domingo, 14 de junho de 2026

 




Debilitar o corpo com privações inúteis contraria a lei de Deus 

 

ASTOLFO O. DE OLIVEIRA FILHO

aoofilho@gmail.com

 

Uma leitora de São Paulo (SP) pede-nos que comentemos o conceito de sacrifício à luz da doutrina espírita. Na mensagem ela fez referência também a alguns sacrifícios que, embora seja espírita, costuma fazer durante o período da chamada Quaresma.

Para os não afeitos à liturgia católica, lembramos que a Quaresma faz parte do ano litúrgico e compreende os 40 dias que vão da quarta-feira de cinzas até o domingo de Páscoa, período esse que deve ser destinado, por católicos e ortodoxos, à penitência. É aí, então, que dentro da penitência surge a ideia da realização de sacrifícios.

O vocábulo sacrifício tem, conforme a etimologia, o sentido de se “fazer alguma coisa sagrada”. Em seu sentido primitivo e unicamente religioso, representa uma oferenda que se faz à Divindade por meio de rituais.

O propósito declarado do sacrifício varia muito entre as diferentes culturas. Por extensão, pode ele ser considerado como uma renúncia ou privação voluntária de alguma coisa, como a privação dos gozos inúteis, que a doutrina espírita considera ato meritório, porque desprende da matéria o homem e eleva sua alma. 

Resistir à tentação que arrasta ao excesso ou ao gozo das coisas inúteis, tirar do que temos para dar aos que carecem do bastante, fazer o bem aos nossos semelhantes – eis algumas práticas que apresentam grande mérito dentro do rol das chamadas privações voluntárias.

A realização de sacrifícios religiosos está geralmente relacionada com as mortificações e as penitências. O verbo mortificar é sinônimo de afligir, atormentar, castigar, macerar o próprio corpo com penitências. A mortificação ocorreria devido ao arrependimento ou à dor resultante do pecado que a pessoa tenha cometido. 

Em função do arrependimento, certas autoridades religiosas impõem uma pena ao arrependido para remissão de seus pecados, pena essa representada por jejuns, orações, macerações do corpo e outras tantas mortificações inerentes às manifestações de culto externo.

Em seu livro Elucidações Evangélicas, Antônio Luiz Sayão examina o assunto “penitência” e diz que essa prática é, segundo algumas religiões, necessária ao pecador que não deseja agravar sua culpa e tornar-se, por conseguinte, passível de maiores castigos. 

A penitência, tal como a entendia Jesus, não consiste, porém, na reclusão em claustros, nos cilícios e em outras tribulações materiais. Ela consiste no arrependimento sincero e profundo e no propósito firme em que a criatura se coloca de não tornar a cometer as faltas que a arrastaram à mísera condição humana e esforçar-se por repará-las.

O Espírito penitente – afirma Sayão – “absorve-se todo na oração e na vigilância que Jesus recomendava e que formam uma espécie de antemural às ondas de paixões que nos lançam no abismo do infortúnio”. 

No intuito de obter favores ou mesmo agradar a Deus ou aos Bons Espíritos, algumas pessoas executam determinadas ações ou se impõem certas privações a que chamam de promessa. Ora, as promessas já tiveram sua época e já vai distante o tempo das supersticiosas imposições da teocracia. Ao seu reinado sucedeu o império da inteligência e da razão, únicos fundamentos inabaláveis da fé esclarecida e ativa. Sacrifícios, mortificações e promessas são, portanto, manifestações materiais do culto externo, praticadas por pessoas ainda distantes das verdades espirituais.

Falando sobre a mortificação e seu mérito, aconselham os Espíritos superiores: “Procurai saber a que ela aproveita”. “Se somente serve para quem a pratica e a impede de fazer o bem, é egoísmo, seja qual for o pretexto com que entendam de colori-la. Privar-se a si mesmo e trabalhar para os outros, tal a verdadeira mortificação, segundo a caridade cristã.” (O Livro dos Espíritos, 721.)

Debilitar o corpo com privações inúteis e macerações sem objetivo, torturar e martirizar voluntariamente o corpo material são atos que, evidentemente, contrariam a lei de Deus, porquanto enfraquecer o veículo corpóreo sem necessidade é verdadeiro suicídio.

Sobre o tema sugerimos a quem nos lê que consulte, também, as questões 669 a 673 d´O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec.

 

Nota do Autor:

Para ler o artigo do último domingo, clique em:  https://espiritismo-seculoxxi.blogspot.com/2026/06/lacos-de-familia-porque-as-vezes-sao.html

 

 

 

 


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