Irmão
X
(autor espiritual)
Existiu um rei, amigo da
sabedoria, que, depois de grande trabalho para subjugar a natureza inferior,
convidou um filósofo para socorrê-lo no aperfeiçoamento da palavra.
Conseguira indiscutível progresso na arte de
sublimar-se. Fizera-se portador de primorosa cultura e, tanto no ministério
público, quanto na vida privada, caracterizava-se por largos gestos de bondade
e inteligência.
Fazia quanto lhe era possível para exercer a
justiça, segundo os padrões da reta consciência, e demonstrava inexcedível
carinho na defesa e proteção do povo, através de reiteradas distribuições de lã
e trigo, a fim de que as pessoas menos favorecidas pela fortuna não sofressem
frio ou fome.
Não sabia acumular tesouros exclusivamente
para si e, em razão disso, obedecendo às virtudes sociais de que se fizera o
exemplo vivo, instituíra escolas e abrigos e incentivara a indústria e a
lavoura, desejando que todos os súditos, ainda os mais humildes, encontrassem
acesso à educação e à prosperidade.
No círculo das manifestações pessoais,
contudo, o valoroso monarca se sentia atrasado e hesitante.
Não sabia disfarçar a cólera, não continha a
franqueza rude e nem sopitava o mau humor.
Admirado e querido pelas qualidades sublimes
que pudera fixar na personalidade, sofria, no entanto, a mágoa e a desconfiança
de muitos que passaram a temer-lhe a frase contundente.
Interessado, porém, na própria melhoria,
solicitou ao filósofo que lhe acompanhasse a lide cotidiana.
Quando se descontrolava, caindo nas amargas
consequências do verbo impensado, o orientador observava, com humildade:
— Poderoso senhor, tenha paciência e continue
trabalhando no aprimoramento das próprias manifestações. A expressão serena e
sábia revela grandeza interior que reclama tempo para ser devidamente
consolidada. Quem alcança a ciência de falar, pode conviver com os anjos,
porque a palavra é, sem dúvida, a continuação de nós mesmos.
O monarca não se conformava e, em desespero
passivo, confiava-se a rigoroso silêncio, que prejudicava consideravelmente os
negócios do reino.
De semelhante posição vinha roubá-lo o
filósofo, advertindo, respeitoso:
— Amado soberano, a extrema quietude pode
traduzir traição aos nossos deveres. A pretexto de nos reformarmos
espiritualmente, não será lícito desprezar os nossos compromissos com o
progresso comum. Fale sempre e não desdenhe agir! O verbo é a projeção do
pensamento criador.
O rei voltava a conversar, beneficiando o
extenso domínio que lhe cabia dirigir, mas lá chegava outro momento em que se
perdia na indignação excessiva, humilhando e ferindo ministros e vassalos que
desejaria ajudar sinceramente.
Lamentando-se, aflito, vinha o filósofo
conselheiral, afirmando, prestimoso:
— Grande soberano, tenha paciência consigo
mesmo. O reajustamento da alma não é obra para um dia. Prossiga, esforçando-se.
Toda realização pede o concurso abençoado das horas… O rio deixaria de existir
sem a congregação das gotas… Guarde calma, muita calma e não desanime…
O monarca, no entanto, desacoroçoado, depois
de regular experimentação com o filósofo, exonerou-o das funções que ocupava e
expediu dois emissários às suas províncias extensas para que lhe trouxessem a
palácio algum homem incapaz de se irritar. Pretendia entrar em contato com o
espírito mais equilibrado de suas terras, a fim de melhor orientar-se no
autoburilamento.
Os mensageiros iniciaram as investigações,
mas impacientavam-se desiludidos. O homem que observavam ponderado na via
pública era colérico no lar. Quem se revelava gentil em casa, costumava irar-se
na rua. Alguns se mostravam distintos e agradáveis junto da família
consanguínea, todavia, eram azedos no trato social. Diversos exibiam formosa
máscara de serenidade com os estranhos, no entanto, dirigiam-se aos domésticos
com deplorável aspereza.
Depois de trinta dias de porfiada pesquisa,
descobriram, jubilosos, o homem que nunca se exasperava.
Seguiram-no, cuidadosamente, em toda parte.
Nunca falava alto e mantinha silêncio
comovedor, no domicílio que lhe era próprio e fora dele.
Durante quatro semanas foi examinado sob
atenção vigilante, não perdendo um til na conduta irrepreensível.
Trabalhava, movimentava-se, alimentava-se e
atendia aos menores deveres, imperturbavelmente.
Apressaram-se os mensageiros em levar a
boa-nova ao monarca, e o rei, satisfeito, convocou assessores e áulicos de sua
casa para receber a personagem admirável, com a dignidade que lhe era devida.
O vassalo venturoso foi trazido à real
presença, entretanto, quando o soberano lhe dirigiu a palavra, esperando
encontrar um anjo num corpo de carne, verificou, sob indefinível assombro, que
o homem incapaz de irritar-se era mudo.
Sob o respeito manifesto de todos, o rei
sorriu, desapontado, e mandou buscar novamente o filósofo, resignando-se a ter
paciência consigo mesmo, a fim de aprender a conquistar-se pouco a pouco.
Do livro Contos e apólogos, obra
psicografada pelo médium Francisco Cândido Xavier.
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