Debilitar o corpo com privações inúteis contraria a lei de Deus
ASTOLFO
O. DE OLIVEIRA FILHO
Uma
leitora de São Paulo (SP) pede-nos que comentemos o conceito de sacrifício à
luz da doutrina espírita. Na mensagem ela fez referência também a alguns
sacrifícios que, embora seja espírita, costuma fazer durante o período da
chamada Quaresma.
O
vocábulo sacrifício tem, conforme a etimologia, o sentido de se “fazer alguma
coisa sagrada”. Em seu sentido primitivo e unicamente religioso, representa uma
oferenda que se faz à Divindade por meio de rituais.
O
propósito declarado do sacrifício varia muito entre as diferentes culturas. Por
extensão, pode ele ser considerado como uma renúncia ou privação voluntária de
alguma coisa, como a privação dos gozos inúteis, que a doutrina espírita
considera ato meritório, porque desprende da matéria o homem e eleva sua
alma.
Resistir
à tentação que arrasta ao excesso ou ao gozo das coisas inúteis, tirar do que
temos para dar aos que carecem do bastante, fazer o bem aos nossos semelhantes
– eis algumas práticas que apresentam grande mérito dentro do rol das chamadas
privações voluntárias.
A
realização de sacrifícios religiosos está geralmente relacionada com as mortificações
e as penitências. O verbo mortificar é sinônimo de afligir, atormentar,
castigar, macerar o próprio corpo com penitências. A mortificação ocorreria
devido ao arrependimento ou à dor resultante do pecado que a pessoa tenha
cometido.
Em
função do arrependimento, certas autoridades religiosas impõem uma pena ao
arrependido para remissão de seus pecados, pena essa representada por jejuns,
orações, macerações do corpo e outras tantas mortificações inerentes às
manifestações de culto externo.
Em seu livro Elucidações Evangélicas, Antônio Luiz Sayão examina o assunto “penitência” e diz que essa prática é, segundo algumas religiões, necessária ao pecador que não deseja agravar sua culpa e tornar-se, por conseguinte, passível de maiores castigos.
A penitência, tal como a entendia Jesus, não consiste,
porém, na reclusão em claustros, nos cilícios e em outras tribulações
materiais. Ela consiste no arrependimento sincero e profundo e no propósito
firme em que a criatura se coloca de não tornar a cometer as faltas que a
arrastaram à mísera condição humana e esforçar-se por repará-las.
O
Espírito penitente – afirma Sayão – “absorve-se todo na oração e na vigilância
que Jesus recomendava e que formam uma espécie de antemural às ondas de paixões
que nos lançam no abismo do infortúnio”.
No
intuito de obter favores ou mesmo agradar a Deus ou aos Bons Espíritos, algumas
pessoas executam determinadas ações ou se impõem certas privações a que chamam
de promessa. Ora, as promessas já tiveram sua época e já vai distante o tempo
das supersticiosas imposições da teocracia. Ao seu reinado sucedeu o império da
inteligência e da razão, únicos fundamentos inabaláveis da fé esclarecida e
ativa. Sacrifícios, mortificações e promessas são, portanto, manifestações
materiais do culto externo, praticadas por pessoas ainda distantes das verdades
espirituais.
Falando
sobre a mortificação e seu mérito, aconselham os Espíritos superiores:
“Procurai saber a que ela aproveita”. “Se somente serve para quem a pratica e a
impede de fazer o bem, é egoísmo, seja qual for o pretexto com que entendam de
colori-la. Privar-se a si mesmo e trabalhar para os outros, tal a verdadeira
mortificação, segundo a caridade cristã.” (O Livro dos Espíritos, 721.)
Debilitar
o corpo com privações inúteis e macerações sem objetivo, torturar e martirizar
voluntariamente o corpo material são atos que, evidentemente, contrariam a lei
de Deus, porquanto enfraquecer o veículo corpóreo sem necessidade é verdadeiro
suicídio.
Sobre
o tema sugerimos a quem nos lê que consulte, também, as questões 669 a 673 d´O
Livro dos Espíritos, de Allan Kardec.
Nota
do Autor:
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