quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O juízo final na visão de Élcio Soares e Nelson Cavaquinho


GEBALDO JOSÉ DE SOUSA
gebaldojose@uol.com.br
De Goiânia-GO

Copiando o Astolfo Olegário – que ele me perdoe! – digo que, entre “as mais belas canções que ouvi”, figura “Juízo final”, de Nelson Cavaquinho e Élcio Soares. Ei-la:

"O sol há de brilhar mais uma vez;
A luz há de chegar aos corações;
Do mal será queimada a semente:
O amor será eterno novamente!

E o juízo final
– A história do Bem e do Mal –,
Quero ter olhos pra ver:
A maldade desaparecer!”

Esta síntese belíssima, de pura poesia, fala de esperança, de um amanhã de plena paz, tal como preconizado por Jesus!
As interpretações de D. Ivone Lara, de Clara Nunes e do próprio Nelson são minhas preferidas e podem ser ouvidas no You Tube. Muitas outras, apesar de excelentes, deturpam a letra.
Além dessa, há inúmeras outras obras-primas de Nelson Cavaquinho com diversos parceiros, entre as quais destaco “A Flor e o Espinho”, “Rugas”, “Folhas Secas”, “Quando eu me chamar saudade”, “O Bem e o Mal”, “Minha Festa”; e há muitas mais!
Reproduzimos excertos de um texto do pesquisador José Ramos Tinhorão, escrito para sua coluna no Caderno B do Jornal do Brasil (4/1/1974), quando do lançamento do disco de Nelson:

A boa palavra de Nélson Cavaquinho

Nos últimos anos, com a descoberta dos grandes criadores das camadas populares por parte da juventude de nível universitário, o compositor Nelson Cavaquinho passou a ser reconhecido oficialmente como gênio.
Essa fama, porém, começava a perigar porque, apesar da legenda criada em torno da figura do curioso trovador de cabelos brancos, faltava uma prova em disco. É essa prova que a Odeon vem oferecer agora com o seu LP Nelson Cavaquinho (smofb-8 809), e que constitui, mais do que um documento de genialidade, uma obra de amor. Pela primeira vez em seus quarenta anos de compositor, Nelson Cavaquinho é tratado com a compreensão e o respeito que o seu rústico talento merecia – e estava precisando.
(...)
Logo na primeira faixa do disco (samba Juízo Final em parceria com Élcio Soares), o compositor oferece uma prova disso quando canta – com um otimismo que situa simbolicamente o povo muito acima do medo e da falta de horizontes que assustam as estruturas – “O sol há de brilhar mais uma vez/A luz há de chegar aos corações/Do mal será queimada a semente/O amor será eterno novamente”. Com um profundo sentido metafísico da necessidade de viver – pois que viver é, afinal, o ofício do homem – Nelson Cavaquinho mostra que nessa tarefa é sempre preciso fazer uma escolha, e mesmo quando ela deve ser feita entre o bem e o mal, enquanto houver esperança, ninguém se perderá: “Nunca é tarde pra quem sabe esperar/O que se espera há de se alcançar/Eu plantei o bem e vou colher o que mereço/A felicidade deve ter meu endereço”. (O Bem e o Mal em parceria com Guilherme de Brito). E o impressionante em Nelson Cavaquinho é que todas essas coisas são ditas musicalmente com uma extraordinária coerência: se a sua melodia é quase sempre repassada de nostalgia, o ritmo em que se apoia é invariavelmente vigoroso, como se estivesse querendo demonstrar, também em sons, que acima das incertezas da alma, ainda uma vez, está a necessidade da vida.” (Texto publicado originalmente no Jornal do Brasil, Caderno B, Rio de Janeiro, sexta-feira, 4/1/1974, p. 2; extraído do livro “Tinhorão, o legendário” - Anexo X – p. 227 a 230, de Elizabeth Lorenzotti, Editora IMESP, São Paulo, 2010.)

Para finalizar, eis pequeno trecho de Sérgio Cabral, na contracapa do LP “Depoimento do Poeta” – gravado em 1970 e relançado em 1974:
“(...) Aqui, vocês ouvirão a voz, as melodias e as letras de (não é modo de falar, não. É verdade) um gênio. A obra de um cara que não sofre da neurose da sobrevivência profissional. De um artista puro e integral.”
É obra, pois, que deve ser divulgada e conhecida por todos que amam a música em geral e, em especial, a verdadeira música brasileira, tão rica, harmoniosa e bela e que – pasmem! – não é divulgada como merecem, ela e a nossa gente!


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