Augusto
Cezar
(autor
espiritual)
Era noite.
O mentor Silvério Pires recomendou-me esperá-lo por
instantes.
Em seguida, veio a mim explicando:
— Augusto, temos serviço urgente. Venha comigo. Trata-se
de um pedido de mãe devotada, em apoio de um filho enfermo.
Obedeci, de
imediato, mesmo porque o orientador é um desses professores diletos a que nos
vinculamos por afetuoso reconhecimento.
Alguns minutos
voaram e atingimos um palacete de primorosa estrutura, cercado por jardins que
brilhavam ao luar, dentro da noite.
Entramos.
O mentor parecia
familiarizado com os mínimos recantos do solar, enriquecido de tapetes e telas
raras.
Em aposento
próximo, mobiliado segundo os hábitos portugueses do século XVIII, um homem,
aparentando cinquenta janeiros, escrevia e escrevia…
Porque
estacássemos, de repente, perguntei surpreso ao meu condutor:
— Onde está o
doente?
O amigo fez um
gesto de proteção, sobre a cabeça do homem que me era desconhecido e acentuou:
— Este é o irmão
Celestino que nos requisita assistência.
Fitei o
desconhecido, da cabeça aos pés e não lhe notei qualquer anormalidade.
Entretanto, o
mentor solicitou-me:
— Tome papel e
lápis e copie a carta em andamento. Trata-se de um estudo que nos cabe fazer.
Sem vacilar,
passei a escrever o texto que o desconhecido produzia à nossa frente.
Era uma carta que
ele provavelmente endereçava a algum irmão distante, e assim dizia:
“Meu caro Aprígio:
“Segure os
cinquenta mil sacos de arroz no armazém número dois e aguardemos mais preço. Os
dez mil litros de óleo para cozinha, mantenha você em estoque e os dois mil
sacos de café em grão guarde no armazém número quatro. Não venda bulhufas. Mais
algumas semanas e estaremos numa boa. Tudo isso terá preços altos, nos próximos
dias.
“E olhe: Não dê
migalha alguma a ninguém. Religiosos têm vindo aqui a me pedir socorro. Dizem
que os tutelados deles estão em carência. Até freiras já vieram aqui com
petitórios. Não atenda a ninguém se você for procurado. Esse negócio de
religião e caridade já era. Um certo amigo chegou a me dizer que a minha
fazenda pela qual suei tanto, pertence a Deus, e a mim, que eu não passo de sócio.
Eu queria que esse maluco visse os meus terrenos quando Deus estava aqui
trabalhando sozinho. Era mato e cobras em toda parte. Fique tranquilo e nada de
coração mole. Espero estar aí na próxima semana.
“Até quinta-feira.
“Um abraço do seu
irmão
Celestino.”
Celestino, pois
esse era o nome de nosso anfitrião, colocou a caneta em lugar adequado e, logo
após, levou a mão ao peito. Gemia. Afigurava-se-me que ele sentia muita dor.
Em dado momento,
pressionou o botão de uma campainha e estirou-se em larga poltrona.
Um servidor
apareceu.
Celestino pediu um
coronário-dilatador e a presença do seu médico particular.
O cardiologista
surgiu com presteza e determinou a remoção do doente para um hospital.
Pires sentenciou:
— Devemos
acompanhá-lo. Esta é a última noite de nosso amigo na vida física.
Internado,
Celestino estava submetido a minuciosos exames.
Silvério se dispôs
à retirada e disse-me simplesmente:
— Veja você. Tanta
ambição e dentro de poucas horas o nosso amigo estará desencarnado, sob a
suspeita de enfarte. Amanhã viremos buscá-lo.
Nada mais
acrescentou e eu fiquei a meditar sobre a lição recebida.
Do livro Fotos
da vida, obra psicografada pelo médium Francisco Cândido Xavier.
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