosas do amor e da humildade,
que lhes eram desconhecidas.
Inúmeras
pessoas, interessadas na aquisição do progresso moral, compreendendo a
importância da elevação íntima, consagram-se, além do sepulcro, a enobrecedoras
tarefas de renunciação em favor das almas caídas em baixo padrão de sentimento,
conseguindo, assim, preciosas oportunidades de ação, em benefício do próprio
reajustamento.
Não há queda
absoluta para o espírito. Há descida no campo das emoções, com a consequente
perda de visão mais vasta e de felicidade mais segura, temporariamente. Há,
porém, reajuste para a subida necessária, e, desde que um raio de boa-vontade,
bruxuleante embora, surja no imo do espírito que se crê falido, aparecem, de
imediato, as possibilidades imprescindíveis à restauração.
Aquele que se
precipita no mal e não se levanta, erra duas vezes, porque a inércia na
retificação é, muita vez, um pecado maior que a ofensa.
Nosso problema
fundamental de consciência é de paz com todos, servindo a todos para crescermos
em nós, à frente da Vida Infinita; quando despertamos para semelhante
realidade, a experiência se modifica dentro de nós mesmos, nos mais recônditos
alicerces da vida. Quando, porém, recordamos que há uma justiça imanente
funcionando em nossa organização espiritual mais profunda, e, de acordo com os
seus princípios, retificamos nossas faltas, enquanto nos demoramos na
experiência terrestre, usando aguilhões da disciplina e recursos de corrigenda
contra os nossos próprios caprichos, os mínimos impulsos benéficos, a que nos
dedicamos, são por essa mesma justiça recompensados, e a Compaixão Divina,
através de mil modos diferentes, se mistura ao rigor das leis, em nosso benefício.
Chegados a essa condição, reconhecemos que ainda o mais leve, mas perseverante
pensamento de amor, produz alegrias e bênçãos em multiplicação imprevisível,
tal qual uma só semente de árvore protetora frutífera no bem por tempo
indeterminado.
Se, além da
morte do corpo, é nossa mente amadurecida e mais sutil, incorporados à
individualidade eterna todos os valores que a luta humana seja capaz de
fornecer-nos, então, somos naturalmente conduzidos por devotados orientadores
espirituais a centros de cultura avançada, aperfeiçoando-se-nos as qualidades
de inteligência e de coração em novos círculos de serviço mais nobre, nos quais
a matéria se expressa em tipos sublimados nas menores manifestações. Para isto,
no entanto, é necessário estejam nossas energias e tendências voltadas para a
vida superior, com esquecimento de tudo o que signifique exclusivismo no grande
caminho.
A alma, a essa
altura, viverá desligada dos interesses imediatos da existência carnal, ainda
mesmo em se tratando de preferências afetivas nas alianças pessoais; adejará na
luz do verdadeiro amor, agora, porém, no clima da grande compreensão, em
referência aos entes amados que se demoram na retaguarda. Suas paixões mais
ardentes estarão transformadas na própria sublimação, e seus caprichos
individuais substituídos por objetivos humanos, ligados ao progresso comum.
Por esta
razão, porque já se afeiçoa à alegria de todos, como sendo a sua própria, sem
artificialismo e sem sacrifício, habilita-se a viver em comunhão real com
extensos agrupamentos de criaturas que se afinam com as suas ideias, sentimentos
e manifestações. Vive dentro da comunidade e produz com ela, sem a preocupação
de vantagens isoladas, de modo algo semelhante à abelha que entrega o fruto do
seu esforço à colmeia, anexando-o automaticamente à obra geral, guardando
embora a individualidade e assinalando-se por valores intrínsecos, nos quadros
do trabalho e do merecimento.
Assim é que
vemos compactas assembleias de lidadores dos planos mais altos, em respeitáveis
associações para empreendimentos e serviços, mútuos, nos variados campos da
ciência e da arte; tal vida, com atividades coletivas, só se lhes tornou
possível por virtude da libertação mental.
Nesses
agrupamentos, imperam outros princípios para a vida em família, com excelências
de moral e beleza que os círculos estreitos do homem ainda estão longe de
conhecer. Dessas congregações de gênios da bondade e do trabalho, da harmonia e
da inteligência partem, para outros mundos, missões de estudiosos que se
interessam pela nossa esfera.
Júpiter,
Saturno, Marte e outros gigantes de aperfeiçoamento em nossa organização
planetária, são visitados constantemente por esses vanguardeiros da luz e do
amor, para a permuta de valores necessários ao nosso engrandecimento; em muitos
casos, descem esses missionários à experiência carnal, em que desempenham altos
misteres na política, na administração, na ciência e na fé religiosa, legando
às criaturas sulcos de luz inapagável, nos exemplos e experiências que
transmitem às gerações mais novas.
Mas, em nos
referimos aqui aos vencedores, não será lícito esquecer os irmãos que se
transferem para o mundo espiritual com a vitória incompleta no campo das
realizações a que se consagram.
Nem todos se
retiram na Terra na posição de heróis. A perfeita sublimação é obra dos séculos
incessantes. Notamos, em toda parte, homens e mulheres de boa-vontade
inequívoca na aceitação das verdades divinas e que, no entanto, não conseguem
aplicá-las, de pronto ou de todo, à própria vida.
Aqui, vemos
companheiros que já conseguem livrar-se dos laços asfixiantes da cobiça, na
zona do dinheiro, vivendo em louvável desprendimento das posses materiais,
prendendo-se, no entanto, à sexualidade, ainda incapazes de quebrar os
aguilhões que os ferretoam nesse domínio; outros, aquietados em perfeita serenidade,
extinguiram, na profundeza anímica, os últimos resquícios das ardentes paixões
carnais, contudo, apegam-se a míseros vinténs, convertendo a vida num culto
lastimável e exclusivo ao ouro que o chão reclamará. Muitos ensinam o bem, com
vigor e beleza nas palavras e com atitudes e atos que os desabonam, não
obstante as intenções respeitáveis que os animam, demonstrando incapacidade no
reger os próprios pensamentos e desintegrando com o verbo impulsivo as boas
obras que executam com as mãos. Não raros praticam o bem, mas simplesmente para
com aqueles a quem se inclinam pela simpatia, negando-se a ajudar quantos lhes
não penetram os círculos do agrado pessoal. Inúmeras pessoas se reconfortam com
o ensino religioso de santificação em seu campo interior, mas o renegam na
esfera de ação objetiva. Existem os que suportam o trabalho pela Humanidade,
durante certo número de anos, relegando-se, em seguida, a longo período de
inércia.
De todos eles,
porém, toma o Governo da Vida boa conta dos serviços, peque-nos ou grandes, que
hajam prestado, porquanto é da Lei que até as menores sementes da nossa vida
mental produzam a seu tempo.
Velho
conhecido de minhas relações particulares assassinou certo companheiro de luta,
em deplorável momento de insânia, e, não obstante ver-se livre da justiça
humana, que o restituiu à liberdade, experimentou longo martírio da consciência
dilacerada, entregando-se, por mais de quatro decênios, à caridade com trabalho
ativo pelo bem do próximo. Com semelhante procedimento, granjeou a admiração e
o carinho de vários benfeitores da Espiritualidade Superior, que o acolheram,
solícitos, quando afastado da experiência física, situando-o em lugar
respeitável, a fim de que pudesse prosseguir a obra retificadora. Pelos fios da
amizade e da colaboração que soube tecer, em volta do coração, para solucionar
o seu caso, conseguiu recursos para ir no encalço da vítima, que a insubmissão
havia desterrado para fundo despenhadeiro de trevas e animalidade. Não se fez
dela reconhecido, de pronto, de modo a lhe não perturbar os sentimentos, auxiliando-a
a assumir a posição de simpatia necessária à receptividade dos benefícios de
que era portador; e, após lutar intensivamente pela sua transformação moral, em
favor do necessário alçamento, voltará às lides da carne, a fim de recebê-la
nos braços paternos.
Tendo
subtraído ao irmão a oportunidade de viver e lutar no campo terrestre,
restituir-lhe-á o corpo perdido, ajudando-o a desenvolver-se para a educação,
entre as dádivas da existência comum. Sofrerão juntos, a princípio, quando de
volta à matéria espessa, as velhas antipatias do pretérito, mas o homicida regenerado
conseguiu, por seus méritos, a graça de ser pai e, nessa condição, é justo esperar-lhe
a vitória porque, na qualidade de progenitor, sentirá sublime alegria em
renunciar e sacrificar-se.
Quando os
grandes inimigos adquirem o ensejo da convivência nos elos da consanguinidade,
apreciável mérito já lhes assinala o caminho evolutivo, porquanto, sob o mesmo
teto, quando aceitam os imperativos do verdadeiro amor, podem solidificar os
alicerces da perfeita união.
Quem
conquistou o dom de ajudar, sem pedir remuneração, penetrou o caminho de acesso
efetivo à Espiritualidade Superior. O crime passional do amigo a que me reporto
não lhe valeu o inferno sem fim, segundo ensina a antiga teologia, mas
custou-lhe vastíssimos padecimentos, em benefício do reajuste, com enorme
despesa de tempo, de vez que, se houvesse suportado o adversário, com paciência,
prescindiria de tantas e tão longas canseiras de reparação.
Lembro-me
aqui, igualmente, de velho lidador que se rodeou de muitos servidores, dos
quais reclamava obediência passiva, embora prestando incontestáveis benefícios
à paisagem que o viu renascer. Amparou a terra e estabeleceu para as gerações
mais novas a instrução rudimentar, com o que instituiu grandes vantagens para
muitas almas, atraindo a simpatia de vários benfeitores do Plano Superior; mas
era demasiado cruel para com as criaturas que presumia inferiores. E, em razão
disso, instalou, com a autoridade de que dispunha, condenável sistema de
punição para trabalhadores que julgava relapsos. Com a medida infeliz, alguns
servos se viram depressa minados pela tuberculose fatal. Invocada por suas exigências,
a morte visitou-lhe a propriedade, ceifando existências diversas e perturbando
muitos programas da Direção Mais Alta para o futuro. Atingindo a esfera
espiritual, viu-se pungido de acerbo remorso, mas, se errara por um lado,
exagerando o castigo a homens pobres, que ele não socorrera nem educara suficientemente,
colaborara com segurança e decisão por um padrão mais elevado de vida, no
círculo que o vira renascer, fazendo quanto lhe era possível pelo progresso
comum.
Suas
qualidades nobres acusavam superavit sobre as imperfeições, e o Governo
Superior concedeu-lhe uma reencarnação expressiva, em que lhe será facultado um
título de médico, através do qual pretende o velho lidador consagrar-se aos
corpos doentes, muito especialmente no que se refere à tisiologia, aprendendo a
ajudar aos companheiros de luta humana e amenizando o próprio coração.
A vida é uma
corrente sagrada de elos perfeitos que vai do campo subatômico até Deus, e,
cada vez que, impenitentes ou distraídos, lhe dilaceramos a harmonia,
despendemos força, habilidade e tempo no reajuste.
À maneira que
nos desenvolvemos em sabedoria e amor, consideramos a perda dos minutos como
sendo a mais lastimável e ruinosa de todas.
Dolorosa é a
estagnação para quem acorda em plena jornada; e, compreendendo-se que a
responsabilidade corre paralela ao conhecimento, o serviço de reestruturação
nem sempre é fácil ou acessível. Ninguém se supunha, contudo, deserdado ou
esquecido, nem acredite se cifre na morte do corpo a definitiva solução dos
problemas do espírito. Continuamos aprendendo e progredindo, além da
decomposição do corpo carnal. Em qualquer lugar e sob quaisquer condições,
estamos dentro da Eternidade.
Guardamos,
cada dia, a colheita dos recursos e das emoções que estamos realmente
plantando.
Não existe
infelicidade, senão aquela que decretamos para nós mesmos.
As posições no
mundo são provas ou prêmios, expiações ou experiências.
Todos
possuímos créditos e todos estamos endividados, segundo as qualidades
enobrecedoras e as imperfeições deprimentes, suscetíveis de serem analisadas em
nossa conta pessoal.
Além do
sepulcro, onde o denso veículo abandonado é simples resíduo da alma
imperecível, outras organizações associativas se levantam, nas quais a entidade
humana, quando ajustada à lei natural do progresso, encontra clima propício às
suas aspirações de amor e às suas necessidades de estudo.
Lares de luz,
ninhos abençoados de união, aguardam aqueles que se estimam e se congregam nos
mesmos laços afins. A face planetária é um todo imenso onde selvas, oceanos e
desertos guardam alguns núcleos de inteligência humana civilizada,
comparativamente reduzidos ante a amplitude do solo.
Assim, a
região que denominamos “espaço”, nas vizinhanças do mundo, é um conjunto de
natureza viva, acolhendo colônias de ação evolutiva, círculos de trabalho
regenerador e cidades esplêndidas, onde o espírito da boa-vontade e da ciência
encontra largos horizontes à alegria e à pesquisa, no aprimoramento e no
progresso.
Quanto mais
sublimada a consciência e o coração, mais luz divina a criatura poderá
refletir. Ante o irmão, que parte na direção da experiência que nos seja
desconhecida, façamos, pois, silêncio, quando não seja possível auxiliá-lo com expressões
de estímulo, na certeza de que a vida é infinita e de que nossa alma é imortal.
Do livro
FALANDO À TERRA, psicografado pelo médium Francisco Cândido Xavier.
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