domingo, 7 de abril de 2019




No tocante à doutrina espírita, a teoria nasceu da observação

É sempre oportuno lembrar como a doutrina espírita foi elaborada, para que todos os que escrevem sobre Espiritismo e, sobretudo, os que mantêm intercâmbio com o plano espiritual tenham um pouco mais de cuidado com pensamentos e ideias que surgem, vez por outra, em nosso meio, em discordância com a obra que Allan Kardec nos legou.
No capítulo de abertura de seu livro A Gênese, Kardec reportou-se ao assunto. O que adiante o leitor verá é uma espécie de síntese do que ele próprio escreveu a propósito do trabalho que realizou em sua tarefa de codificação dos ensinamentos espíritas.
Como meio de elaboração, a ciência espírita procedeu e deve proceder de forma idêntica à adotada pelas ciências positivas, aplicando o método experimental. Fatos novos que não podem ser explicados pelas leis conhecidas se apresentam; o Espiritismo os observa, compara, analisa e, remontando dos efeitos às causas, chega à lei que os rege; depois, deduz-lhes as consequências e busca as aplicações úteis.
Allan Kardec não estabeleceu, portanto, nenhuma teoria preconcebida e, desse modo, não apresentou como hipóteses a existência e a intervenção dos Espíritos, nem o perispírito, nem a reencarnação, nem qualquer dos princípios da doutrina. Concluiu pela existência dos Espíritos quando essa existência ressaltou evidente da observação dos fatos, procedendo de igual maneira quanto aos outros princípios. Não foram, pois, os fatos que vieram a posteriori confirmar a teoria: a teoria é que veio subsequentemente explicar e resumir os fatos. É, portanto, rigorosamente exato dizer que o Espiritismo é uma ciência de observação e não produto da imaginação.
Como sabemos, as ciências só fizeram progressos importantes depois que seus estudos se basearam sobre o método experimental; até então, pensou-se que esse método só era aplicável à matéria, ao passo que o é também às coisas metafísicas. Essa foi uma descoberta importante que, com certeza, evitou que a doutrina espírita se encharcasse de ideias sem nenhum apoio na experimentação.
Kardec menciona, a propósito do assunto, o exemplo abaixo.
Ocorre no mundo dos Espíritos um fato singular, de que seguramente ninguém houvera suspeitado: o de haver Espíritos que não se consideram mortos. Ora, os Espíritos superiores, que sabem perfeitamente disso, não vieram dizer antecipadamente: «Há Espíritos que julgam viver ainda a vida terrestre, que conservam seus gostos, costumes e instintos». Em vez disso, provocaram a manifestação de Espíritos dessa categoria para que Kardec e seus companheiros espalhados pelos diversos pontos do globo os observassem.
Tendo-se visto Espíritos incertos quanto ao seu estado, ou afirmando ainda serem deste mundo, julgando-se aplicados às suas ocupações ordinárias, deduziu-se a regra. A multiplicidade de fatos análogos demonstrou que o caso não era singular ou excepcional, que constituía uma das fases da vida espírita. Pôde-se então estudar todas as variedades e as causas de tão singular ilusão, reconhecendo-se que esse fato é, sobretudo, próprio de Espíritos pouco adiantados moralmente e peculiar a certos gêneros de morte. Percebeu-se ainda que essa situação é sempre temporária, conquanto possa durar semanas, meses e até anos. Foi desse modo que a teoria nasceu da observação. E o mesmo se deu com relação a todos os outros princípios da doutrina.
Esse foi, seguramente, um dos motivos pelos quais José Herculano Pires escreveu estas palavras: “O toque é a forma mais comum de verificação da verdade. Usa-se o toque na Medicina, na Agricultura, na Joalheria — onde é tão conhecida a função da pedra de toque — e praticamente em todas as atividades humanas. Foi pelo toque dos dedos nas chagas que Tomé reconheceu a legitimidade da aparição de Jesus ressuscitado. No Espiritismo a pedra de toque é a obra de Kardec”. (Na Hora do Toque, em A Pedra e o Joio.)
Os outros motivos pelos quais a obra de Kardec é considerada por Herculano Pires a pedra de toque em matéria de Espiritismo, o leitor verá lendo o livro a que nos reportamos.





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