domingo, 25 de junho de 2017

Reflexões à luz do Espiritismo





Se pudéssemos ver nossos entes queridos já desencarnados, como os veríamos?

Uma questão que intriga muitas pessoas diz respeito à morfologia do perispírito – ou corpo espiritual – no que diz respeito à aparência com que os Espíritos, após sua desencarnação, se apresentam.
Três obras espíritas muito conhecidas trazem informações valiosas sobre o assunto.
Citamos em primeiro lugar, atento à ordem cronológica de sua publicação, O Livro dos Médiuns, de autoria de Allan Kardec, em que, referindo-se ao perispírito, Kardec escreveu:

Ele [o perispírito] tem a forma humana e, quando nos aparece, é geralmente com a que revestia o Espírito na condição de encarnado. Daí se poderia supor que o perispírito, separado de todas as partes do corpo, se modela, de certa maneira, por este e lhe conserva o tipo; entretanto, não parece que seja assim. Com pequenas diferenças quanto às particularidades e exceção feita das modificações orgânicas exigidas pelo meio em o qual o ser tem que viver, a forma humana se nos depara entre os habitantes de todos os globos. Pelo menos, é o que dizem os Espíritos. Essa igualmente a forma de todos os Espíritos não encarnados, que só têm o perispírito; a com que, em todos os tempos, se representaram os anjos, ou Espíritos puros. (O Livro dos Médiuns, cap. I, n. 56.) [Negritamos]

A segunda é o clássico A Reencarnação, conforme tradução feita por Carlos Imbassahy, publicada pela FEB. Nele, Gabriel Delanne fornece-nos sobre o tema as seguintes informações:

1) Nota-se pelas fotografias dos fantasmas que eles têm formas reais e possuem, durante a materialização, todos os caracteres dos seres vivos.
2) Referindo-se às materializações de Katie King, William Crookes afirma que a aparição possui coração e pulmões; mas o mecanismo fisiológico de Katie King é diferente do da médium, Srta. Cook.
3) Charles Richet comprovou que a forma materializada possui circulação, calor próprio e músculos, e exala ácido carbônico.
4) O corpo fluídico é semelhante, em todos os pontos, e mesmo anatomicamente, idêntico ao corpo físico. É um ser de três dimensões, com morfologia terrestre. (A Reencarnação, págs. 44 a 55.)

A terceira obra, de confecção mais recente, é Evolução em dois Mundos, psicografada pelos médiuns Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira. No cap. IV da 2ª parte dessa obra, André Luiz oferece-nos as informações adiante resumidas:

1) As linhas morfológicas das entidades desencarnadas, no conjunto social a que se integram, são comumente aquelas que trouxeram do mundo, a evoluírem, contudo, constantemente para melhor apresentação, toda vez que esse conjunto social se demore em esfera de sentimentos elevados.
2) A forma individual em si obedece ao reflexo mental dominante, notadamente no que se reporta ao sexo, mantendo-se a criatura com os distintivos psicossomáticos de homem ou de mulher, segundo a vida íntima, através da qual se mostra com qualidades espirituais acentuadamente ativas ou passivas.
3) Fácil observar, portanto, que a desencarnação libera todos os Espíritos de feição masculina ou feminina que estejam na reencarnação em condição inversiva atendendo a provação necessária ou a tarefa específica, porquanto, fora do arcabouço físico, a mente se exterioriza no veículo espiritual com admirável precisão de controle espontâneo sobre as células sutis que o constituem.
4) Se o progresso mental não é positivamente acentuado, mantém o Espírito, nos planos inferiores, por tempo indefinível, a plástica que lhe era própria entre os homens, sendo certo que, nos planos relativamente superiores, sofre processos de metamorfose, mais lentos ou mais rápidos, conforme suas disposições íntimas. (Evolução em dois Mundos, 2ª parte, cap. IV, pp. 176 e 177.)

Quanto à plástica – masculina ou feminina – mencionada por André Luiz, é importante lembrar que o assunto não era estranho a Allan Kardec, conforme podemos conferir no artigo intitulado “As mulheres têm alma?”, publicado na Revista Espírita de janeiro de 1866.
Segundo o codificador da doutrina espírita, a influência que o Espírito encarnado sofre do organismo não se apaga imediatamente após a destruição do invólucro material, assim como não perdemos instantaneamente os gostos e hábitos terrenos. Pode acontecer que determinado Espírito percorra uma série de existências no mesmo sexo, o que faz que durante muito tempo possa conservar, na erraticidade, o caráter de homem ou de mulher, cuja marca nele ficou impressa.
Se essa influência se repercute da vida corporal à vida espiritual, o fato se dá também quando o Espírito passa da vida espiritual para a corporal. Em uma nova encarnação trará, portanto, o caráter e as inclinações que tinha como Espírito. Mudando de sexo na nova existência corpórea que deverá cumprir, poderá conservar os gostos, as inclinações e o caráter inerente ao sexo que acabou de deixar. Assim se explicam certas anomalias aparentes, notadas no caráter de certos homens e de certas mulheres.



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sábado, 24 de junho de 2017

Contos e crônicas


A (im)paciência nossa de cada dia

JORGE LEITE DE OLIVEIRA
jojorgeleite@gmail.com
De Brasília-DF

Amiga leitora, Humberto de Campos, em Cartas e crônicas, sob o pseudônimo Irmão X, no capítulo 19, intitulado Em torno da paz, narra a história de Anacleto, que acordara em dia claro, às 8h, e, antes de se levantar, pegou o Evangelho de João e leu a mensagem contida no capítulo 14:27, na qual o Mestre dizia: “Minha paz vos deixo, minha paz voz dou. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize”.
Encantado, Anacleto fez a promessa de viver em paz pelo resto da vida, como o Cristo recomendava, em todas as situações e com todas as pessoas. Mal se levantou, procurou o terno para vestir-se e ir trabalhar, mas a calça nova do terno estava rasgada.
Agastado, chamou a esposa, Horacina, que, aflita com a filhinha de colo doente, lamentou o ocorrido e exclamou:
— Que pena! eu estou ocupada com Soninha, com pneumonia, e não vi quando os meninos, à solta, rasgaram sua calça.
Sem se preocupar com a gravidade da doença da filhinha de meses, Anacleto gritou:
— É só o que você sabe dizer? Esquece-se de que paguei uma nota preta pela calça?
A esposa, humilde, nada respondeu. Abriu o guarda-roupas, pegou outra calça parecida com a       que fora rasgada e a entregou ao marido.
Não vou contar-lhe toda a história, amiga leitora, para não lhe tirar o prazer de lê-la na obra supracitada, mas outros três contratempos ocorreram, em seguida, antes de Anacleto entrar no ônibus que o transportaria ao trabalho. Em cada um deles, nosso herói se exasperou por demais, culminando por chamar de malditas todas as pessoas que atravancaram seus passos. Houvera lido o Poeminho do Contra, de Mário Quintana, após refletir na leitura da frase do Cristo, e seu dia teria sido de plena calma:

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!

É então que a leitora, em relação ao incidente inicial contado, dirá:
— Ah, se fosse comigo! Eu mandava-lhe o pé na b... e dizia-lhe que o tempo da escravidão acabou. Ele que assumisse sua condição de pai e dividisse comigo a obrigação de educar nossos filhos. Pois é, Anacleto, os tempos mudaram! só você ainda não percebeu isso.
Mas é assim mesmo que as coisas acontecem, em nosso cotidiano. Somos testados a todo o tempo com base no que prometemos realizar e quase nunca o fazemos.
Só não percebemos isso porque julgamos que nos basta a teoria, a prática é problema alheio. Só adquire a sabedoria real aquele que alia ambas as coisas, como o Mestre recomendava:
 — “Observai e fazei tudo o que escribas e os fariseus fazem, mas não façais como eles, porque não praticam o que dizem” (Mateus, 23:3).







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sexta-feira, 23 de junho de 2017

Iniciação aos clássicos espíritas





A Reencarnação

Gabriel Delanne

Parte 10 e final

Concluímos hoje o estudo do clássico A Reencarnação, de Gabriel Delanne, de acordo com a tradução feita por Carlos Imbassahy publicada pela Federação Espírita Brasileira.
Esperamos que este estudo tenha servido para o leitor como uma forma de iniciação aos chamados Clássicos do Espiritismo.
Cada parte compõe-se de:
1) questões preliminares;
2) texto para leitura.
As respostas correspondentes às questões apresentadas encontram-se no final do texto indicado para leitura. 

Questões preliminares

A. Sem a explicação dada pela Palingenesia, como explicar fenômenos como o de Hennecke, que aos 2 anos sabia três línguas e com 2 anos e meio, mamando ainda, pôde prestar um exame de História?
B. Se a reencarnação realmente existe, por que nos esquecemos das vidas passadas?
C. Todos os incidentes infelizes da vida são expiações de faltas passadas?
D. Qual é, afinal, o objetivo da reencarnação?

Texto para leitura

172. Como explicar de outra forma o caso inverossímil, mas bem real, de Hennecke, que aos 2 anos sabia três línguas e com 2 anos e meio, mamando ainda, pôde prestar um exame de História e Geografia? (PÁG. 292)
173. Embora se saiba que a lembrança do passado, que se manifesta de maneira tão brilhante nas crianças-prodígios, não é geralmente conservada, é possível, por vezes, que o Espírito encarnado recupere, momentaneamente, parte de suas lembranças anteriores, quando se veja em lugares antes habitados por ele. (PÁG. 293)
174. Quanto à origem da alma, as opiniões dos teólogos reduzem-se a duas hipóteses: uns admitem que todas as almas estavam contidas na de Adão e que se transmitem pela geração – tal a opinião de S. Jerônimo, Lutero e Tertuliano, que não foi admitida universalmente. Outros entendem que é preciso um ato da vontade divina para que se crie uma alma a cada nascimento, o que é inconciliável com a bondade e justiça de Deus. (PÁG. 298)
175. O estudo das comunicações espíritas provou que a situação da alma, depois da morte, é regida por uma lei de justiça infalível, segundo a qual os seres se encontram em condições de existência rigorosamente determinadas por seu grau evolutivo e pelos esforços que faz para melhorar-se. (PÁG. 299)
176. Admitindo-se que o nascimento atual é precedido de uma série de existências anteriores, tudo se esclarece e se explica com facilidade: os homens trazem, ao nascer, a intuição do que já adquiriram e são mais ou menos adiantados, segundo o número de existências percorridas. (PÁG. 300)
177. O esquecimento de nosso passado se explica também com facilidade: se a renovação do passado fosse geral, ela perpetuaria as dissensões e os ódios que foram a causa das faltas anteriores, e se oporia ao progresso. (PÁG. 302)
178. É preciso observar que os incidentes infelizes da vida não são, necessariamente, expiações de faltas anteriores. As provas são condições indispensáveis para obrigar-nos a vencer nosso egoísmo e desenvolver as faculdades e virtudes que nos fazem falta. (PÁG. 302)
179. O mal não é uma fatalidade inelutável de que não nos podemos libertar: é um aguilhão, uma necessidade destinada a compelir o homem para a estrada do progresso. (PÁG. 303)
180. Apesar dos sofismas dos retóricos, o progresso não é uma utopia. Do ponto de vista material, o progresso salta aos olhos, embora, do ponto de vista moral, seja ele mais lento. Quem pode comparar o proletariado atual com a escravidão antiga? (PÁG. 304)
181. As vidas sucessivas têm, pois, por objeto o desenvolvimento da inteligência, do caráter, das faculdades, dos bons instintos e a supressão dos maus. (PÁG. 305)
182. Sendo contínua a evolução e perpétua a criação, cada um de nós, no correr das existências, é feitura de si mesmo. (PÁG. 305)
183. Partimos todos do mesmo ponto, para chegar ao mesmo fim, e essa comunhão de origem mostra-nos claramente que a fraternidade não é uma palavra vã. (PÁG. 305)
184. O egoísmo é, ao mesmo tempo, um vício e um mau cálculo, porque a melhoria geral só pode resultar do progresso individual de cada um dos membros que constituem a sociedade. (PÁGS. 305 e 306)
185. Quando estas grandes verdades forem bem compreendidas, encontrar-se-á menos dureza entre os que possuem, e menos ódio e inveja nas classes inferiores. (PÁG. 306)
186. Se os que detêm a riqueza ficassem persuadidos de que, na próxima encarnação, poderão surgir nas classes indigentes, teriam evidente interesse em melhorar as condições sociais dos trabalhadores, e estes, reciprocamente, aceitariam com resignação a sua situação momentânea, sabendo que, mais tarde, poderão estar, por sua vez, entre os privilegiados. (PÁG. 306)
187. A Palingenesia é, pois, uma doutrina essencialmente renovadora, é um fator de energia, visto que estimula em nós a vontade, sem a qual nenhum progresso individual ou geral pode realizar-se. (PÁG. 306)
188. Podemos, então, dizer com Maeterlinck: "Reconheçamos, de passagem, que é lamentável não sejam peremptórios os argumentos dos teósofos e dos neoespiritistas; porque não houve nunca uma crença mais bela, mais justa, mais pura, mais moral, mais fecunda, mais consoladora, e até certo ponto verossímil que a deles". "Tão só com a sua doutrina das expiações e das purificações sucessivas, ela explica todas as desigualdades sociais, todas as injustiças abomináveis do destino." (PÁGS. 306 e 307)

Apêndice

1. Nascido em Paris no dia 23 de março de 1857, no mesmo ano em que veio a lume a primeira edição de “O Livro dos Espíritos”, Gabriel Delanne faz parte, ao lado de Léon Denis, Camille Flammarion e Ernesto Bozzano, da elite de escritores espíritas cujas obras o estudioso do Espiritismo não pode desconhecer. Sua desencarnação ocorreu em 15 de fevereiro de 1926, pouco antes de completar 69 anos de idade.
2. As obras de Gabriel Delanne constantes do catálogo da Federação Espírita Brasileira são: “O Fenômeno Espírita”, de 1893; “A Alma é Imortal”, de 1895; “A Evolução Anímica”, de 1895; “O Espiritismo perante a Ciência” e “A Reencarnação”.
3. Seu pai, Alexandre Delanne, e sua mãe foram amigos e íntimos companheiros de Kardec durante todo o tempo em que o Codificador realizou em Paris seu trabalho de estruturação da doutrina espírita. Quando Kardec desencarnou, Alexandre Delanne foi a primeira pessoa a dirigir-se à casa do Codificador, atendendo com presteza a um chamado feito pela Sra. Amélie Boudet.
4. Ao ver o corpo de Kardec inanimado, Delanne friccionou-o, magnetizou-o, mas em vão. Tudo estava acabado. Conta o Sr. E. Müller em carta dirigida ao Sr. Finet, referindo-se à visita que fez naquele mesmo dia à casa do Codificador: “Penetrando a casa, com móveis e utensílios diversos atravancando a entrada, pude ver, pela porta aberta da grande sala de sessões, a desordem que acompanha os preparativos para uma mudança de domicílio; introduzido numa pequena sala de visitas, que conheceis bem, com seu tapete encarnado, e seus móveis antigos, encontrei a Sra. Kardec assentada no canapé, de face para a lareira; ao seu lado, o Sr. Delanne; diante deles, sobre dois colchões colocados no chão, junto à porta da pequena sala de jantar, jazia o corpo, restos inanimados daquele que todos amamos. Sua cabeça, envolta em parte por um lenço branco atado sob o queixo, deixava ver toda a face, que parecia repousar docemente e experimentar a suave e serena satisfação do dever cumprido”.
5. Um fato curioso ocorrido com Gabriel Delanne, quando ele contava 8 anos, é relatado por Kardec na Revista Espírita de 1865, às págs. 312 a 314. Trata-se de uma experiência de tiptologia que Gabriel, auxiliado por três crianças de sete, cinco e quatro anos, realizou a pedido de uma senhora. O menino, após a evocação, pediu a ela que perguntasse quem respondia. A mulher interrogou e a mesa soletrou duas palavras: Teu pai. Na sequência, a pedido dela, o Espírito deu três provas de que era mesmo seu pai quem ali se manifestava.
6. Comentando o caso, Kardec informa que não era a primeira vez que a mediunidade se revelava em crianças e o que ocorreu fora já anunciado numa célebre profecia: Vossos filhos e vossas filhas profetizarão, a que se reporta o livro Atos dos Apóstolos, 2:17.  

Respostas às questões preliminares

A. Sem a explicação dada pela Palingenesia, como explicar fenômenos como o de Hennecke, que aos 2 anos sabia três línguas e com 2 anos e meio, mamando ainda, pôde prestar um exame de História?
Não existe outra explicação para o fato, senão a hipótese da palingenesia, segundo a qual o Espírito traz de suas existências passadas o conhecimento manifestado nesta, que ele adquiriu graças a seus esforços e não a um privilégio inadmissível concedido a ele pelo Criador. (A Reencarnação, cap. XIII, págs. 292 e 293.)
B. Se a reencarnação realmente existe, por que nos esquecemos das vidas passadas?
O esquecimento de nosso passado se explica com facilidade: se a renovação do passado fosse geral, ela perpetuaria as dissensões e os ódios que foram a causa das faltas anteriores, e se oporia ao progresso. É por isso que Deus permitiu que esquecêssemos temporariamente o que fizemos nas existências passadas, favorecendo assim a harmonia nas relações sociais e familiares. (Obra citada, cap. XIV, págs. 300 a 302.)
C. Todos os incidentes infelizes da vida são expiações de faltas passadas?
Não. Esses incidentes não são, necessariamente, expiações de faltas anteriores. Constituem, muitas vezes, provas indispensáveis a que vençamos nosso egoísmo e desenvolvamos as faculdades e virtudes que nos fazem falta. (Obra citada, cap. XIV, págs. 302 e 303.)
D. Qual é, afinal, o objetivo da reencarnação?
As vidas sucessivas têm por objetivo o desenvolvimento da inteligência, do caráter, das faculdades, dos bons instintos e a supressão dos maus. Partimos todos do mesmo ponto, para chegarmos ao mesmo fim, e essa comunhão de origem mostra-nos claramente que a fraternidade não é uma palavra vã. (Obra citada, cap. XIV, págs. 304 a 306.) 


Nota:

Eis os links que remetem aos 3 últimos textos:





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quinta-feira, 22 de junho de 2017

Iniciação ao estudo da doutrina espírita




Objetivos da evolução e seu processo

Este é o módulo 33 de uma série que esperamos sirva aos neófitos como iniciação ao estudo da doutrina espírita. Cada módulo compõe-se de duas partes: 1) questões para debate; 2) texto para leitura.
As respostas correspondentes às questões apresentadas encontram-se no final do texto sugerido para leitura. 

Questões para debate

1. Que podemos entender pela expressão estado de natureza?
2. Como os Espíritos progridem?
3. A marcha dos Espíritos é sempre progressiva?
4. Podemos dizer que o objetivo da evolução seja a felicidade terrestre?
5. Quem é o árbitro soberano de nosso destino?

Texto para leitura

O estado de natureza é a infância da Humanidade
1. O homem desenvolve sua caminhada evolutiva a partir de um estado primitivo ou estado de natureza. O estado de natureza, ensina a Doutrina Espírita, é o estado de infância da Humanidade, o ponto de partida do seu desenvolvimento intelectual e moral.
2. Sendo perfectível e trazendo em si o gérmen do seu aperfeiçoamento, o Espírito não foi destinado a viver perpetuamente no estado de natureza, como não foi criado para viver eternamente na infância. Aquele estado é transitório, e os Espíritos dele saem em virtude do progresso e da civilização.
3. É preciso, portanto, que o ser humano se desenvolva intelectual e moralmente, e é através da lei do progresso que se regula a evolução de todos os seres e de todos os mundos que giram no Universo.
4. O Espírito, contudo, só se depura com o tempo, pelas experiências adquiridas que as vidas sucessivas lhe facultam. Tendo de progredir incessantemente, ele não pode volver ao estado de infância. É Deus que assim o quer. Pensar que possamos retrogradar à nossa primitiva condição equivaleria a negar a lei do progresso.

A marcha dos Espíritos é progressiva
5. No estado de natureza o homem tem menos necessidades, sua vida é mais simples e menores são suas atribulações, pois se atém mais à sobrevivência e às necessidades fisiológicas. Há, porém, em todas as pessoas uma surda aspiração, uma energia íntima misteriosa que as encaminha para as alturas e as faz tender para destinos cada vez mais elevados, impelindo-as para o Belo e para o Bem.
6. É a lei do progresso, a evolução eterna, que guia a Humanidade através das idades e aguilhoa cada um de nós, visto que a Humanidade são as próprias almas que, de século em século, voltam à cena física para, com auxílio de novos corpos, preparar-se para mundos melhores em sua obra evolutiva.
7. A lei do progresso não se aplica apenas ao homem; abarca todos os reinos da Natureza, como já foi reconhecido por diversos pensadores. Na planta, a inteligência dormita; no animal, sonha; no homem, acorda, conhece-se, possui-se e torna-se consciente.
8. A marcha dos Espíritos é progressiva, jamais retrógrada. Eles se elevam gradualmente na hierarquia e não descem da categoria a que ascenderam. Podem, em suas diferentes existências corpóreas, descer como homens, não como Espíritos.

O objetivo da evolução não é a felicidade terrestre
9. As reencarnações constituem uma necessidade inelutável para que se faça o progresso espiritual. Cada existência corpórea não comporta mais do que uma parcela de esforços determinados, após o que a alma se encontra exausta.
10. A morte representa um repouso, um intervalo, uma etapa na longa rota da eternidade, antes que nova encarnação se apresente para o Espírito, a valer como rejuvenescimento para o ser em marcha.
11. Paixões antigas, ignomínias, remorsos desaparecem, e o esquecimento cria um novo ser, que se atira cheio de ardor e entusiasmo no percurso da nova estrada.
12. Cada esforço redunda num progresso, e cada progresso num poder sempre maior, pois as aquisições sucessivas vão alteando a alma nos inumeráveis degraus da perfeição. O objetivo da evolução, a razão de ser da vida, não é a felicidade terrestre, como muitos erradamente creem, mas o aperfeiçoamento de cada um de nós, o que só realizaremos por meio do trabalho, do esforço e de todas as alternativas de alegrias e de dor, até que nos tenhamos desenvolvido completamente e elevado ao estado celeste.

Somos os construtores do nosso próprio destino
13. Somos, assim, o árbitro soberano de nossos próprios destinos. Cada experiência reencarnatória condiciona a que lhe sucede e, malgrado a lentidão da marcha ascendente, eis-nos a gravitar incessantemente para alturas radiosas onde sentimos palpitar corações fraternais e entramos em comunhão sempre mais e mais íntima com a Potência Divina.
14. Os que ignoram tais verdades e nada fazem por melhorar-se chegam ao mundo espiritual na condição de Joaquim Sucupira, que abandonou o corpo aos sessenta anos, após viver arredado do mundo, no conforto precioso que herdara dos pais. Na Terra – refere Irmão X –  Sucupira falara pouco, andara menos, agira nunca...
15. Na pátria espiritual, embora pudesse locomover-se, havia perdido o movimento dos braços e das mãos. Um instrutor, ao examinar seu caso e ouvir suas queixas, disse-lhe com toda a franqueza: “Seu caso explica-se: você tem as mãos enferrujadas”.
16. E ante a careta do interlocutor amargurado, aditou: “É o talento não usado, meu amigo. Seu remédio é regressar à lição. Repita o curso terrestre”. “O que você precisa, Joaquim, é de movimento.”

Respostas às questões propostas

1. Que podemos entender pela expressão estado de natureza?
O ser humano realiza sua caminhada evolutiva a partir de um estado primitivo ou estado de natureza, que é, segundo a Doutrina Espírita, o estado de infância da Humanidade, o ponto de partida do seu desenvolvimento intelectual e moral.
2. Como os Espíritos progridem?
Os Espíritos só se depuram com o tempo, pelas experiências adquiridas que as vidas sucessivas lhes facultam.
3. A marcha dos Espíritos é sempre progressiva?
Sim. A marcha dos Espíritos é sempre progressiva, jamais retrógrada. Eles se elevam gradualmente na hierarquia e não descem da categoria a que ascenderam.
4. Podemos dizer que o objetivo da evolução seja a felicidade terrestre?
Não. O objetivo da evolução, a razão de ser da vida, não é a felicidade terrestre, como muitos erradamente creem, mas o aperfeiçoamento de cada um de nós, o que só realizaremos por meio do trabalho, do esforço e de todas as alternativas de alegrias e de dor, até que nos tenhamos desenvolvido completamente e chegado ao estado celeste.
5. Quem é o árbitro soberano de nosso destino?
Somos nós mesmos o árbitro soberano de nossos destinos. Cada experiência reencarnatória condiciona a que lhe sucede e, malgrado a lentidão da marcha ascendente, eis-nos a gravitar incessantemente para alturas radiosas onde sentimos palpitar corações fraternais e entramos em comunhão sempre mais e mais íntima com a Potência Divina.


Nota:
Eis os links que remetem aos 3 últimos  textos:




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quarta-feira, 21 de junho de 2017

Pílulas gramaticais (262)



Para as pessoas que falam ao público – professores, palestrantes, repórteres, apresentadores de rádio ou TV –, eis uma ótima notícia oriunda das medidas que foram tomadas no Brasil em face do Acordo Ortográfico firmado pelos países que adotam oficialmente o idioma português.
Referimo-nos à pronúncia dos vocábulos adiante mencionados, os quais, a partir do Acordo, podem ser pronunciados com som fechado ou aberto na sílaba tônica, à escolha de quem fala:
acervo (ê ou é)
algoz (ô ou ó)
blefe (ê ou é)
bofete (ê ou é)
cervo (veado) (ê ou é)
coeso (ê ou é)
cornos (ô ou ó)
destra (ê ou é)
destro (ê ou é)
escaravelho (ê ou é)
forros (ô ou ó)
grumete (ê ou é)
obeso (ê ou é)
obsoleto (ê ou é)
poça (ô ou ó)
suor (ô ou ó)
topete (ê ou é)
trocos (ô ou ó).
Em caso de dúvida, sugerimos ao leitor que consulte diretamente o VOLP. Eis o link: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=23
Com a medida, ninguém mais estará sujeito a erro quando tiver de pronunciar a palavra “obeso” ou o vocábulo “obsoleto”, cuja pronúncia sempre suscitou dúvida.




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terça-feira, 20 de junho de 2017

Contos e crônicas


Uma estrela azul sob o céu

CÍNTHIA CORTEGOSO
cinthiacortegoso@gmail.com
De Londrina-PR

O chão era de terra não só ao redor do casebre, mas em quase toda a cidade, só mesmo bem no centro da cidade havia calçamento, e também era sujo de terra.
E no casebre número dezessete morava Shaira, uma menina africana de doze anos. Mais cinco irmãos, uns maiores e outros menores que ela, sua mãe e a avó materna também dividiam o local suspenso por frágeis estacas de madeira velha. Esse era o cenário de quase toda a cidade, com exceção do centro que era calçado e possuía construções de comércio e alguns estabelecimentos necessários para o funcionamento de uma pequena área de civilização.
A mãe trabalhava numa fabriqueta de costura. Cumpria quase doze horas diárias de trabalho para manter a comida para a família, uma mistura de farinha com água mais alguns legumes era prato rotineiro. A avó fazia uns bolinhos típicos da região a fim de conseguir um pouco de dinheiro para algum remédio ou comprar algo de quase tudo que lhes faltava.
Shaira era diferente dos outros irmãos e das crianças que por ali viviam. Era mais quieta e muito observadora. E adorava olhar para o céu quando a noite começava a chegar. Ficava encostada, se a deixasse, por horas, no batente da única porta do casebre e olhava tanto para aquele profundo céu com estrelas. Não se encantava muito pelas brincadeiras comuns do lugar. Mas ao mesmo tempo era cheia de ternura e muito carinhosa com sua família.
A avó muito a observava. Era uma senhora simples que exageradamente já havia trabalhado em sua vida. Desde criança era entregadora de água, ou seja, ela ia até a fonte, um lugar bem distante, enchia latas grandes de água e trazia para as pessoas que tinham alguma moeda para lhe dar. Com esse trabalho criou a filha e ajudou a criar os netos, mas ultimamente sentia, com dor e desconforto, o excesso cometido ao corpo ao longo dos anos. E os bolinhos agora podiam ajudar a renda. E a avó perguntava para Shaira:
‒ Minha neta, o que tanto olha para o céu?
‒ Eu gosto muito do céu, vó ‒ simplesmente a menina respondia e continuava com o olhar compenetrado.
A avó a olhava um pouquinho mais e voltava para os afazeres.
Durante o dia, Shaira ia à escola, ajudava em casa. A magia começava com o início da noite e continuava noite adentro, mas às dez horas já estava na cama junto com todos os irmãos.
A menina gostava muito de cantarolar uma música folclórica da região. Eram assim os versos que ela sempre repedia: “E um dia, quando for forte e grande, terei condições de salvar meu povo e subir para o céu”.
Naquele dia, última sexta-feira do mês, Shaira voltou da escola em companhia de seus irmãos e alguns coleguinhas, como sempre fazia. Quando ela e os irmãos chegaram, a comida estava pronta, a mistura de farinha com água mais alguns legumes; a avó é quem preparava, pois a mãe trabalhava na fabriqueta quase doze horas por dia.
Depois de lavarem as mãos, as crianças se sentavam num banco de madeira que havia no casebre. A avó lhes servia um prato de comida para cada um. Sem falatório, nem boca aberta, as crianças e a avó comiam com calma e muita educação. Esse comportamento era natural naquela família. Quando muito, durante a refeição, uma ou outra criança compartilhava algum acontecimento.
Alimentados, então era hora de cada um fazer o que deveria. E Shaira sempre lavava a louça do almoço. Assim também fez naquela sexta-feira. E depois da tarefa feita, ela pediu à avó se poderia ir à casa de uma amiga para as duas fazerem o trabalho da escola.
‒ Sim, minha neta. Mas tome cuidado ‒ falou a avó.
A menina deu um beijo no rosto da querida senhora e nos dos irmãos que ali estavam, pois dois deles já haviam saído para brincar. Pegou o material e foi para a casa da amiga.
O trabalho escolar consistia em criar uma poesia e declamá-la no dia da grande apresentação da escola. Alguns países fizeram uma aliança cultural, cujos vencedores das escolas participantes viajariam para um país europeu e apresentariam as poesias.        Então, Shaira chegou à casa da amiga Malika, que vivia numa situação financeira um pouquinho melhor. As duas eram muito amigas e decidiram se reunir para se ajudarem com o propósito da criação da poesia.
Sentadas à mesa, com lápis na mão e papel à frente. Só faltava mesmo a inspiração.
As duas começaram a rir. A graça de criança.
‒ Mas, Malika, precisamos ter ideia... precisamos saber sobre o que vamos escrever ‒ Shaira falou.
‒ É mesmo. Precisamos escolher o que queremos escrever ‒ pensou um pouco. ‒ Será que podemos colocar sobre qualquer coisa? ‒ a amiga perguntou.
‒ A professora falou que sim, mas que precisa ter sentimento, porque poesia não existe sem sentimento ‒ Shaira relembrou o que a professora havia explicado.
E aquela tarde foi a primeira das cinco que as duas se encontraram para tentar escrever a poesia. Malika finalmente escreveu sobre o amor que sentia por seu cão vira-latas de olhos cor de mel. Ela o amava, então, descreveu esse sentimento com simples e verdadeiras palavras.
No entanto, Shaira, na véspera do dia da entrega da poesia, ainda não havia terminado e muito menos poderia declamar algo que ainda não existia. Ela se despediu de Malika que lhe falou:
‒ Shaira, podemos dizer que escrevemos juntas a poesia e pedimos para declamar. O que acha?
Shaira a escutou com carinho e lhe falou:
‒ Malika, a professora disse que cada um precisa escrever a sua própria poesia. Desse jeito, nós duas ficaremos sem nota... e você já escreveu a sua... que ficou linda ‒  Shaira  falou com a delicadeza que lhe era tão própria.
‒ Gostaria que você já estivesse escrito uma bela poesia ‒ Malika falou.
‒ Sim... ‒ Shaira falou meio desanimadinha e logo foi embora.
Ela estava esperançosa que durante o caminho de volta tivesse uma ideia que a ajudasse com a poesia, mas ela chegou ao casebre e nenhuma ideia havia surgido.
E mais uma vez, Shaira chegou e ajudou a avó. A menina estava preocupada com o seu dever poético.
Terminada a ajuda, a menina foi admirar as estrelas. Seus olhos brilhavam com o encanto do céu. Mais do que nunca, ficou estática a buscar o entusiasmo criador. Precisava escrever uma poesia; a inspiração começou a surgir.
A menina, sem perder tempo, correu para o papel e o lápis. As palavras começaram a formar os primeiros versos, melodia, cadência, estrofação, tudo sem conhecimento de estrutura poética, mas com inteiramente o caminho do coração. Shaira começou a organizar o que já existia em seu sentimento, simplicidade foi dando forma. E não parou de escrever até colocar o ponto final no último verso.
Soltou o lápis sobre o papel. Os irmãos, aquela noite, estavam mais calminhos.
Pegou o papel e leu a poesia. Após a leitura seus olhinhos estavam marejados. Leu a sua própria emoção. Mas logo se lembrou de que não bastaria escrever, era necessário memorizar a poesia para, no dia seguinte, declamá-la e garantir, pelo menos, alguma pontuação para a nota final.
Sua família já estava dormindo. A avó e a mãe não se importavam em deixar uma luz acesa, pois sabiam do trabalho escolar. E, com determinação, a menina conseguiu, por mais uma hora, ler e tentar gravar a poesia; em seguida o sono e cansaço foram mais determinados que a jovenzinha.
Novamente o sol nasceu e o dia da apresentação chegou. A ordem para declamar seguia o livro de chamada. Shaira seria uma das últimas e, sentadinha, aguardava a sua vez na humilde sala de aula.
Alguns alunos eram mais aplaudidos que outros; finalmente chegou a vez da menina que se levantou e foi para a frente da sala. Levou a poesia escrita no papel que a criara. Ela sabia que não poderia ler, mas foi mais por segurança.
Um pouco tímida, começou. Não houve um barulhinho sequer durante a apresentação. Quando terminou, os aplausos foram muitos.
‒ Que poesia linda, Shaira – a professora falou.
‒ Obrigada, professora – a menina agradeceu.
‒ Adorei, Shaira – Malika abraçou a amiga. ‒ Eu estava triste por você, ainda ontem, não ter conseguido... Que bom... você conseguiu! ‒ Malika falou muito feliz.
‒ Sim, Malika, também estou muito feliz. Escrevi o que eu estava sentindo ‒ Shaira falou.
E por ser tão simples e sensível, a poesia de Shaira foi escolhida, entre as dos alunos da escola, para a declamação em um país europeu.
A menina, na companhia dos colegas e irmãos, voltou saltitando de alegria para casa. Também levou um pedido solicitando, no dia seguinte, a presença do responsável para as determinadas explicações e a autorização para Shaira poder participar do evento cultural em um país europeu que custearia todos os gastos. Seria também uma preciosa oportunidade para a menina conhecer novos lugares e pessoas, oportunidade até de iniciar uma nova vida.
No dia seguinte, a avó, com a procuração, chegou à escola na companhia da menina; a mãe não pôde comparecer, pois trabalhava quase doze horas diárias.
O professor, que também acompanharia Shaira, explicou à avó como seria a viagem, quanto tempo ficariam e o mais importante, além de todo gasto ser pago por um país europeu, a aluna receberia uma quantia em dinheiro pela participação. E a avó foi embora; Shaira ficou na escola. Mais tarde, o professor daria entrada à documentação necessária.
Como a cada dia tanto se resolve, após alguns amanheceres, chegou a manhã da viagem. A pequenina, com sua avó e irmão, chegou à escola um pouco adiantada do horário marcado.
A despedida foi emocionante.
Shaira nunca havia ficado distante de sua família... de sua avó querida. Mas eram apenas alguns dias e por um motivo tão feliz: a sensível poesia.
E lá no alto, o avião já recebia de mais perto os dourados raios solares. A menina estava sentadinha ao lado do atencioso professor e de uma professora acompanhante. Mais algumas horas e o avião tocou o solo em outro país, continente, com distinta cultura e valores.
Passada a noite, Shaira e os professores, após um delicioso café da manhã no hotel, foram levados ao maior colégio da cidade, onde aconteceria a apresentação com vinte alunos vencedores de diversos países.
O teatro do colégio estava lotado.
Vários alunos já haviam recitado quando Shaira foi apresentada.
‒ Recebam, com uma salva de palmas, a querida africana Shaira – foi o anúncio final do apresentador.
Shaira entrou no palco.
O público se aquietou.
A menina de doze anos estava diante de uma enorme plateia. Então, ela respirou fundo e começou a declamar sua poesia. Ela, assim, delicadamente começou:
“Gostaria tanto de pegar
uma estrela do céu.
Mas pensei... se eu pegá-la,
uma estrelinha deixará
de brilhar, pois em minha
mão não é o seu lugar.
Gostaria de ser uma estrela...
uma estrela azul,
poderia ver meu povo do alto;
mas se fosse assim,
estaria longe e não 
poderia ajudá-lo.
Gostaria de ser
uma colorida borboleta
para voar por todo
os espaços e ver do
que meu povo mais precisa,
mas eu seria muito frágil
para ampará-lo.
Poderia, então, ser
uma linda flor
perfumada para
ajudar as pessoas a
se sentirem melhor.
Mas uma flor tem
vida mais curta
e não poderia ajudar
muitas pessoas.
Então, posso continuar mesmo a ser...
Shaira, uma menina africana
de olhos verdes,
pois crescerei e o
brilho das estrelas
iluminará meu caminho;
como a borboleta,
terei sabedoria para
ir por todos os lados
e serei doce como a
flor para conversar com meu querido povo
e entendê-lo.
Somos o que devemos ser,
mas podemos nos melhorar sempre”.
O público começou a se levantar antes mesmo de a menina terminar sua declamação. Algumas pessoas se encaminharam para os corredores. E quando a menina, magrinha e muito simples terminou, ficou um pouco envergonhada no palco, sozinha.
Em segundos, os aplausos aumentaram. O público do corredor queria estar mais próximo da menina africana de olhos verdes e não ir embora por estar desinteressado. O som das almas e assovios aumentavam a cada segundo.
Aqueles olhos verdes estavam brilhantes da lágrima emocionada. Abraços e cumprimentos, Shaira perdeu a conta de tantos que recebeu. E mesmo com a apresentação posterior dos outros alunos, foi Shaira quem levou o troféu por sua linda poesia. Estava muito feliz, pois além de tantos bons momentos durante a viagem, ela receberia um prêmio em dinheiro e poderia comprar coisas muito necessárias para sua família, inclusive, o primeiro bolo de aniversário para sua avó que em três dias completaria setenta e dois anos.
Shaira, na verdade, já era uma estrela, uma flor e uma borboleta, pois irradiava luz, era profundamente sensível e também de uma grande sabedoria, a de amar e tanto querer ajudar o seu povo.
E lá do céu, a menina enxergava o pequenino universo onde morava. Estava cheia de planos. O avião aterrissou.
Os olhos verdes da menina se encontraram com sua família e seu povo. As estrelas do céu brilhavam forte depois de um dia de sol.

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