segunda-feira, 26 de junho de 2023

 



Entre os Dois Mundos

 

Manoel Philomeno de Miranda

 

Parte 6

 

Damos prosseguimento ao estudo metódico e sequencial do livro Entre os Dois Mundos, obra de autoria de Manoel Philomeno de Miranda, psicografada por Divaldo P. Franco em 2004.

Este estudo é publicado neste blog sempre às segundas-feiras.

Eis as questões de hoje:

 

46. Quem eram os visitantes que foram introduzidos no recinto e, de imediato, se aproximaram do obsessor de Laércio?

Eram a antiga esposa e os dois filhos de Jean-Jacques, que vieram até ali com o objetivo de resgatá-lo para o bem e o perdão. Quando os viu, totalmente transfigurado pela surpresa e pela alegria, ele atirou-se nos braços da entidade aureolada de peregrina luz. “Chegou o momento, meu amado, de encerrarmos este capítulo infeliz da nossa história” – disse-lhe a mulher, com um timbre de voz dulçuroso. “Aqui estamos, as vítimas da terrível carnificina do passado, a fim de can­tarmos nosso hino de gratidão ao Senhor Jesus, que nos convidou a servi-lo mediante a doação da própria vida.” (Entre os dois mundos. Capítulo 12: Terapia desobsessiva.)

47. Qual foi a reação de Jean-Jacques, em face do que a esposa amada lhe disse?

O infortunado Espírito desabafou: “Perdoa-me, tu, querida! eu não sabia que havíeis conseguido os céus, tu e meus filhinhos, as vítimas mais sofredoras do crime, enquanto eu me precipitara no inferno onde reina somente o ódio. Não imaginava que um dia, na condição de anjo do amor, virias com eles, os rebentos idolatrados daqueles dias de sombra, buscar-me no abismo em que tombei, devorado pela aluci­nação da vingança. Perdoa-me, e balsamiza-me o coração queimado pelas chamas terríveis do rancor que, momen­to a momento, mais me comburem.” (Obra citada. Capítulo 12: Terapia desobsessiva.)

48. Presente no recinto, Laércio (François-Pierre) assistiu ao reencontro do seu obsessor com a esposa e os filhos?

No início, porque estava adormecido, nada viu. Mas, assim que Ângelo o despertou, tocado pela beleza do reencontro, rememorou a infe­licidade, e, tomado de sincero arrependimento, ajoelhou-se e suplicou à veneranda visitante: “Eu estava louco e louco prossigo. Tem também compaixão de mim, ajudando-me a sair deste vórtice que me conduz ao aniquilamento total. Sinto que é tarde de­masiado para mim, após haver perdido a reencarnação. Piedade, portanto, eu suplico”. A vítima redimida deixou o esposo por um instante e ergueu o algoz antigo, falando-lhe com incomum sentimen­to de compaixão: “Sempre há tempo para recomeçar, e este é o início de um novo processo. Levanta-te, para somente ajoelhar­-te diante do Supremo Juiz que é todo amor. Avançaremos juntos, e em razão da divina concessão, tu e Jean-Jacques recomeçareis juntos mais tarde a trajetória de iluminação e de liberdade”. (Obra citada. Capítulo 12: Terapia desobsessiva.)

49. Os familiares de Jean-Jacques continuaram desencarnados, no estado de erraticidade, desde os acontecimentos ocorridos na França, quando os huguenotes foram cruelmente perseguidos pelos católicos?

Não. A esposa, os filhos e o próprio Jean-Jacques reencarnaram depois daqueles acontecimentos. A reencarnação de Jean-Jacques foi, contudo, tormentosa, enquanto as dos familiares caracterizaram-se por experiências enobrecedoras que mais os fizeram crescer. Essa é a causa da diferença entre as condições espirituais dele e as da mulher e seus filhos. (Obra citada. Capítulo 13: Doutor Emir Tibúrcio Reis, o missionário.)

50. O tempo exerce papel importante na regeneração do culpado?

Sim. Mas, segundo José Petitinga, não devemos esquecer que o tempo real para o espírito não é aquele medido por meio de fusos horários. É o que diz respeito ao pensamento e às vivências espirituais. Eis por que a mensuração, nas emoções do amor e do ódio, é feita por intermédio das suas variantes ou permanentes expressões adotadas. (Obra citada. Capítulo 13: Doutor Emir Tibúrcio Reis, o missionário.)

51. Como era a psicosfera reinante no hospital psiquiátrico dirigido pelo dr. Emir Tibúrcio Reis?

Vibrações de variado teor de energias envolviam o hospital. Enquanto ressumava ondas sucessivas de coloração escura exalando odores desagradáveis, era ele bene­ficiado por lampejos semelhantes aos raios que dissolviam parte da densidade, abrindo campo para que jorros de clari­dade multicor penetrassem nas instalações materiais. No local, a movimentação de encarnados e de desencarnados era muito grande. Além dos numerosos adversários desencarnados que se mis­turavam com os pacientes, outros espíritos vadios e promíscuos ali se utilizavam das circunstâncias para locupletar-se nas viciações mentais condensadas em formas agressivas e pastosas, frutos da ideoplastia enfermiça dos in­ternados. Em compensação, também se encontravam ali infatigáveis trabalhadores desencarnados, em atividade beneficente. Eram enfermeiros cuidadosos, familiares abnegados, médicos devotados, men­sageiros da saúde e do amor, sustentando as estruturas mo­rais, psíquicas e espirituais do sanatório. (Obra citada. Capítulo 13: Doutor Emir Tibúrcio Reis, o missionário.)

52. A quem devemos os primeiros estudos sobre a esquizofrenia?

A Eugen Breuler, o inesquecível psiquiatra suíço. O conceito sobre esquizofrenia foi então, a partir disso, introduzido na Psiquiatria como uma fragmentação das funções mentais. Emil Kraepellin, psiquiatra alemão, denominou-a como uma demência precoce. Atualmente, porém, ambos os conceitos são considerados incorretos por muitas autoridades psiquiátricas, por consi­derarem tratar-se de um distúrbio muito complexo e não necessariamente uma fragmentação das funções men­tais. Na impossibilidade de definir-se as causas particulares, esses fatores foram sintetizados em biológicos, psicológicos e sociais, que incluem as mudanças químicas no cérebro, a hereditariedade e os fatores genéticos. (Obra citada. Capítulo 13: Doutor Emir Tibúrcio Reis, o missionário.)

53. Como é hoje conceituada a esquizofrenia?

Ainda não se pôde padronizar o conceito de esquizofrenia, que é considerada, mais modernamente, como uma síndrome, como um grupo de psicoses endógenas, resultado do mecanismo da hereditariedade, surgindo muito cedo, de acordo com o ambiente familiar, os impositivos da vida que geram desestruturação da personalidade e desestabilidade da informação e da comunicação, cujas raízes psicológicas encontram-se na pessoa e surgem quase sempre como efeito de conflitos na convivência e na conduta. (Obra citada. Capítulo 13: Doutor Emir Tibúrcio Reis, o missionário.)

54. Considerando que, além dos fatores apontados pelos psiquiatras, há na esquizofrenia um componente espiritual, como o dr. Emir Tibúrcio Reis a define?

Ele a define assim: Primeiro, como um transtorno espiritual, que se manifesta no corpo físico, por uma série de desequilíbrios decorrentes da necessidade de o espírito resgatar os delitos praticados em existências anteriores. Trata-se, nesse caso, de um distúrbio orgânico, já que foram impressas no aparelho fisiológico todas as necessidades para a liberação. Segundo: um processo de natureza obsessiva, em que o agente perturbador, hospedando-se no perispírito do seu inimigo, aquele que antes o infelicitou, atormenta-o, apresenta-se-lhe vingador, desorganiza-o interiormente, desestabiliza as co­nexões neuroniais, produz-lhe outras disfunções orgânicas, delírios, alucinações. Terceiro: um processo misto, no qual o enfermo fisiológico é também vítima de cruel perse­guição, tornando-se obsidiado simultaneamente. (Obra citada. Capítulo 13: Doutor Emir Tibúrcio Reis, o missionário.)

 

 

Observação:

Para acessar a Parte 5 deste estudo, publicada na semana passada, clique aqui: https://espiritismo-seculoxxi.blogspot.com/2023/06/entre-os-dois-mundos-manoel-philomeno_0170611948.html

 

 

 

 

 

 

 

 

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domingo, 25 de junho de 2023

 



O passe magnético e suas limitações 

 

ASTOLFO O. DE OLIVEIRA FILHO

aoofilho@gmail.com

 

Quatro são as causas principais que limitam a ação fluídica curadora, o que explica por que nem sempre o passe magnético logra obter num determinado caso o que noutra circunstância foi conseguido.

Em 1866, ao tratar das curas realizadas pelo Sr. Henri Jacob, Allan Kardec explicou que existe uma diferença radical entre os médiuns curadores e os receitistas. Enquanto estes tão somente receitam remédios, os primeiros curam os enfermos por meio da ação fluídica, em mais ou menos tempo, sem o emprego de qualquer remédio. O poder curativo está todo no fluido depurado a que servem de condutores. A aptidão para curar, diz Kardec, é inerente ao médium, mas o exercício da faculdade só se dá com o concurso dos Espíritos, de onde se segue que, se os Espíritos não querem, o médium é como um instrumento sem músico e nada obtém. Ele pode, pois, perder instantaneamente a sua faculdade, o que exclui a possibilidade de transformá-la em profissão. (Revista Espírita de 1866, págs. 347 e 348.)

Kardec relaciona, na sequência do estudo, os casos em que a ação fluídica é impotente para promover a cura.

A ação fluídica, diz ele, pode dar sensibilidade a um órgão, fazer dissolver e desaparecer um obstáculo ao movimento e à percepção, cicatrizar uma ferida, porque nesses casos o fluido torna-se um verdadeiro agente terapêutico, mas é evidente que não pode remediar a ausência ou a destruição de um órgão, o que seria um verdadeiro milagre. Assim, a vista poderá ser restaurada a um cego por amaurose, oftalmia, belida ou catarata, mas não a quem tivesse os olhos estalados. Há, portanto, doenças fundamentalmente incuráveis e seria ilusão crer que a mediunidade curadora vá livrar a Humanidade de todas as suas enfermidades. (Idem, págs. 348 e 349.)

De forma resumida, podemos dizer então, com base nos ensinamentos espíritas, que quatro são as causas principais que limitam a ação fluídica curadora:

 

1.   Falta de fé ou de receptividade do paciente

2.   Comportamento do enfermo

3.   A natureza do problema ou da enfermidade

4.   A lei de causa e efeito.

 

A falta de fé ou de receptividade do paciente

Diz Martins Peralva, em seu extraordinário Estudando a Mediunidade, cap. XXVII, que existem criaturas que oferecem extraordinária receptividade aos fluidos magnéticos. São aquelas que possuem “fé robusta e sincera, recolhimento e respeito ante o trabalho que, a seu e a favor de outrem, se realiza”.

Na pessoa de fé, no momento em que recebe o passe, sua mente e seu coração funcionam à maneira de poderoso ímã, “atraindo    e   aglutinando   as   forças curativas”. “Já com o descrente, o irônico e o duro de coração – esclarece Peralva - o fenômeno é naturalmente oposto.”

A explicação desse fato é dada pelo instrutor Aulus na seguinte passagem constante do livro Nos Domínios da Mediunidade, cap. 17, de autoria de André Luiz:

 “Alinhando apontamentos, começamos a reparar que alguns enfermos não alcançavam a mais leve melhoria. As irradiações magnéticas não lhes penetravam o veículo orgânico.

Registrando o fenômeno, a pergunta de Hilário não se fez esperar.

- Por quê?

- Falta-lhes o estado de confiança – esclareceu o orientador.

- Será, então, indispensável a fé para que registrem o socorro de que necessitam?

- Ah! sim. Em fotografia precisamos da chapa impressionável para deter a imagem, tanto quanto em eletricidade carecemos do fio sensível para a transmissão da luz. No terreno das vantagens espirituais, é imprescindível que o candidato apresente uma certa tensão favorável. Essa tensão decorre da fé.”

Eis aí o motivo pelo qual a falta de fé do paciente constitui um dos fatores limitativos da ação fluídica curadora, fato conhecido ao tempo de Jesus, como narra o Evangelho de Marcos (cap. 6:3-6), segundo o qual Jesus curou pouquíssimos enfermos em Nazaré por causa da incredulidade de seu povo. E foi o próprio Jesus quem, admirado com a descrença de sua gente, cunhou ali uma frase que se tornaria famosa e conhecida até em nossos dias: “Ninguém é profeta em sua terra”.

 

O comportamento do enfermo

Muitas vezes, quando não impede a eficácia da ação fluídica curadora, o comportamento do paciente acaba concorrendo para a reincidência do mal, como tem sido mostrado inúmeras vezes nas obras espíritas. Refere Allan Kardec, na Revista Espírita de 1865, págs. 205 e 206, o caso de um jovem cego que havia sido recolhido por um espírita dedicado que se propôs curá-lo por meio do magnetismo, pois os Espíritos haviam dito que sua cura era possível. O tratamento não surtiu, contudo, nenhum resultado, porque o jovem, em vez de se mostrar reconhecido pela bondade do amigo, só manifestou ingratidão e mau procedimento, dando provas do pior caráter.

São Luís, dirigente espiritual da Sociedade Espírita de Paris, explicou que, de fato, a enfermidade do rapaz era curável. Uma magnetização espiritual praticada com zelo, devotamento e perseverança certamente teria êxito, e sua visão teria sensível melhora, se os maus fluidos de que estava cercado não opusessem um obstáculo à penetração dos bons fluidos. “No estado em que se encontra – acrescentou São Luís –, a ação magnética será impotente enquanto, por sua vontade e sua melhora, não se desembaraçar desses fluidos perniciosos.”

Um retorno sério daquele moço sobre si mesmo era a única coisa que poderia tornar eficazes os cuidados de seu magnetizador; do contrário, perder-se-ia o pouco de luz que lhe restava e novas provações o acometeriam.

Três exemplos de como o comportamento do enfermo pode ser causa de distúrbios orgânicos, e até mesmo inviabilizar a cura, podemos colher no livro Missionários da Luz, págs. 326 a 333, de André Luiz:


1) Uma mulher adentrou o Centro Espírita portando uma nuvem negra na região do coração, mais especificamente na área da válvula mitral. A mente, como sabemos, pode intoxicar-se com as emissões mentais daqueles com quem convive. A mulher tivera naquele dia sérios atritos com o esposo. Com o passe, a porção de matéria negra deslocou-se e veio aos tecidos da superfície, espraiando-se sob a mão irradiante, ao longo da epiderme. Se os atritos domésticos persistissem, o efeito mórbido poderia refletir-se sobre o corpo somático, produzindo uma lesão de consequências imprevisíveis.

2) Na mesma Casa Espírita, o grupo de médiuns passistas assistiu um certo homem tão irritadiço e invigilante que seus rins pareciam envolvidos em crepe negro, tal a densidade de matéria mental fulminante que os cercava.

3) Um cavalheiro idoso, tratado em seguida, apresentava o fígado e o baço em enorme desequilíbrio; contudo, apesar de seu estado, o passe só lhe daria naquela noite alívio, não a cura. Eis a explicação do mentor espiritual: "Após dez vezes de socorro completo, é preciso deixá-lo entregue a si mesmo, até que adote nova resolução". Aquele homem era portador de um temperamento menos simpático e extremamente caprichoso. Estimava as rixas frequentes, as discussões apaixonadas, o império de seus pontos de vista. Encolerizava-se com facilidade e despertava a cólera e a mágoa dos que lhe desfrutavam a companhia. Deveria, pois, ficar por algum tempo entregue a si mesmo. Quem sabe a dor e o sofrimento não lograriam o sucesso que as curas anteriores não conseguiram?

 

A natureza do problema ou da enfermidade

Como vimos inicialmente, Kardec diz, na Revista Espírita de 1866, pág. 349, que existem doenças fundamentalmente incuráveis e seria ilusão crer que a mediunidade curadora vá livrar a Humanidade de todas as suas enfermidades. Ter em conta a natureza do problema ou da enfermidade do paciente constitui, portanto, medida necessária a quem se proponha tratar das pessoas por meio da ação fluídica curadora.

Além do caso referido no preâmbulo – ausência ou a destruição de um órgão – é preciso ter em mente que a ação fluídica é incapaz, por si só, de resolver os distúrbios ocasionados pela consciência culpada e os processos obsessivos mais graves, como a subjugação. O caso Mário Silva, relatado por André Luiz em seu livro Entre a Terra e o Céu, cap. 34, págs. 224 a 226, é bem ilustrativo disso.

Mário, impressionado com a morte do menino Júlio (que fora seu companheiro de peripécias anteriores por ocasião da Guerra do Paraguai), conservava aflitivo complexo de culpa e tinha seu pensamento ligado ao falecido, à maneira de imagem fixada na chapa fotográfica. Tendo passado o dia acamado, sob extrema perturbação, sentia-se vencido, envergonhado. André Luiz perguntou a Clarêncio se não seria possível socorrê-lo com passes magnéticos, ao que o Ministro respondeu, seguro de si: "O auxílio dessa natureza ampara-lhe as forças, mas não resolve o problema. Silva deve ser atingido na mente, a fim de melhorar-se. Requisita ideias renovadoras e, no momento, Antonina é a única pessoa capaz de reerguê-lo com mais segu­rança". E acrescentou: "Tudo na vida tem a sua razão de ser. Noutra época, Silva, na personalidade de Esteves, aliou-se a Antonina, então na experiência de Lola Ibarruri, para se afogarem no prazer pecaminoso, com esquecimento das melhores obrigações da vida. Atualmente, estarão reunidos na recuperação justa. Os que se associam na leviandade, à frente da Lei, acabam esposando enormes compromissos para o reajustamento necessário. Ninguém confunde os princípios que regem a existência".

A mesma limitação da ação fluídica, verificada em situações como a de Mário Silva, registra-se nos casos de subjugação, como o relatado na Revista Espírita de 1865, págs. 4 a 18, pelo Sr. Dombre, a respeito das crises convulsivas experimentadas por Valentine Laurent, de 13 anos. As crises, além de se repetirem várias vezes por dia, eram de tal violência que cinco homens tinham dificuldade de manter a jovem na cama. Tratava-se de um caso obsessivo dos mais graves, produzido pelo Espírito de Germaine. Valentine era sensível ao tratamento recebido do Sr. Dombre por meio da imposição de mãos, mas, tão logo ele se afastava, voltavam as crises. Depois do tratamento por meio de passes magnéticos e de hábeis instruções transmitidas a Germaine – o Espírito que perturbava Valentine –, o processo obsessivo chegou ao fim e tudo se explicou.

À margem do caso, Kardec indaga: “Para que teria servido o magnetismo se a causa tivesse subsistido?” Era preciso primeiro destruir a causa, antes de atacar os efeitos, ou, pelo menos, agir sobre ambos simultaneamente, ensina o Codificador, mostrando que o magnetismo, por si só, é incapaz de curar as obsessões graves, entendimento que ele reiteraria na edição definitiva d’ O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. 28, item 81.

 

A lei de causa e efeito

A lei de causa e efeito não é, como muitos pensam, uma inovação, uma invenção do Espiritismo. Jesus a ela se reportou em várias oportunidades. Numa delas, ensinou o Mestre que a cada um será dado conforme as suas obras. Em outra passagem, como registra o Evangelho de Mateus (cap. 26:52), o Senhor, ao pedir que Pedro guardasse sua espada, afirmou que todos os que lançarem mão da espada à espada morrerão.

Ensina Allan Kardec, na Revista Espírita de 1868, pág. 85, que a maioria das moléstias, como todas as misérias humanas, são expiações do presente ou do passado, ou provas para o futuro. No primeiro caso, decorrem de dívidas contraídas, cujas consequências devem ser suportadas até que tenham sido resgatadas. Não pode, obviamente, ser curado aquele que deve passar por uma prova que não chegou ainda ao seu final.

A mesma tese, que por sinal não constitui nenhuma novidade para os estudiosos do Espiritismo, havia sido defendida no ano anterior, na Revista Espírita de 1867, págs. 190 a 193, pelo Espírito de Quinemant, que tece, numa importante comunicação, considerações valiosas em torno do magnetismo e do Espiritismo. Depois de lembrar que a doença material é um efeito e, enquanto persistir a causa, produzirá esta novos efeitos mórbidos, o que inviabiliza a cura, o comunicante descreve a íntima relação que existe entre o Espiritismo, a mediunidade e o magnetismo, que, desenvolvido pelo Espiritismo, “é a chave da abóbada da saúde moral e material da humanidade futura”.

Aí está, portanto, um dos motivos mais frequentes de limitação da ação magnética curadora, que deve ser levado sempre em consideração pelas pessoas que buscam ajuda nas Casas Espíritas. Em tudo é preciso paciência, e é esta que faz com que a pessoa enferma prossiga até o fim, fazendo a parte que lhe toca, sem desânimo, certa de que, quando soar o momento, seu objetivo será alcançado.

 

 

 

 

 

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sábado, 24 de junho de 2023

 



À luz da fé

 

JORGE LEITE DE OLIVEIRA

jojorgeleite@gmail.com

 

Alma amiga, hoje retomamos um tema que sempre me atraiu: Fé e vida, o mesmo de obra inédita de Chico Xavier, publicado recentemente pela Federação Espírita Brasileira.

O que é a fé? Na visão das religiões, é a crença em dogmas e “artigos de fé”. Ela pode ser cega ou raciocinada, segundo o entendimento espírita.

A fé cega, diz Allan Kardec, “produz o fanatismo”. Mas “não basta ver”, explica ele, “é preciso, sobretudo, compreender”. Por fim, o codificador da Doutrina Espírita afirma que “Fé inabalável é somente a que pode enfrentar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade”.

Segundo um espírito protetor, no capítulo 19 d’O Evangelho segundo o Espiritismo, a fé é humana e é divina. Somos movidos pela vontade. O que faz a diferença, em nossa vida, é o querer. Por isso diz o provérbio: “querer é poder”, ou seja, precisamos nos manter sempre motivados, pois quando se perde a motivação, pouco a pouco vamos perdendo tudo, até mesmo a vontade de viver. Nesse tempo, a fé já não está conosco.

Negar a vida, porém, é simples perda de tempo, pois viveremos eternamente, e a evolução é nosso destino. A vida é dom divino que não exclui nenhum filho de Deus, que todos nós o somos, creiamos ou não nisso.

Esta é a fé humana: a confiança em si mesmo... Como disse o espírito supracitado: “O Cristo, que operou milagres materiais, mostrou, por esses milagres mesmos, o que pode o homem, quando tem fé, isto é, a vontade de querer e a certeza de que essa vontade pode obter satisfação”.

Se o homem se esforça na conquista de um objetivo, e sente em si mesmo que possui as forças necessárias para alcançá-lo, isso o torna confiante na vitória. Assim também ocorre com quem possui fé na vida post mortem e resolve dedicar sua existência corporal ao bem. Essa fé divina permite a quem a possui realizar prodígios de devotamento e de abnegação ao próximo, o que caracteriza o verdadeiro entendimento do que seja a caridade, ou amor em ação.

O espírito Emmanuel demonstra o poder da fé e do amor humanos quando diz: “Compreendendo-se que a Justiça divina ignora privilégios, todos aqueles que se decidem a servir são escolhidos por efeito da própria escolha” (in: Fé e vida, cap. 3).

Como acabas de ler, alma amiga, Deus não privilegia quem diz ter a fé religiosa e, sim, aquele em quem a fé se expressa em obras. A diferença está apenas na vontade. Se esta é a de César, permanecerá com ele, na Terra; se é a de Deus, realizará prodígios não só na Terra como também no Céu, onde as “almas eleitas” se encontram e usufruem da felicidade dos justos.      

Eis o que diz o espírito Maria Dolores sobre a fé, na obra cujo título é seu nome, psicografada por Chico Xavier: Palavras da fé

 

Nunca te dês por inútil,

Mesmo em ação de alto nível,

Não afirmes: “impossível”,

Nem te digas sem valor,

Deus em ti é a própria vida,

Mantendo-te, instante a instante,

Em doação incessante,

Por fonte viva de amor.

 

Não és um astro, no entanto,

Tens a força estranha e bela

De acender a luz da vela,

Dissipando a escuridão.

Não inventaste a semente,

Nem a romã cetinosa,

Não sabes tecer a rosa,

Mas podes assar o pão.

 

Não fulguras qual brilhante

Nem tens a força do vento

Em redemoinho violento,

Quando ruge a destruir;

Mas tens o conhecimento

De quem guia a natureza,

Exterminando a tristeza,

No dom de fazer sorrir.

 

Não esmoreças no mundo,

Trabalha, ajuda, esclarece,

Tens o verbo, a voz, a prece,

São sem conta os dotes teus;

Ampara, acalma e perdoa,

Qualquer migalha do bem

Na Terra e no Mais Além,

É benção do amor de Deus.

 

Vem, pois, comigo à luz da fé em nossa vida imortal, alma irmã!

 

Acesse o blog: www.jojorgeleite.blogspot.com

 

 

 



 

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sexta-feira, 23 de junho de 2023

 



No Invisível

 

Léon Denis

 

Parte 22

 

Damos prosseguimento ao estudo metódico e sequencial do clássico No Invisível, de Léon Denis, cujo título no original francês é Dans l'Invisible.

Nossa expectativa é que este estudo sirva para o leitor como uma forma de iniciação aos chamados Clássicos do Espiritismo.

Cada parte do estudo compõe-se de:

a) questões preliminares;

b) texto para leitura.

As respostas às questões propostas encontram-se no final do texto indicado para leitura.

Este estudo é publicado sempre às sextas-feiras.

 

Questões preliminares

 

A. A fé e a vontade são fatores importantes na terapia por meio da imposição das mãos? 

B. É verdade que o magnetismo não se limita à ação terapêutica?

C. Como e onde se iniciou a história do moderno Espiritualismo?

 

Texto para leitura

 

608. A vontade de aliviar ou de curar comunica ao fluido magnético propriedades curativas. O remédio para os nossos males está em nós. Um homem bom e sadio pode atuar sobre os seres débeis e enfermiços, regenerá-los por meio de sopro, pela imposição das mãos e mesmo mediante objetos impregnados da sua energia. Opera-se mais frequentemente por meio de gestos, denominados passes, rápidos ou lentos, longitudinais ou transversais, conforme o efeito, calmante ou excitante, que se quer produzir nos doentes. Esse tratamento deve ser seguido com regularidade e as sessões renovadas todos os dias até a cura completa.

609. Pode assim a pessoa, pela automagnetização, tratar-se a si mesma, descarregando com o auxílio de passes ou de fricções os órgãos enfraquecidos e impregnando-os das correntes de força desprendidas das mãos.

610. A fé vivaz, a vontade, a prece e a evocação dos poderes superiores amparam o operador e o sensitivo. Quando ambos se acham unidos pelo pensamento e pelo coração, a ação curativa é mais intensa.

611. A exaltação da fé, que provoca uma espécie de dilatação do ser psíquico e o torna mais acessível aos influxos do Alto, permite admitir e explicar certas curas extraordinárias operadas nos lugares de peregrinação e nos santuários religiosos. Esses casos de curas são numerosos e baseados em testemunhos muito importantes para que se possa a todos pôr em dúvida. Não são peculiares a tal ou tal religião: encontram-se indistintamente nos mais diversos meios: católicos, muçulmanos, hindus etc.

612. Livre de todo acessório teatral, de todo móvel interesseiro, praticado com o fim de caridade, o magnetismo vem a ser a medicina dos humildes e dos crentes, do pai de família, da mãe para seus filhos, de quantos sabem verdadeiramente amar. Sua aplicação está ao alcance dos mais simples. Não exige senão a confiança em si, a fé no Poder Infinito que por toda parte faz irradiar a vida e a força. Como o Cristo e os apóstolos, como os santos, os profetas e os magos, todos nós podemos impor as mãos e curar, se temos amor aos nossos semelhantes e o desejo ardente de os aliviar.

613. Quando o paciente se acha adormecido sob a influência magnética e parece oferecer-se à sugestão, não a empregueis senão com palavras de doçura e de bondade. Persuadi, em lugar de intimar. Em todos os casos, recolhei-vos em silêncio, sozinho com o paciente, e apelai para os Espíritos benfazejos que pairam sobre as dores humanas. Então sentireis descer do Alto sobre vós e propagar-se ao sensitivo o poderoso influxo. Uma onda regeneradora penetrará por si mesma até à causa do mal; e demorando, renovando semelhante ação, tereis contribuído para aligeirar o fardo das misérias terrestres.

614. Quando se observa o grande poder do magnetismo curativo e os serviços que já tem prestado à Humanidade, sente-se que nunca seria demasiado protestar contra as tendências dos poderes públicos, em certos países, no sentido de lhe embaraçar o livre exercício. Assim procedendo, eles violam os mais respeitáveis princípios, calcam aos pés os sagrados direitos do sofrimento. O magnetismo é um dom da Natureza e de Deus. Regular-lhe o uso, coibir os abusos, é justo. Impedir, porém, a sua aplicação seria usurpar a ação divina, atentar contra a liberdade e o progresso da Ciência e fazer obra de obscurantismo.

615. O magnetismo não se limita, unicamente à ação terapêutica; tem um alcance muito maior. É um poder que desata os laços constritores da alma e descerra as portas do mundo invisível; é uma força que em nós dormita e que, utilizada, valorizada por uma preparação gradual, por uma vontade enérgica e persistente, nos desprende do pesadume (1) carnal, nos emancipa das leis do tempo e do espaço, nos dá poder sobre a Natureza e sobre as criaturas.

616. O sono magnético tem diversas graduações, que se desdobram e vão do sono ligeiro até ao êxtase e ao transe. O coronel De Rochas considera os três primeiros graus como superficiais e constitutivos da hipnose. A sugestão é aplicável a esses estados; desde que, porém, aos processos hipnóticos se acrescentam os dos magnetizadores, fenômenos superiores se apresentam: catalepsia, sonambulismo, transe. No primeiro caso, verifica-se o estado favorável às manifestações espíritas: materializações de Espíritos, aparições de clarões, mãos, fantasmas etc.; no segundo, apresenta-se a lucidez, o estado de clarividência, que permite ao médium guiar o magnetizador em sua ação curativa, descrevendo a natureza das enfermidades, indicando remédios etc.

617. Nos estados superiores do sonambulismo, o sensitivo escapa à ação do magnetizador e readquire sua liberdade própria, sua vida espiritual. Quanto mais se acentua o desprendimento do corpo fluídico, mais inerte se torna o corpo físico, em um estado semelhante ao da morte. Ao mesmo tempo, os pensamentos, as sensações se apuram, a repulsa à vida terrestre se manifesta. A volta ao organismo provoca cenas pungitivas, acessos de lágrimas, amargos queixumes.

618. O mundo dos fluidos, mais que qualquer outro, está submetido às leis da atração. Pela vontade, atraímos forças boas ou más, em harmonia com os nossos pensamentos e sentimentos. Delas se pode fazer uso formidável; mas aquele que se serve do poder magnético para o mal, cedo ou tarde o vê contra si próprio voltar-se. A influência perniciosa exercida sobre os outros, em forma de sortilégios, de feitiçaria, de enguiço, recai fatalmente sobre aquele que a engendrou.

619. Em hipnotismo, como em magnetismo, se o operador não tem intenções puras, caráter reto, a experimentação será arriscada tanto para ele quanto para o sensitivo. Não penetreis, pois, nesse domínio sem a pureza de coração e a caridade. Nunca ponhais em ação as forças magnéticas, sem lhes acrescentar o impulso da prece e um pensamento de amor sincero por vossos semelhantes. Assim procedendo, estabelecereis a harmonia de vossos fluidos com o dinamismo divino e tornareis sua ação mais profunda e eficaz.

620. Pelo magnetismo transcendente – o dos grandes terapeutas e dos iniciados – o pensamento se ilumina; sob o influxo do Alto os nossos sentimentos se exaltam; uma sensação de calma, de vigor, de serenidade nos penetra; a alma sente, pouco a pouco, dissiparem-se todas as mesquinhas subalternidades do “eu” humano e surgirem os aspectos superiores de sua natureza. Ao mesmo tempo em que aprende a esquecer-se de si, em benefício e para salvação dos outros, sente despertarem-se-lhe novas e desconhecidas energias.

621. Possa o magnetismo benfazejo desenvolver-se na Terra, pelas aspirações generosas e pela elevação das almas! Tenhamos bem presente que toda ideia contém no estado potencial sua realização, e saibamos comunicar a nossas vibrações fluídicas a irradiação de nobres e elevados pensamentos. Que uma vigorosa corrente ligue entre si as almas terrestres e as vincule a suas irmãs mais velhas do Espaço! Então as maléficas influências, que retardam a marcha e o progresso da Humanidade, se dispersarão sob os influxos do espírito de amor e sacrifício.

622. Fenômenos espontâneos - Casas mal-assombradas – Tiptologia: Logo que se esflora o estudo das manifestações espíritas, uma primeira necessidade se impõe: a de uma classificação metódica e rigorosa. Ao primeiro aspecto, a massa dos fatos é considerável e apresenta uma certa confusão. Acompanhando o desenvolvimento do moderno Espiritualismo, há meio século, reconhecemos que esses fatos se têm graduado, desdobrado em série, obedecendo a um programa traçado, a um método preciso, de modo a pôr cada vez mais em evidência a causa que os produzia.

623. Vaga e confusa a princípio, nos fenômenos das casas mal-assombradas, a personalidade oculta começa a afirmar-se na tiptologia e depois na escrita; adquire caracteres determinados na incorporação mediúnica e torna-se visível e tangível nas materializações. Nessa ordem é que se têm desenvolvido os fatos, multiplicando-se progressivamente, de modo a atrair a atenção dos indiferentes, a forçar a opinião dos cépticos e a demonstrar a todos a sobrevivência da alma humana.

624. Essa ordem, a que se poderia chamar histórica, é a que por nossa parte adotaremos em nosso estudo dos fenômenos espíritas. Poder-se-ia igualmente dividir este em duas categorias: os fatos de natureza física e os fatos intelectuais. Nos primeiros, o médium desempenha papel passivo; é o foco de emissão, de que emanam os fluidos e as energias com cujo concurso os invisíveis atuarão sobre a matéria e manifestarão sua presença. Nos outros fenômenos o médium exerce função mais importante. É ele o agente transmissor dos pensamentos do Espírito; e, como vimos precedentemente, seu estado psíquico, suas aptidões, seus conhecimentos, influem, às vezes, de modo sensível nas comunicações obtidas.

625. A história do moderno Espiritualismo começou por um caso de natureza mal-assombrada. As manifestações na casa de Hydesville, assim visitada, em 1848, e as tribulações da família Fox, que nela residia, são bem conhecidas. Recordá-las-emos apenas em um breve resumo.

626. Todas as noites, uma Inteligência invisível acusava estar presente por meio de ruídos violentos e contínuos, abrindo e fechando as portas, arrastando os móveis, arrebatando as roupas das camas. Mãos frias e rudes agarravam as Srtas. Fox e o soalho oscilava sob uma ação desconhecida.

627. Mediante pancadas nas paredes – sendo cada letra do alfabeto designada por um número correspondente de pancadas –, essa Inteligência afirmou ter vivido na Terra. Soletrou seu nome, Carlos Rosma, indicou sua profissão de mascate e entrou em muitas particularidades acerca do seu fim trágico, particularidades ignoradas de todos e cuja exatidão foi reconhecida pela descoberta de ossadas humanas na adega, precisamente no lugar indicado pelo Espírito como o do enterramento do seu cadáver, após o assassínio.  Essas ossadas achavam-se misturadas com resíduos de carvão e cal, que demonstravam a evidente intenção de fazer desaparecer todo vestígio desse misterioso acontecimento.

628. Afluíram os curiosos; a casa tornou-se insuficiente para conter a multidão, vinda de todas as partes. Ocasião houve em que se reuniram quinhentas pessoas para ouvirem os ruídos. Foi por essa manifestação, tão nova e tão estranha para aqueles que a testemunharam, numa humilde casa de uma pobre vila do Estado de Nova Iorque, em presença de pessoas da mais modesta condição, que o segredo da morte foi divulgado por um ser invisível, no silêncio da noite. Pela primeira vez, nos tempos modernos, um pouco de claridade penetrou por sob a porta que separa o mundo dos vivos do mundo dos desencarnados.

629. Por sua natureza espontânea, inesperada, pelas comovedoras circunstâncias que a rodeiam, essa manifestação escapa a todas as explicações e teorias que se têm procurado opor ao Espiritismo. A sugestão, do mesmo modo que a alucinação e o inconsciente, é impotente para explicá-la. A família Fox era de uma honorabilidade a toda prova, ligada à Igreja Episcopal Metodista, cujos ofícios frequentava com regularidade. Educados na mais estrita rotina religiosa, todos os seus membros ignoravam a possibilidade de tais fatos, a cujo respeito se achavam absolutamente desprevenidos.

630. Longe de obterem de tais manifestações a mínima vantagem, estas foram para eles a causa de desgostos e de perseguições sem conta. Com elas perderam a saúde e o sossego. Sua reputação e seus recursos ficaram destruídos. Apesar de todos os esforços que empregaram para os evitar, e de uma partida precipitada e mudança de residência, os fenômenos os perseguiram sem tréguas, sendo tudo inútil para escaparem à ação dos Espíritos.

631. Às reiteradas injunções dos invisíveis, não houve remédio senão tornar públicas as manifestações, afrontar o palco do Corinthian-Hall, em Rochester, suportar os humilhantes rigores de muitas comissões de exame e os insultos de um público hostil, para provar a possibilidade das relações entre os dois mundos, visível e invisível.

632. Voltemos à casa mal-assombrada de Hydesville. Carlos Rosma (ou Rosna) não era o único a aí se manifestar. Um grande número de Espíritos de todas as condições, parentes ou amigos das pessoas presentes, intervinham, respondendo por pancadas às perguntas feitas, soletrando seus nomes próprios, fornecendo indicações exatas e inesperadas de sua identidade, dando explicações sobre os fenômenos produzidos e o modo de os obter, explicações que tiveram como resultado a formação dos primeiros círculos ou grupos, nos quais os fatos foram estudados e provocados com o auxílio de mesinhas, pranchetas e outros objetos materiais.

633. Os Espíritos precursores declaravam não agir por sua iniciativa. Essas manifestações, diziam eles, eram o resultado da vontade e da direção dos Espíritos mais elevados, filósofos e sábios, executores, por sua vez, de ordens vindas de mais alto e tendo por objetivo uma vasta e importante revelação que se devia estender ao mundo inteiro.

634. Com efeito, a intervenção desses Espíritos e, entre outros, do Dr. Benjamin Franklin, foi repetidas vezes comprovada. Mais tarde, nas sessões de aparição de Estela Livermore, em Nova Iorque, esse mesmo Benjamin Franklin se tornou visível e foi reconhecido por várias pessoas.

635. Dentro em pouco as manifestações se multiplicaram e propagaram. De cidade em cidade, de Estado em Estado, invadiram todo o norte da América. O poder mediúnico se revelou num grande número de pessoas e até no seio de famílias ricas, influentes, ao abrigo de toda suspeita de fraude.

636. Houve, sem dúvida, no começo muita incerteza e confusão. Nem sempre os atores invisíveis eram sérios: Espíritos levianos e atrasados se imiscuíam nas sessões, ditando comunicações pueris, absurdas, e permitindo-se toda sorte de divagações e excentricidades; mas também se obtinham fatos importantes, ditados de real merecimento, como o atestam o reverendo Jervis, ministro metodista de Rochester, o Dr. Langworth, o reverendo Ch. Hannon etc.

637. Todos esses fatos tiveram sua utilidade, no sentido de ensinarem a conhecer os diferentes aspectos do mundo invisível. Graças aos erros e decepções, pôde ser adquirida a experiência das coisas ocultas e pouco a pouco se fez luz sobre as condições da vida no além-túmulo. O movimento se tornou permanente e simultâneo. Pode-se dizer que o Espiritismo não partiu de um ponto fixo; brotou espontaneamente de todos os Estados da União, independente da iniciativa humana, e prosseguiu sua rota, apesar dos obstáculos de toda ordem acumulados pela ignorância e pelos malévolos preconceitos.

638. Desde seu aparecimento, porém, sublevou contra si todos os poderes constituídos, todas as influências, todas as autoridades deste mundo, e por único sustentáculo teve alguns humildes servidores da Verdade, pessoas na maior parte obscuras, mas que uma legião invisível fortalecia e amparava.

639. Nada mais tocante que as exortações e conselhos prodigalizados às irmãs Fox por seus Espíritos protetores, conselhos sem os quais, mocinhas tímidas e assustadiças, jamais teriam ousado arrostar, com risco da própria vida, um público ameaçador, nem suportar as cenas tumultuosas do Corinthian-Hall.

640. As injúrias, as calúnias, todos os excessos de uma imprensa em delírio tiveram sobretudo como resultado atrair a atenção pública para esses fenômenos estranhos e demonstrar aos observadores sérios que aí intervinham causas independentes da vontade do homem. Delineado por mãos poderosas e impalpáveis, desdobrava-se um plano, cuja realização nada poderia embaraçar. (Continua no próximo número.)

 

(1) Pesadume: peso, carga, carregamento; azedume, acrimônia, aspereza.

 

Respostas às questões preliminares

 

A. A fé e a vontade são fatores importantes na terapia por meio da imposição das mãos? 

Sim. A fé vivaz, a vontade, a prece e a evocação dos poderes superiores amparam o operador e o sensitivo. Quando ambos se acham unidos pelo pensamento e pelo coração, a ação curativa é mais intensa. A vontade de aliviar ou de curar comunica ao fluido magnético propriedades curativas. Um homem bom e sadio pode atuar sobre os seres débeis e enfermiços, regenerá-los por meio de sopro, pela imposição das mãos e mesmo por meio de objetos impregnados da sua energia. (No Invisível - O Espiritismo experimental: Os fatos - XV - A força psíquica - Os fluidos - O magnetismo.)

B. É verdade que o magnetismo não se limita à ação terapêutica?

Sim, é verdade. O magnetismo tem um alcance muito maior. É um poder que desata os laços constritores da alma e descerra as portas do mundo invisível; é uma força que em nós dormita e que, utilizada, valorizada por uma preparação gradual, por uma vontade enérgica e persistente, nos desprende do pesadume (1) carnal, nos emancipa das leis do tempo e do espaço, nos dá poder sobre a Natureza e sobre as criaturas. O sono magnético tem diversas graduações, que se desdobram e vão do sono ligeiro até ao êxtase e ao transe. (Obra citada - O Espiritismo experimental: Os fatos - XV - A força psíquica - Os fluidos - O magnetismo.)

C. Como e onde se iniciou a história do moderno Espiritualismo?

Ela começou por um caso de natureza mal-assombrada: as manifestações na casa da família Fox, em Hydesville, Estados Unidos, no início do ano de 1848. Mediante pancadas nas paredes – sendo cada letra do alfabeto designada por um número correspondente de pancadas –, a Inteligência que assim se comunicava afirmou ter vivido na Terra. Soletrou seu nome, indicou sua profissão de mascate e entrou em muitas particularidades acerca do seu fim trágico, particularidades ignoradas de todos e cuja exatidão foi reconhecida mais tarde. (Obra citada - O Espiritismo experimental: Os fatos - XVI - Fenômenos espontâneos - Casas mal-assombradas – Tiptologia.)

 

 

Observação:

Para acessar a Parte 21 deste estudo, publicada na semana passada, clique aqui: https://espiritismo-seculoxxi.blogspot.com/2023/06/no-invisivel-leon-denis-parte-21-damos.html

 

 

 

 


 

 

 

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