sexta-feira, 27 de março de 2020



O Espiritismo perante a Ciência

Gabriel Delanne

2ª Parte

Continuamos o estudo do clássico O Espiritismo perante a Ciência, de Gabriel Delanne, conforme tradução da obra francesa Le Spiritisme devant la Science.
Nosso objetivo é que este estudo possa servir para o leitor como uma forma de iniciação aos chamados Clássicos do Espiritismo.
Cada parte do estudo compõe-se de:
a) questões preliminares;
b) texto para leitura.
As respostas às questões propostas encontram-se no final do texto abaixo. 

Questões preliminares

A. As transformações da matéria obedecem a alguma lei?
B. Que dedução se pode tirar quando se examina o desenvolvimento da vida ao longo dos períodos geológicos?
C. A força e a matéria são princípios independentes um do outro?

Texto para leitura

35. Existem terras como a nossa, que obedecem a regras invariáveis, cuja harmonia é de tal forma grandiosa, que o espírito, espantado e confuso diante de tantas maravilhas, não pode duvidar de que uma profunda sabedoria tenha presidido ao seu planejamento. Não é preciso lembrar a um sábio como Moleschott a extrema complicação da máquina celeste e a harmonia que a caracteriza, a qual, obviamente, não pode ter nascido do caos nem ser fruto do acaso.
36. As transformações da matéria se fazem em virtude de leis imutáveis, guiadas pela mais inflexível lógica; eis por que acreditamos em uma inteligência suprema, reguladora do Universo.
37. Sabemos, como Moleschott, que nada se cria, que nada se perde em nosso pequeno mundo. A Astronomia nos ensina que a Terra rodopia em torno do Sol através dos campos da extensão e sabemos que a gravidade retém em sua superfície todos os corpos que a compõem. Podemos compreender perfeitamente, portanto, que ela não adquire nem perde coisa alguma em sua incessante carreira. Provam-nos as novas descobertas que todas as substâncias se transformam umas nas outras, que os corpos, estudados à luz da química, diferem pelo número e pela proporção dos elementos simples que entram em sua composição. Nada é mais exato e ninguém pensa em contestar essas verdades demonstradas.
38. Se encararmos a multiplicidade enorme das trocas que se realizam entre todos os corpos, o que mais nos surpreende não são essas combinações em si, mas o maravilhoso conhecimento das necessidades de cada ser que elas atestam. Nada se perde no imenso laboratório da Natureza. Todos os seres, por ínfimos que nos pareçam, têm sua utilidade para o bom funcionamento do conjunto da criação; cada substância é utilizada de forma a produzir seu máximo de efeito, e a “circulação da matéria” entretém a vida na superfície do nosso Globo. Esse movimento perpétuo é a alma do mundo e, quanto mais complicado ele é, quanto mais variado, tanto mais testemunha em favor de uma ação diretriz.
39. A ciência contemporânea descobriu nossas origens; sabemos que, desde quando a Terra não era mais que um amontoado de matéria cósmica, produziram-se metamorfoses que a trouxeram lentamente, gradualmente, à época atual. É em razão dessa progressão evolutiva que reconhecemos a necessidade de uma influência que se exerce de maneira constante, para conduzir os seres e as coisas da fase rudimentar a estados cada vez mais aperfeiçoados.
40. Não se pode negar, quando examinamos o desenvolvimento da vida através dos períodos geológicos, que uma inteligência haja dirigido a marcha ascendente de tudo o que existe, para um fim que ignoramos, mas cuja existência é evidente. E é fácil verificar que os seres se têm modificado de maneira contínua, em virtude de um plano grandioso, à medida que as condições da vida se transformam na superfície do Globo.
41. A que agente atribuir essa marcha progressiva? É o acaso que combina, com tanto cuidado, a ação de todos os elementos? Seria absurdo supô-lo, pois o acaso é uma palavra que significa a ausência de todo o cálculo, de toda a previsão. Afastada esta hipótese, restam-nos as leis físico-químicas de que fala Moleschott.
42. Nunca se admitiu que o oxigênio se combinasse por prazer com o hidrogênio; o azoto, o fósforo, o carbono etc. têm propriedades que possuem de toda a eternidade, é evidente; mas não é menos verdade que se trata de forças cegas, que não se dirigem em virtude de um impulso próprio, e se estas energias passivas ao se aliarem produzem resultados harmônicos, bem coordenados, é que elas são postas em ação por um poder que as domina. A Química, a Física, a Astronomia, explicando os fatos que pertencem às suas respectivas esferas, de forma alguma atingiram a causa primária. A Biologia moderna também não toca nessa causa e não suprime Deus; ela o vê mais longe e, sobretudo, mais alto.
43. Examinemos, agora, a segunda proposição de Moleschott, que pretende seja a força um atributo da matéria, isto é, que impossível seja conceber uma sem a outra. Em sua opinião, estudar separadamente a força e a matéria é uma falta de senso, donde resulta que, estando a energia contida na matéria, as forças como a alma, o pensamento, Deus, não são mais que propriedades dessa matéria. Se demonstrarmos que tal asserção é falsa, estabeleceremos, implicitamente, a realidade da alma.
44. Para responder a um sábio não há melhor método que o de lhe opor outros sábios. Diz d'Alembert, secundando Newton, “que um corpo abandonado a si próprio deve persistir eternamente em seu estado de movimento ou de repouso uniforme”. Em outras palavras: estando um corpo em repouso, não poderia por si mesmo deslocar-se. Laplace assim exprime o mesmo pensamento. Um ponto em repouso não pode dar a si o movimento, pois que não dispõe de raciocínio que o faça mover num sentido em vez de outro. Solicitado por uma força qualquer e, em seguida, abandonado a si mesmo, move-se constantemente de maneira uniforme, na direção dessa força; não experimenta nenhuma resistência; em todo o tempo, sua força e sua direção de movimento são as mesmas. Essa tendência da matéria para perseverar em seu estado de movimento e de repouso é o que se chama inércia. É esta a primeira lei do movimento dos corpos.
45. Newton, d'Alembert e Laplace reconhecem, pois, que a matéria é indiferente ao movimento e ao repouso, que só se move quando uma força atua sobre ela, porque, naturalmente, é inerte. É, portanto, uma afirmação gratuita e sem fundamento científico atribuir força à matéria. Cremos que dificilmente podem recusar-se o testemunho e a competência dos três grandes homens acima citados. Para dar mais peso, entretanto, à nossa asserção, diremos que o Cardeal Gerdil e Euler estabeleceram, por cálculos matemáticos, a certeza da inércia dos corpos.
46. Mas não só os matemáticos trataram dessa questão: M. H. Martin, em seu livro As ciências e a filosofia, demonstra, segundo o Sr. Dupré, que em virtude das leis da termodinâmica é necessário admitir uma ação inicial exterior e independente da matéria. Aliás, é fácil a convicção, raciocinando de acordo com o método positivo, de que o testemunho dos sentidos não pode fazer-nos ver a força como um atributo da matéria; ao contrário, verificamos pela experiência cotidiana que um corpo fica inerte e permanecerá eternamente na mesma posição se nada lhe vier dar o movimento. Uma pedra, que lançarmos, permanece, depois de sua queda, no estado em que se achava quando a força que a animava cessou de atuar. Uma bola não rolará sem o primeiro impulso que lhe determine o deslocamento. Sendo o Universo o conjunto dos corpos pode-se dizer do conjunto da criação o que se diz de cada corpo em particular, e se o Universo está em movimento, é impossível achar que a causa desse movimento esteja nele próprio.
47. Vê-se, pois, que Moleschott não foi feliz na escolha de suas afirmações. Erige como verdade os pontos mais contestáveis; não é, pois, de surpreender que, partindo de dados tão falsos, chegue a conclusões absolutamente errôneas. O estudo imparcial dos fatos nos leva, em verdade, a encarar o mundo como formado de dois princípios independentes um do outro: a força e a matéria. E é preciso, além disso, observar que a força é a causa efetiva a que obedecem os seres, orgânicos ou não. Todas as forças, portanto, designadas sob os nomes de Deus, alma, vontade, têm uma existência real fora da matéria e esta nada mais é do que instrumento passivo, sobre o qual elas se exercem.
48. Continuando a análise do livro de Moleschott, ver-se-á que em suas apreciações sobre o homem ele não mostra mais perspicácia do que em seu estudo sobre a Natureza. O grande argumento que ele oferece como prova de convicção é o mesmo que o dos materialistas em geral. Consiste em dizer que é o cérebro que segrega o pensamento.
49. Os materialistas se encontram em face desse problema: o homem pensa; o pensamento não tem nenhuma das qualidades da matéria; é invisível, não tem forma, nem peso, nem cor; entretanto, existe. É preciso, pois, por se mostrarem coerentes, que o façam provir da matéria. Mas é grande a dificuldade para explicar como uma coisa material, o cérebro, pode engendrar uma ação imaterial, o pensamento. Vemos, então, desfilarem os sofismas, com o auxílio dos quais nossos adversários dão a aparência de um arrazoado.
50. Que o cérebro é necessário à manifestação do pensamento, os filósofos gregos já o sabiam, mas não caíam, por isso, no erro dos céticos de hoje, pois eles estabeleceram a distinção entre a causa e o instrumento que serve para produzir o efeito.
51. Certos fisiologistas, como Cabanis, não encaram o assunto dessa maneira. Diz ele: “Vemos as impressões chegarem ao cérebro por intermédio dos nervos; elas se acham, então, isoladas e sem coerência. O órgão entra em ação, age sobre as impressões e as reenvia metamorfoseadas em ideias, que se manifestam, exteriormente, pela linguagem da fisionomia ou do gesto, pelos sinais da palavra ou da escrita. Concluímos, com a mesma segurança, que o cérebro digere, de alguma sorte, estas impressões; que ele faz, organicamente, a secreção do pensamento”.
52. Tal doutrina tão bem se implantou no espírito dos materialistas que, segundo Carl Vogt, os pensamentos têm com o cérebro quase “a mesma relação que a bílis com o fígado ou a urina com os rins”.
53. Moleschott, seguindo nessa linha de pensamento, diz a seu turno, variando um pouco a argumentação: “O pensamento não é mais que um fluido, como o calor ou o som; é um movimento, uma transformação da matéria cerebral; a atividade do cérebro é uma propriedade do cérebro, tão necessária como a força, por toda parte inerente à matéria, de que é caráter essencial e inalienável. É tão impossível que o cérebro intacto não pense, como é impossível seja o pensamento ligado a outra matéria que não o cérebro”.
54. Segundo ele, qualquer alteração do pensamento modifica o cérebro, e qualquer dano a esse órgão suprime o pensamento no todo ou em parte. Afirma ele: “Sabemos, por experiência, que a abundância excessiva do líquido cefalorraquidiano produz o estupor; a apoplexia é seguida do aniquilamento da consciência; a inflamação do cérebro provoca o delírio; a síncope, que diminui o movimento do sangue para o cérebro, provoca a perda do conhecimento; a afluência do sangue venoso para o cérebro produz a alucinação e a vertigem; uma completa idiotia é o efeito necessário, inevitável, da degenerescência dos dois hemisférios cerebrais; enfim, toda excitação nervosa na periferia do corpo só desperta uma sensação consciente no momento em que repercute no cérebro”.
55. Toda a argumentação de Moleschott consiste em dizer que, com órgãos sãos, os atos intelectuais se exercem facilmente; ao contrário, se o cérebro adoece, a alma não pode mais se servir dele, e as faculdades reaparecem quando as causas que o alteravam cessam de agir. É sempre a história do piano. Se uma das cordas chega a quebrar-se, será impossível fazer vibrar a nota que lhe corresponde; substitua-se a corda e imediatamente o som voltará a produzir-se. Mas, quando fosse demonstrado que o pensamento é sempre a resultante do estado do cérebro, não bastaria isso para afirmar-se que o encéfalo produz o pensamento. Quando muito, daí se poderiam induzir as relações íntimas existentes entre ambos, pois não está ainda provado que a integridade do cérebro seja indispensável à produção dos fenômenos espirituais.
56. Afirma Longet, cuja competência em fisiologia é unanimemente reconhecida: “Nunca se negou a solidariedade dos órgãos sãos com uma inteligência sã – mens sana in corpore sano; mas essa dependência tão natural não é de tal forma absoluta que se não encontrem numerosos exemplos do contrário; veem-se débeis crianças assombrar pela precocidade da inteligência e extensão do espírito; velhos decrépitos, já vizinhos da tumba, conservar intactos os julgamentos, a memória, o fogo do gênio, o ardor da coragem”.
57. Segundo Longet, a loucura é acompanhada, muitas vezes, de uma lesão apreciável dos centros nervosos, mas há casos em que Esquirol e os autores mais conscienciosos afirmaram não haver encontrado nenhum vestígio de alteração no cérebro, o que mostra que suas conclusões não são inteiramente a favor de Moleschott e que não é possível afirmar que o pensamento esteja sempre em harmonia com a integridade do cérebro; logo, ele não é produzido pelo cérebro.
58. Outra tese do sábio holandês atribui o pensamento a uma vibração da matéria cerebral. Seria essa teoria mais justa que as precedentes? Desde logo esbarramos numa dificuldade: é difícil compreender como uma sensação gera uma ideia. A sensação é uma impressão produzida nos nervos sensitivos por um abalo externo; este determina um movimento ondulatório que se propaga até o cérebro pelas fibras nervosas. Lá chegado, esse movimento faz vibrar as células. Mas como pode o movimento mecânico das células determinar uma ideia? Como compreender que esse abalo seja percebido pelo ser pensante?
59. As células nervosas não são, por si mesmas, inteligentes; o movimento vibratório é simples ação material. Como pode o pensamento nascer desse abalo das células nervosas? Foi o que se esqueceram de ensinar-nos.
60. Os espiritualistas, por sua vez, interpretam os fatos dizendo que há em nós uma individualidade intelectual, que é advertida por essa vibração de que uma ação foi exercida sobre o corpo, e é quando a alma tem consciência desse movimento vibratório que nós experimentamos a percepção.
61. O fenômeno tão comum da distração mostra que tudo se passa assim. Quando trabalhamos num aposento, não acontece frequentemente ficarmos insensíveis ao tique-taque de um relógio? Não sucede, mesmo, ficarmos insensíveis às horas que batem? Por que não as ouvimos? As vibrações, produzidas pelo som impressionaram nosso ouvido, propagaram-se através do organismo até o cérebro, mas, estando a alma preocupada por outros pensamentos, não pôde transformar a sensação em percepção, de sorte que não tivemos consciência dos ruídos produzidos pelo relógio. Esse simples fato demonstra, de maneira concludente, a existência da alma.

Respostas às questões preliminares

A. As transformações da matéria obedecem a alguma lei?
Sim. Elas se fazem em virtude de leis imutáveis, guiadas pela mais inflexível lógica. Prova disso é a harmonia grandiosa que caracteriza a máquina celeste, fato que não pode ter nascido do caos nem ser fruto do acaso. (O Espiritismo perante a Ciência, Primeira Parte, Cap. I.)
B. Que dedução se pode tirar quando se examina o desenvolvimento da vida ao longo dos períodos geológicos?
A dedução que daí decorre é de que uma inteligência haja dirigido a marcha ascendente de tudo o que existe, para um fim que ignoramos, mas cuja existência é evidente. É fácil verificar que os seres se têm modificado de maneira contínua, em virtude de um plano grandioso, à medida que as condições da vida se transformam na superfície do Globo. A que agente atribuir essa marcha progressiva? É o acaso que combina, com tanto cuidado, a ação de todos os elementos? Seria absurdo supô-lo, pois o acaso é uma palavra que significa a ausência de todo o cálculo, de toda a previsão. (Obra citada, Primeira Parte, Cap. I.)
C. A força e a matéria são princípios independentes um do outro?
Sim. A experiência e o raciocínio indicam que a força não é simples atributo da matéria; ao contrário, o estudo dos fatos nos leva a considerar a força e a matéria como princípios independentes. A força é a causa efetiva a que obedecem os seres, orgânicos ou não. A matéria é instrumento passivo, sobre o qual ela se exerce. (Obra citada, Primeira Parte, Cap. I.)


Observação:
Para acessar a 1ª Parte deste estudo, publicada na semana passada, clique aqui: https://espiritismo-seculoxxi.blogspot.com/2020/03/o-espiritismoperante-ciencia-gabriel.html




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