sábado, 8 de junho de 2019




Crime e expiação

JORGE LEITE DE OLIVEIRA
jojorgeleite@gmail.com
De Brasília-DF

Bom dia, amigos.
Algumas pessoas são tão cruéis, embora pareçam ser normais, que basta um pisão nos seus calos para mostrarem sua verdadeira face. Muitas delas são almas provindas de mundos ainda inferiores à Terra. Vêm para o nosso convívio objetivando libertar-se, gradativamente, do instinto animal que ainda dormita dentro delas. Infelizmente, porém, muitas ainda não aprenderam a domar seus maus instintos. Então, causam perturbações espantosas em nossa sociedade. Nada disso, entretanto, fica impune pelas leis de Deus.
O leitor atento poderá argumentar que tais criaturas sejam doentes mentais, psicopatas sem noção clara do que fazem. Certo, também os psicopatas fazem coisas absurdas. Nesse caso, um cuidadoso exame psiquiátrico identificará seu mal físico. Mas e quando o agente do mal não possui qualquer patogênese cerebral?
Há poucos dias, em Brasília, foi notícia nacional o caso da mãe que matou e esquartejou o próprio filho, de nove anos, para se vingar... do companheiro que a abandonou.
Para o prisioneiro do mal que dormita nos refolhos de sua alma, a maldade não é fruto de um ato tresloucado, inconsciente, inconsequente, próprio dos loucos. Ela é regurgitada após a ruminação silenciosa de algo que a pessoa considera imperdoável e merece um revide desproporcional à ofensa recebida.
Não é o que ocorre com o psicopata, que age impensadamente. O perverso age por cálculo, com frieza premeditada e sempre movido por uma paixão incontrolável, que pode ser motivada por ciúmes, ambição ou vingança.
Conta-nos o Espírito Manoel Philomeno de Miranda, na obra Painéis da Obsessão, a história de um casal que vivia muito bem, embora a dona da casa já demonstrasse não ser de boa índole. Possuíam latifúndio onde moravam sem maiores problemas. Certo dia, uma de suas servidoras, alforriada pela Lei do Ventre-Livre, teve sua beleza elogiada pelo patrão à esposa que, aparentando não se afetar, perguntou a este o que considerava mais belo na jovem.
Ele, então, realçou as curvas do corpo e a beleza dos seios da servidora. A mulher nada disse. Continuou suas atividades diárias sem demonstrar nenhuma insatisfação com o marido e carinhosa como sempre.
Dias depois, o esposo precisou viajar a negócios e passou alguns dias fora do lar. Quando retornou, mandou avisar à mulher e demais pessoas de sua fazenda, que muito se alegraram de sua volta.
A esposa recebeu-o com carinho e, no jantar, o marido percebeu que um dos pratos, de carnes macias e excelente tempero estava delicioso. Agradeceu àquela pela vianda e ouviu-lhe, com frieza impressionante, que o prato apreciado fora preparado com os seios da servidora, que ela mandara cortar, para agradá-lo, uma vez que ele tanto os elogiara antes de viajar.
O marido, nauseado e perplexo pelo que ouvira, apressou-se a procurar a jovem mutilada. Encontrou-a contorcendo-se de dor e agonizante. Naquela noite, a moça não resistiu aos sofrimentos e morreu. Desse dia em diante, a vida do casal nunca mais seria a mesma, mas o crime ficara impune.
Um século depois, o senhor Egberto, de quase cinquenta anos de idade, viúvo há quatro anos de Ernestina, com quem vivera por dez anos, foi receber seu irmão Jaime, que ficara internado durante um ano, por tuberculose, e tivera alta hospitalar. Com ele, seguia sua atual esposa, Amenaide, que se encontrava grávida.
No retorno ao lar, Egberto teve uma visão assustadora da ex-esposa falecida, que se perturbara no mundo espiritual, movida por ciúme de Amenaide, em quem ela reconhecera sua assassina do passado e, por isso, buscara vingar-se.
Apavorado com a visão, o motorista tombou com o carro em despenhadeiro, causando a morte de Amenaide, de seu bebê em gestação e de Jaime. Egberto ficou muito ferido, mas sobreviveu. Jaime fora o capataz que arrancara os seios da ex-serva liberta, a mando da antiga senhora, a atual Amenaide, sua cunhada.
Quanto à criança, no plano espiritual, como seu perispírito já se fixara ao feto, que também possuía débitos passados com a Justiça Divina, ela foi submetida a uma cirurgia espiritual, semelhante à da cesariana. Em seguida, seria transferida para enfermaria especial, previamente preparada para recebê-la. Sua morte fora indolor e, durante algum tempo, o bebê seria amparado por bondoso espírito feminino, encarregado de assisti-lo, assim como ocorreria com Amenaide.
Conforme disse Allan Kardec, se o criminoso soubesse que ninguém morre e que seu crime não ficaria impune, ele jamais pensaria em exterminar a vida física de alguém. Pois, cedo ou tarde, torna-se o assassino implacavelmente perseguido por sua vítima, invisível para ele, mas carregada de ódio e desejo de vingança...
Por isso, disse Jesus: “Reconcilia-te com teu adversário, enquanto estás a caminho junto dele” (Mateus, 5:25); e: “Portanto, tudo o que queres que os homens te façam, faze também a eles, porque essa é a lei e os profetas” (Mateus, 7:12).





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